A Senhora do Fim do Mundo – Capítulo I

PRÓXIMO CAPÍTULO


O Destino é perverso; quando pensamos que temos nossas vidas em nossas mãos, Ele faz questão de aparecer, cuspir em nossa cara, e dizer que todas as nossas suposições estavam erradas. Como as Nornas costumam nos dizer: O Destino é inevitável.
— Loki, Devaneios de uma mente sã.


Cavalgava com paciência pela larga estrada de terra. A mulher não tinha pressa para chegar em seu destino, muito menos seu cavalo. Ao que tudo parecia, os dois estavam em completa sincronia em relação a isso.

Uma leve brisa soprava as folhas secas dispostas na estrada, as quais acabavam por, muitas vezes, flutuar até seu rosto. Não foram poucas as vezes em que xingou a natureza pelas brincadeiras de mal gosto.

Apesar de cavalgar em lentidão, escolheu o caminho mais curto para chegar em seu objetivo, embora fosse o mais perigoso. Tal fator pesava pouco na hora de suas escolhas; não era como se ela precisasse se preocupar com algum ataque.

No entanto, parecia que a mulher esquecera da tal natureza, a qual ela tanto xingou pelo caminho. Sentiu mais uma vez o vento soprar-lhe os cabelos dourados, mas dessa vez, numa intensidade muito maior.

Aquela não era uma ventania comum. Moveu seu olhar para o céu, azul e limpo, dando de cara com uma aberração voadora. O sol estava brilhando forte, não conseguiu enxergar o que pairava sobre sua cabeça, mas já sabia o que era.

O monstro mergulhou em direção a ela. Sabendo que o ataque viria rápido, a mulher bateu com os calcanhares no seu garanhão, fazendo-o correr. Sentiu as garras da fera passar raspando por cima de sua cabeça.

A mulher xingou baixinho puxou as rédeas e deu meia-volta. O cavalo relinchou e empinou, mas ela conseguiu domá-lo a tempo de esquivar para o lado quando um segundo par de asas mergulhou na sua direção.

Não pensou muito; desembainhou sua espada. Havia runas inscritas na lâmina escura como o fundo de um poço, as quais brilharam num verde intenso e venenoso.

Esporeou o cavalo, berrando excitada com o fervor da batalha. Os monstros guincharam; tinham cabeça de águia e suas patas dianteiras remetiam às garras do animal. O restante do corpo pertencia a um leão. Grifos, concluiu a loira, a espada reluzindo a luz do sol.

Os grifos mergulharam mais uma vez para o ataque.

Agarrou-se no pescoço do seu garanhão, colando o rosto nele. Deixou que os monstros passassem por ela, fazendo o vento sibilar ao seu redor. Quando percebeu que um dos grifos estava exatamente a sua direita, agarrou a asa do animal, apenas o suficiente para que fosse levada por ele.

O grifo começou a se debater quando a mulher conseguiu subir em suas costas. Girava no ar, guinchava ainda mais alto enquanto seu companheiro voava ao lado, seus olhos de águia postos sobre a loira.

Ela foi rápida. Desceu a espada verticalmente, cortando a asa esquerda do grifo. Um corte limpo e preciso, que desestabilizou o voo da criatura.

Agora estavam em queda-livre. Ao chegar próximo do chão, a guerreira saltou e caiu ao lado do seu cavalo, que relinchou baixinho. O animal ferido grunhia no chão, tentando levantar voo, mas sem sucesso.

O outro feroz e orgulhoso grifo veio impetuoso ao encontro do companheiro. Parou em sua frente, farejou e chorou. Encarou a loira mais uma vez. Tinha uma aura violenta, embora desesperada.

— Vá embora! Não irei matá-lo — embainhou a espada.

— A asa voltará a crescer, não a cortei pela raiz.

Ouviu outro guincho, apesar deste ser parecer um agradecimento. O grifo agarrou seu amigo e levantou voo sem olhar para trás.


***

Apoiada na sacada de uma das inúmeras torres de seu castelo, a mulher de cabelos brancos observava o céu negro e deficiente de estrelas. Dragões, tão escuros quanto o próprio céu, voavam, quase como se dançassem, sobre sua cabeça. Fosse ao redor do gigantesco castelo branco, construído com ossos e sangue, ou no mais longínquo bosque de carne, ossos e morte, o rugido das temíveis feras podia ser ouvido, causando o medo no coração de quem o escutasse.

O vento soprava de uma maneira suave, acariciando o rosto delicado da mulher. Seus cabelos flutuavam logo atrás de si, como longos fios de seda branca.

Ela poderia ter ficado várias e várias horas absorta naquela mísera observação, analisando cada simples detalhe da vida e da morte. Contaria quantas escamas o maior dragão que sobrevoava sua torre tinha, enquanto o mesmo o encarava com seus olhos púrpuras. Entretanto, ela sabia que já esperavam por ela há algum tempo, embora aquilo não lhe importasse. Era a governante daquele reino, poderia fazer com que esperassem por toda a eternidade se desejasse.

Na verdade, ela ansiava aquilo. Queria poder parar o tempo, assim evitando quaisquer decisões difíceis que tivesse de fazer. Não precisaria sequer pensar em mais nada a não ser deitar e entregar a dádiva que ela mesma sempre ofereceu a todos, mas que jamais poderá adquirir.

O ranger da porta de madeira lhe fez acordar da espécie de transe que parecia estar. Um homem de pele cinza adentrara o aposento. Ajoelhou-se para prestar respeito a sua rainha.

— O senhor Tqir ainda a espera na sala do trono, minha rainha — o criado murmurou, com sua cabeça quase encostada no chão. Não ousava sequer olhar na direção de sua rainha.

— Estou ciente, Rozzor.

— Devo avisar que a senhora não irá recebê-lo?

— Avise que logo estarei lá — a rainha se virou e seguiu para dentro do aposento. Trajava um vestido preto de seda, bordado com fios de ouro branco na cintura. Um comprido colar de ossos ornava seu delgado pescoço, enquanto uma coroa de galhos podres e espinhos descansava em sua cabeça.

— Sim, majestade. — O criado se levantou, e do mesmo jeito que chegou, se foi, como vento.

Preciso de alguém que faça esse tipo de coisa no meu lugar pensou, enquanto ia para a sala do trono. Caminhava pelos corredores escuros e frios de seu castelo de forma lenta e discreta. Tochas de fogo púrpuros crepitavam, presas nas paredes de pedra do local. Pendurados no teto encontravam-se milhares de morcegos, que de tempos em tempos sobrevoavam a cabeça de quem quer que passasse pelo local.

Em frente a porta da sala do trono, dois robustos guerreiros de pedra montavam guarda, com suas lanças de aço cruzadas entre si. Ao ouvir os passos vindos do final do corredor, levantaram suas lanças e abriram a enorme porta de ferro, liberando caminho para sua rainha, que seguiu para o interior do salão.

 A sala do trono era um lugar espaçoso. Quinze guerreiros de pedra guardavam o salão, dispostos nos extremos do local, e assim que avistaram a rainha, começaram a bater suas lanças contra o chão. Colunas de pedra se erguiam para sustentar o pesado teto de mármore, enquanto dragões de aço negro penduravam-se nas paredes, com seus olhos purpúreos exalando intenção de matar. No fundo da sala, uma escadaria se erguia, e em seu topo, o Trono de Carne e Osso mantinha-se imponente diante de tudo no salão. Carne podre, ossos e unhas compunham o terrível aspecto de um trono que ninguém jamais quisera se sentar.

No pé da escada, um homem alto e encorpado esperava em pé, observando as exuberantes estátuas de aço. O robusto cavaleiro envergava uma armadura vermelha completa, com um símbolo de um lagarto na cor negra gravada em seu peito. Carregava seu elmo em forma de cabeça de um lagarto debaixo do braço, deixando sua careca exposta para que todos a observassem brilhar à luz das tochas de fogo púrpuro. Uma espada pendia de sua anca esquerda, com o pomo dourado como o sol.

Quando ouviu o bater de lanças, virou-se em direção a entrada do salão, onde encontrou a bela rainha caminhando lentamente em direção a escadaria. Nada disse, apenas acompanhou-a com o olhar, enquanto subia a escadaria.

As batidas cessaram no momento em que a mulher se sentou no trono, e em seu lugar, uma voz estridente surgiu, aos berros, vinda da entrada do salão.

— Todos saúdam a vossa rainha, Hel! A Senhora dos Mortos, Protetora das Almas, e Rainha de Helheim!

Os guerreiros que guardavam o salão bateram mais uma vez as lanças no chão, como resposta a ordem do homem na entrada. O silêncio seguiu às batidas, e o mesmo foi quebrado quando um pequeno dragão de aço soltou uma espécie de tentativa de rugido, voando até sua rainha. Pousou em seu ombro, soltando minúsculas labaredas de fogo branco.

— É um belo dragão. Assim como os outros que rondam o castelo. — O cavaleiro de armadura vermelha comentou despreocupadamente. A rainha manteve-se em silêncio, o encarando. — Creio que meus comentários não servem de nada.

— Você foi chamado até aqui para matar, não para fazer comentários sobre os meus dragões.

— Sim, concordo. Contudo, estou aqui há mais de quatro horas e ainda não sei qual o meu alvo, majestade. Acredito que a senhora saiba, mas não se pode matar sem se ter um alvo.

— Isto me pareceu uma reclamação, não concorda, Renir? — Disse Hel, acariciando a cabeça do filhote de dragão, o qual rosnou baixinho. — Renir não costuma tratar bem nossos hóspedes que não apreciam a estadia.

Um breve silêncio se instaurou. Hel encarava o cavaleiro, esperando por uma resposta, a qual chegou momentos depois:

— Entendo perfeitamente, majestade — ajoelhou-se. — Peço desculpas se o que acabei de falar soou como uma reclamação. Estou apenas ansioso para começar o trabalho.

— Sei que está.

— Então…

— Conhece a Ordem das Valquírias, senhor Tqir? — Perguntou, enquanto acenava para um criado, ordenando-o algo.

— Sim, majestade. São mulheres treinadas desde o início dos tempos para matar. Quando atingem a idade necessária, saem para as Caçadas, onde capturam guerreiros de outros mundos para compor o exército de Odin.

Enquanto Tqir falava, o criado servia uma taça de vinho para a rainha dos mortos. Hel bebericou da taça e cruzou as pernas, ajeitando-se no Trono de Carne e Ossos enquanto o criado mantinha-se imóvel ao seu lado.

O cavaleiro vermelho continuou.

— Segundo minhas experiências pelos Nove Mundos, as tais Valquírias aparecem apenas em tempos de guerra, e sempre em batalhas de proporções elevadas. Tive a chance de presenciar o maravilhoso trabalho dessas guerreiras em Svertalfheim, quando levaram um exército de elfos inteiro.

A Rebelião Negra dos Elfos da Luz, pensou Hel, acariciando Renir que cochilava em seu colo. Em Svertalfheim, a terra dos elfos, ocorrera uma invasão onde os Elfos Escuros escravizaram os Elfos da Luz. Séculos de escravidão transformaram o amor e a paz que os Elfos da Luz nutriam em seu coração em ódio e guerra.

Na tentativa de acabar com o sofrimento de seu povo, Folandris, um Elfo da Luz, recorreu a uma famosa bruxa de Midgard. Com seu auxílio, e através de magia das trevas, Folandris espalhou uma praga por Svertalfheim, a qual a bruxa lhe garantiu que mataria apenas os Elfos Escuros.

“A garantia de uma bruxa é ainda mais vazia que a honra de um traidor”. Um velho ditado, tão velho quanto o próprio cosmos, mas o qual Folandris jamais ouvira. Quando voltou para Svertalfheim, encontrou seu povo dizimado pela mesma praga.

— Não são guerreiras honradas quando se aproveitam de homens moribundos.

— Batalhas nunca são bonitas, majestade. Como um cavaleiro, devo dizer que devemos nos aproveitar de quaisquer oportunidades que possam aparecer diante de nós. — Tossiu, e em seguida secou a boca com as costas da mão. — Além disso, a senhora se surpreenderia com a tenacidade daqueles elfos.

— Estou mais surpresa com o fato de você estar em Svertalfheim no dia em que todos os elfos foram extintos — entregou a taça de vinho para o criado.

— Sou um mercenário, vou para onde me pagam para ir, majestade, mas claro que a senhora já sabe disso — riu, observando seus arredores na esperança que alguém na sala o acompanhasse. Os guerreiros de pedra mantiveram-se imóveis feito estátuas, uma afirmação não tão incorreta assim.

A Patrulha da Morte era o exército leal de Hel. Eram guerreiros de pedra portadores de lanças e arcos, que mantinham a paz no reino dos mortos. Porém, não existiram desde o início dos tempos.

Helheim era um mundo desguarnecido, e se aproveitando disso, homens mortais vinham constantemente atrás de seus entes queridos, na esperança de trazê-los de volta ao mundo dos vivos. Após o terceiro acontecimento, Odin ordenou a Hel que formasse um exército para impedir os mortais de alterar a vontade dos Deuses.

Sendo assim, Hel esperou o próximo incidente. Quando aconteceu, a rainha de Helheim impediu o mortal, sugando sua alma e então a transportando para um corpo de pedra. Graças a ignorância dos seres comuns, não demorou para que Hel juntasse um exército de duzentos escravos de pedra, os quais passaram a manter a ordem do mundo.

Mantendo a compostura após a falha tentativa de animar o local, Tqir prosseguiu:

— Fui contratado para escoltar a bruxa para fora de Svertalfheim. Entretanto, tive uma surpresa bem prazerosa durante a viagem. A bruxa na verdade era uma valquíria, consegue acreditar nisso?

— Claro que consigo, senhor Tqir. — Murmurou Hel, claramente entediada com aquilo.

— No fim, a mulher jamais precisou de escolta alguma. Senti-me ultrajado, mas ela me pagou pelos serviços e até me deu algo a mais, se é que me entende.

— Sim, entendo. Apenas me poupe dos detalhes. — disse a Tqir, revirando os olhos. Renir bocejou, soltando uma espessa fumaça de sua boca. — Vamos falar do seu alvo.

— Como sua majestade desejar.

— A Ordem das Valquírias me traz problemas demais, contudo ela não é seu alvo. Tenho algo mais específico em mente — deu dois tapinhas no filhote de dragão. Renir voou, pousando no lustre de cristal no topo do salão. Levantou-se e continuou a falar, descendo os degraus. — A Valquíria do Infinito.

Ao ouvir o nome de seu alvo, o cavaleiro vermelho recuou.

Tqir sabia muito bem o que aquele nome significava por todos os Nove Mundos. A reputação da tal valquíria não era só aterrorizante no meio dos seres comuns. Qualquer espadachim conhecia a lenda da Valquíria do Infinito, a qual na verdade, era completamente real.

Tqir jamais esqueceu o dia em que ouviu a história pela primeira vez. Havia acabado de se tornar um espadachim, e fora comemorar seu primeiro trabalho bem-sucedido em uma das tabernas mais famosas de Midgard chamada de Lar do Tart. O local era um ponto de encontro dos mercenários, e como em toda boa taberna, diversas histórias eram contadas, desde as mais absurdas como Ernest Pé de Coelho ter fodido uma deusa às mais simples, como quando Randy O Apático achou uma moeda de cobre na estrada.

Entretanto, naquela noite, um grupo de bárbaros aparecera. Tqir pensou ter sido uma péssima noite para ter ido comemorar no Lar do Tart, mas os bárbaros sequer exalaram qualquer intenção ruim. Pelo contrário, o grupo estava moribundo, precisavam de cuidados ou morreriam. Mesmo após o taberneiro prestar socorro, dos sete homens do grupo, apenas um sobrevivera para contar o que aconteceu.

— Algum problema? — Questionou Hel, abraçando o cavaleiro vermelho. Acariciava o peito do guerreiro com seu dedo indicador. — Acha que não é capaz de assassinar uma frágil e ridícula mulher?

— Não. É apenas…

— A reputação daquela mulher é infundada, Cavaleiro Lagarto — largou Tqir, o empurrando. Virou-se para Rozzor e o chamou novamente. Encheu mais uma taça e entregou para Hel. — Deseja um pouco de vinho?

Sem nem ao menos esperar por uma resposta, entregou uma taça para o cavaleiro vermelho.

— Sim, obrigado — respondeu, um pouco hesitante.

— É um vinho muito bom, não acha?

— Creio que sim, não sou um especialista no assunto, majestade — o cavaleiro respondeu após tomar um longo gole do vinho.

— Sim, eu sei disso. Todavia acredito que o senhor ainda possua paladar e uma opinião própria? Veja bem, meu caro cavaleiro — começou Hel. Moveu a taça em círculos, sentiu a fragrância do vinho, e só então o bebeu. — Sinta o suave sabor, o aroma adocicado. Consegue sentir?

— Eu… — bebeu o restante do vinho em apenas um gole. — É realmente saboroso.

— Assim como a Valquíria do Infinito.

Tqir, ainda com a taça em mãos, permaneceu paralisado, confuso. O servo cinza surgiu em seguida, enchendo a taça do cavaleiro vermelho, um pouco ruborizado.

— Eu não compreendo, majestade. Como o vinho tem alguma relação…

— Beba novamente — ordenou Hel, e sem pestanejar, Tqir obedeceu. — Isso. Aprecie cada segundo em que o vinho atravessa sua garganta, acariciando sua língua com um prazeroso sabor. Responda-me, gostaria de mais uma taça?

— Eu não acho que seja apropriado, minha rainha.

— Por quê? O vinho lhe fará mal se continuar bebendo? Ora, senhor — soltou uma risada abafada. Renir, que se mantinha empoleirado no lustre de cristal, voou, e após uma volta no salão, pousou no ombro da rainha dos mortos. — Está aí a relação entre o vinho e a Valquíria do Infinito.

— Ainda não compreendo, majestade.

— Assim como o vinho, a valquíria me foi doce, e ajudou-me com as almas que chegavam em excesso até meu reino — derramou o vinho no chão, e no local, uma pequena flor nasceu instantaneamente. — Mas assim como o vinho, me fez mal assim que bebi um pouco mais do normal. Tornou-se ousada depressa demais. — Após aquelas palavras, a flor recém-nascida morreu, tornando-se pó. — Há tempos que alguma alma digna de meu reino aparece. Tente adivinhar de quem é a culpa, meu caro senhor.

O cavaleiro permaneceu em silêncio.

— A doce valquíria ousou pegar todas as almas para si, deixando meu reino as minguas. — O reino dos mortos já fora um lugar rico e poderoso dentre os Nove Mundos. Almas vagavam pelas planícies cobertas de ossos e dor, enquanto Hel reinava os mortos e os ensinava a abraçar a morte, sem o medo mortal. Entretanto, tais tempos de glória foram tomados pela Valquíria do Infinito.

— Por isso quer vê-la morta.

— Este é apenas um dos motivos — disse ao cavaleiro vermelho num tom raivoso. — Além de tomar as minhas propriedades para seu próprio ganho, essa maldita valquíria tem se metido em assuntos que não lhe dizem respeito.

— Mesmo assim, majestade. Um simples espadachim como eu não será o suficiente para derrotá-la em batalha — o cavaleiro revelou, apontando para si mesmo. Lembrava muito bem o que acontecera com aqueles bárbaros. Não queria ter o mesmo destino. — A senhora jamais presenciou o estrago que a mulher faz nos homens que ela encontra.

— Pode ser que sim. Mas sei o estrago que eu causo em homens que encontro, senhor — Hel não queria ter de ameaçar o homem, mas parecia não ter mais nenhuma alternativa. Já estava cansada de discutir, queria apenas que tudo se resolvesse o mais depressa possível.

— Vossa Graça disse antes que a mulher não é uma guerreira se se aproveita de homens moribundos. As coisas não foram assim, majestade. Ela que os deixa moribundos.

— Não me importo com nada disso — rosnou a rainha. Renir, o filhote de dragão rugiu e cuspiu um jato de fogo purpúreo. — Quero apenas que complete o serviço, não me importa como, está claro?

O silêncio caiu mais uma vez entre ambos. Ficaram se encarando por alguns segundos, o suficiente para Tqir sentir a uma gotícula de suor escorrer pela sua testa.

— Agora vá, já me irritei o suficiente com você.

— Com sua licença, majestade — ajoelhou-se diante da rainha e após um curto período, levantou-se e deixou o salão.

Ótima contratação. Preciso me lembrar de nunca mais deixar que escolham mercenários para mim, disse a si mesma enquanto subia as escadas para o Trono de Carne e Ossos. Deixou-se cair na deformidade de carne podre que chamavam de trono, e só depois chamou Rozzor.

— Diga a Loki que desejo vê-lo. Não volte enquanto ele não vir com você, está me ouvindo?

— Sim, minha rainha.

Hel permaneceu no trono por mais algum tempo, acariciando Renir, que dormia no seu colo como um pequenino gato.


***

Passou muito tempo cavalgando sem parar. A jornada era longa até a Fonte de Urd, e a mulher já havia percorrido metade do caminho total quando quase perdera o cavalo. Se ela não tivesse se preparado para eventuais ataques, com certeza teria de seguir o restante do caminho a pé.

Durante o progresso, ficou com receio das feras voltarem. Tive piedade de monstros? Perguntava-se, e ficava abismada sempre que se lembrava de que deixou aquelas criaturas à solta. No fim, eles sequer deram sinais de perseguição, e por isso ela seguiu viagem.

Os dias eram longos, e as noites ainda mais. Já viajava por vinte dias, e calculava estar no fim do caminho. Contudo, foram vinte dias nada gratificantes, cheios de viajantes, pedintes, mercenários e ladrões. Descontando os perigos de seres mor-

tais, tivera que se proteger da vontade do cosmos, como os grifos que tentaram abocanhar seu cavalo, e as chuvas que não cessaram por uma semana inteira.

Sua jornada teve início em Asgard, após verificar o treinamento dos homens em Valhalla. Assim que finalizou todas as suas obrigações para com os deuses, seguiu viagem, rumo à Fonte de Urd. Se tivesse o tempo, poderia ter contornado e atravessado metade dos mundos para chegar lá, mas precisou arriscar, decidindo ir pela Estrada Principal. Péssima ideia.

A Estrada Principal era o único caminho que ligava todos os Nove Mundos, e as condições climáticas agiam de acordo com o mundo mais próximo da região.

Enfrentou um calor terrível ao passar pelas proximidades de Muspelheim, o mundo de fogo, onde seu cavalo quase morrera de sede. Quando conseguiu se afastar o suficiente, teve de enfrentar uma torrente aparentemente infinita de chuvas ao passar pelo território de Alfheim e Midgard, onde por diversas vezes, a estrada era traiçoeira o suficiente para lhes agarrar e os afundar em lama.

Porém nada disso importava agora. Finalmente cruzou o mar dos homens e pagou o tributo de sangue à serpente Jörmungandr. Era apenas questão de tempo até chegar na Fonte de Urd para ter com as sábias Nornas.

Gostaria de estar indo até lá para seus próprios fins, mas nem sempre possuía tal luxo, e isso a perturbava, afinal deveria ter o direito de fazer o que desejasse após tudo que passou.

Lembrou-se de todos os problemas enfrentados para chegar onde estava agora. Era apenas uma filha de camponeses, nos seus quase onze anos de idade, quando um exército de soldados atacou seu vilarejo, ensandecidos por sangue.

Atearam fogo em tudo, mataram quem resistiu, sem deixar de estuprar as mulheres pelo caminho. Viu sua mãe ser morta, enquanto os malditos gargalhavam.

Tornou-se uma escrava por anos, e sempre anseava ser algo mais do que um objeto. Foi quando conheceu Tyr, o aesir da guerra. Apesar do primeiro encontro turbulento devido a sua recusa a novidades, o velho deus não desistiu dela.

Anos mais tarde, sentiu um calor aconchegante preencheu seu corpo e tudo escureceu. Quando acordou, viu-se em um quarto de pedra, o qual mais tarde descobrira ser um dos quartos em Valhalla.

Ficou surpresa. Ela nunca foi uma guerreira, portanto deveria ter sido levada para Helheim. Procurou por explicações, ganhou algumas do Pai de Todos, que se ateve apenas a dizer que o destino o obrigou a trazê-la para Asgard. Tão logo, viu-se treinando para se tornar uma valquíria. Passou por dificuldades sem tamanho, por experiências traumatizantes para uma simples garotinha, embora amargurada pelo mal do mundo dos homens.

Não demorou muito para que o tempo a endurecesse. Cada desafio enfrentado a tornava mais forte, mais experiente, melhor. Mas fora apenas quando voltou de seu treinamento como uma valquíria, e se ajoelhou diante de seu rei, Odin para jurar sua espada até o fim dos tempos, que ela descobriu a verdade cruel do cosmo.

Embora de boa vontade, o juramento pareceu vazio. Desde pequena, antes mesmo de ser levada para Asgard, ouvira a história do Ragnarök. Tudo acabaria, apenas para renascer mais uma vez. Odin por diversas vezes também dizia a ela que não existiria um “fim”. Todos esperam apenas o recomeço do universo, onde tudo voltaria a ser perfeito como na época da Criação.

A crença de um recomeço jamais lhe apelou. Respondeu a Odin que o fim dos tempos viria, e ninguém estaria preparado para tal. Uma opinião pela qual se arrependeu. Como punição por desrespeitar a crença dos deuses, Odin a pendurou na entrada de Valhalla, pregando suas mãos e pés por quatorze dias e noites incansáveis e terríveis.

Entretanto, a punição não serviu como Odin planejou. Por fora, e aos olhos de todos, permaneceu fiel ao conceito de um recomeço, mas para si mesma, continuou a dizer que o fim estaria próximo.

Pensamentos e lembranças giravam pela sua mente enquanto chegava no topo de um monte. Parou por um momento ao perceber o enorme lago a algumas milhas de distância. Suspirou, sentindo o vento gelado balançar seus lisos como fios de ouro.

— Quase lá. — Murmurou enquanto descia o monte em direção à Fonte de Urd.


***

As velas acesas do quarto geravam sombras nas paredes, as quais tremeluziam constantemente. Hel aguardava o homem cinzento voltar, e enquanto o fazia, permanecia sob a luz de velas lendo um grosso livro de capa de couro.

Ordenou que cinzento trouxesse Loki há três dias, e desde então permanecera lendo.

Leu “O Guerreiro e o Sol”, uma obra escrita por um humano a qual contava a história de um jovem rapaz que se apaixona pela deusa Sol. Por não conseguir se aproximar da deusa, o rapaz decide agradar-lhe, e para isso, busca matar Mani, a Lua, e com seu poder, possuir a deusa. No fim, o rapaz morre quando Mani o joga para que Hati o devore.

Também apreciou a divertida leitura de “A Vaca Perdida”, uma cômica história escrita por Loki, onde um fazendeiro perde sua vaca e a encontra reinando uma legião de homens do sul de Midgard.

Cansada de ler, jogou o livro sobre a mesa, se levantou, e foi cambaleando até uma das janelas da torre. O céu continuava tão escuro como sempre foi. Às vezes Hel esperava que um dia Sol apareceria e clarearia Helheim, mas logo se lembrava que nem mesmo Mani pode iluminar o céu com sua luz lunar.

Observava as árvores retorcidas e os campos de ossos ao horizonte, os quais eram o habitat para as mais diversas almas.

Houve um tempo onde Helheim era um reino repleto de guerreiros corajosos, talvez não tão habilidosos quanto os de Valhalla, mas tão letais quanto. Porém, os dias atuais eram uma vergonha para si.

Homens deficientes, mulheres grávidas, e crianças inúteis; aquele era basicamente seu novo exército. Sua única esperança era as profundezas de seu reino, onde encontraria traidores, estupradores e todos os seres que são contra os deuses. Bela seleção que o senhor me disponibilizou, Pai.

Sentia o vento atravessar-lhe o vestido preto de seda que vestia e acariciar seu esbelto corpo como pequenas mãos geladas. Tremeu quando sentiu um calafrio, mas foi apenas isso. Logo, em meio aos troncos podres e retorcidos ao longe, percebeu o homem cinzento retornando, montado em um garrano cinza. Ao seu lado cavalgava uma figura encapuzada, montada num corcel branco.

Comemorou em silêncio pela chegada do criado, e quase no mesmo instante em que o visualizou na floresta de ossos, seguiu em direção ao salão do trono.

 Os guardas de pedra levantaram as lanças e abriram a pesada porta de ferro que dava para o salão quando viram Hel caminhando em sua direção. Assim que chegou, fora recebida por Renir, o qual pousou em seu ombro. Aquilo era um costume muito bem enraizado no filhote. Espero que ele não pense em pousar em meu ombro quando estiver grande o suficiente, riu do pensamento.

Deixou-se cair na deformidade que era o seu trono, e em poucos minutos a porta do salão se abriu, passando por ela o homem cinzento e a figura encapuzada.

— Majestade — Cinzento se ajoelhou, arfava como se estivesse corrido por horas. — Trouxe o Lorde Loki para a senhora como ordenou-me.

— Excelente, Cinzento. Sua recompensa lhe espera em seus aposentos. — Disse Hel, enquanto fazia um movimento com a mão incitando o criado para que se levantasse e deixasse o salão.

Como se fosse um borrão, o homem sumiu, e logo Hel estava sozinha com Loki no espaçoso salão do Trono.

— Uma recompensa? Para um criado tão baixo como aquele? Está mole demais, filha — retirou o capuz, revelando uma cabeleira lisa e castanha que se estendia até seus ombros. Loki envergava um gibão vermelho de veludo com botões dourados e mangas brancas com listras negras, além de calças e botas de couro escuro. — Antigamente você teria o transformado num homem de pedra e deixado vagar pelo reino até o dia em que o Ragnarök chegasse.

— As coisas mudam, meu pai. Um bom exemplo disso é que estou sentada neste horrendo trono, olhando para o senhor de cima.

Loki riu, sua gargalhada ecoando por todo salão. Os guerreiros de pedra permaneciam imóveis.

— Passou a gostar do seu amável trono, Hel? Lembro-me que da última vez em que estive aqui, você reclamou, exigindo um novo.

— Era uma tola. Pensava apenas na estética, esquecendo do verdadeiro sentido de ser uma rainha. Contudo, não me agrada ser a senhora de um bando de mortos inúteis. Olhe ao redor, meu pai, e me diga com quantas pessoas aqui posso foder? — Reclamou a Loki, o qual soltou mais outra gargalhada, acompanhando Hel.

— Sempre há o homem cinzento que me trouxe aqui — deu de ombros. — Ou você poderia ter me falado. Tenho diversos homens em meu reino bem-dispostos a foder uma rainha. Se preferir, tenho mulheres também.

— Acho interessante sua proposta, pai. — Levantou-se do trono, e passou a circundar Loki. Renir voou, e ficou pairando sobre os dois, seus olhos púrpuros os encarando. — Traga-me homens e mulheres.

— Ah, você irá se divertir bastante, pelo visto. Será um prazer, minha querida. Literalmente.

Parando ao lado do trono, Hel continuou.

— Sim, entendo muito bem. Trata-me como criança ainda, mas esquece que não sou mais nenhuma pirralha. — Sentou-se no braço do trono e, ao cruzar as pernas, levantou o vestido, revelando suas grossas e nuas pernas. — Vê?

— Hmm… Tentando seduzir seu próprio pai?

— Não. Apenas lhe demonstrando que o fruto provindo de você e da mãe amadureceu, e agora é uma fruta suculenta.

— Nada mais justo, afinal sua mãe é suculenta assim como eu — Loki riu mais uma vez, dessa vez enquanto se sentava nos degraus que levavam ao trono. Sua feição tornou-se sombria subitamente. — Gosto muito de brincadeiras, Hel, mas sei que não me chamou para isso.

O dragão de aço negro rosnou e pousou em um guarda de pedra, encolheu-se e dormiu. A rainha dos mortos encarou seu pai e suspirou, cruzando as pernas de novo.

— Então sabe exatamente sobre o que desejo conversar.

— Já lhe disse, Tqir é o melhor espadachim vivo atualmente — olhava para Hel de ponta cabeça, deitado nos degraus. — Pare de tentar arranjar algum problema em relação a ele. Além disso, essa mulher é apenas uma valquíria, qual é a terrível dificuldade de matá-la?

— Aquele homem não me parece adequado. Ele possui um olhar assustado não importa quantas vezes eu ponha os olhos nele — lembrou-se de quando Tqir recuou ao ouvir sobre a valquíria. — Esse cavaleiro vermelho quase cacarejou ao descobrir quem seria seu alvo.

— Digamos que a reputação da mulher é um tanto quanto assustadora para seres comuns — retirou um punhal do gibão e passou a alisá-lo atentamente.

A reputação da Valquíria do Infinito era em certa parte amedrontadora para os mortais. Apesar do nome recebido, a mulher já não possuía uma fama de valquíria comum, mas sim de uma deusa, justamente por suas conquistas, e em cada mundo, existia uma crença diferente sobre ela, assim como qualquer outro deus.

Os humanos de Midgard acreditavam que a valquíria era uma guerreira formidável, a qual levaria os melhores guerreiros para Valhalla de uma vez só, e eliminaria os fracos e covardes para serem devorados por Nidhogg, o tenebroso dragão devorador dos desonrados e dos monstros da sociedade.

Os anões, entretanto, pensam na total aniquilação de seu mundo quando a mulher puser os pés em Svertalfheim, por isso abusam de antigas magias para impedir a sua entrada.

Em Alfheim, a nova casa dos Elfos da Luz, a Valquíria do Infinito é sempre muito bem recebida, pois acreditam que o melhor jeito de tratar qualquer um é através da paz, diferente dos mundos habitados por gigantes, onde todos mantêm guerra contra a mulher e qualquer outro deus.

Hel levantou-se do braço e voltou a se sentar no trono. Sentia uma irritação todas as vezes que conversava com Loki devido ao seu jeito despreocupado de tratar assuntos sérios.

— Vá direto ao ponto, Loki. Todas as histórias sobre a mulher são no mínimo improváveis. Ela não é uma verdadeira Aesir. Na verdade, ela não é nem mesmo uma valquíria de verdade, das que nascem da alma de Odin, então não há como ser tão poderosa quanto dizem.

— Você subestima Odin, pequena — levantou-se num pulo, fazendo uma pose de vitória, enquanto tapava um olho com a mão. — O Lorde Caolho é muito perspicaz, por isso mesmo ele é cegueta.

Loki riu, mas não se pôde dizer o mesmo de Hel. A rainha dos mortos parecia ter sido esculpida em pedra, pois não movera sequer uma sobrancelha, apesar de ter entendido muito bem a piada nada interessante do pai.

Para adquirir conhecimento supremo, Odin sacrificou o próprio olho, e ficou sete dias e sete noites pendurado em Yggdrasil, a árvore da vida, com uma lança perfurando seu peito. Quando o sofrimento acabou, Odin recebeu o conhecimento sobre todas as coisas no universo, embora Hel não acreditasse. Possui o conhecimento supremo, mas parece um idiota completo às vezes, dizia a si mesma quando lembrava que Odin não havia aniquilado os gigantes quando teve a chance, embora ela mesma fosse uma.

Ao perceber que sua piada não atingiu o nível exigido para fazer sua filha rir, Loki suspirou, voltando a se sentar nos degraus.

— Poderia rir das minhas piadas às vezes. Sabe, para alegrar seu pobre pai — murmurou, melancólico, guardando o punhal de volta no gibão.

— O que você quis dizer com Odin ser perspicaz, pai? — Hel se interessou pela afirmação. Embora a piada tenha sido falha, o verdadeiro motivo por trás dela poderia servir para algo. — Há algo de diferente nesta valquíria?

— Muito diferente — soltou uma risada abafada, como se quisesse manter um certo mistério na afirmação. A filha o encarou, e logo continuou. — Odin não transformou uma menina camponesa de Midgard em uma valquíria porque quis. Aconteceram algumas… coisas.

— Pare com o suspense. O tempo urge, e você sabe disso.

— O tempo sempre tem espaço para um pouquinho de mistério. Nunca ouviu as profecias das Nornas? — Loki continuou a rir, esparramado nos degraus. — Aquelas velhas são tão chatas que me fizeram desistir de ir vê-las para descobrir o que o futuro reserva para mim.

— Lembro-me de quando você me levou para vê-las. No dia foram diretas, meu pai. “Você será uma rainha” foi o que me disseram. Talvez você seja burro e não consiga entendê-las?

— Acho melhor irmos direto ao ponto, sim? — levantou-se num pulo novamente, dessa vez como se estivesse irritado. Começou a andar de um lado para o outro, pensando nas próximas palavras.

— Concordo, gostaria de terminar essa conversa o mais depressa possível, afinal o senhor deve ter muitas coisas a fazer.

Loki parou subitamente e, em seguida, começou a subir os degraus para o trono. Com um sorriso no rosto, começou:

— Pode ser que sim, mas não vou entrar em detalhes. — Parou poucos degraus de distância da rainha dos mortos. Se apoiou na perna direita, a qual estava dois degraus acima. — Como eu havia lhe dito agora pouco, Odin transformou a jovem camponesa em uma valquíria não por opção, mas por obrigação.

— Deixe-me adivinhar: as Nornas disseram para ele transformá-la numa valquíria, pois caso o contrário um castigo terrível cairia sobre todos os seres vivos — a rainha dos mortos revirou os olhos. Já estava cansada de ouvir tais profecias. Milhares de homens e mulheres vinham até seu reino com a esperança de salvar um ente querido morto porque seus videntes disseram para fazer ou maldições horríveis cairiam sobre suas cidades e famílias. Às vezes penso que os videntes têm uma profecia padrão para quando estão com preguiça. — Eu juro que se foi isso, irei eu mesma até Odin e arrancarei seu outro olho.

O deus das travessuras não duvidava. Hel era igual sua mãe Angurboda, uma gigante explosiva e nada simpática. Se tivesse a oportunidade, arrancaria mesmo o olho de Odin enquanto o fazia sofrer de outros meios.

— Esse foi um dos motivos, devo admitir — voltou a subir os degraus, e quando chegou no trono, hesitou um pouco, mas se sentou em seu braço. Loki nunca gostou daquela cadeira horrenda e obviamente não gostava de sentar-se em carne podre. — Prepare-se para uma longa e emocionante história, Hel. Depois de hoje, talvez consiga entender os reais motivos do Pai de Todos.

— Preciso de respostas e soluções, não de uma longa e emocionante história.

— E você terá. Eu lhe prometo.


***

Decidiu parar para descansar o cavalo quando chegou às margens do grande lago, cujo as águas eram tão cristalinas quanto um diamante. Pássaros cantavam felizes e alguns peixes saltavam da água como se dançassem, enquanto uma leve brisa soprava, balançando suavemente as árvores ao redor do lugar.

Oitocentos metros adiante, uma gigantesca árvore se erguia imponente, com seus galhos grossos formando um extenso e impenetrável teto. Suas folhas tão grandes que poderiam abrigar dez pessoas sob elas. A árvore da vida, disse a si mesma. Não importava quantas vezes a visse, jamais conseguiu se acostumar com seu tamanho.

Estava sentada sem as botas de couro, na margem do lago, com seus pés dentro d’água. Agradeceu ao cosmo quando os mergulhou em água fria, aliviando a dor que sentia devido aos calos nos dedos. Aproveitou a parada e retirou a cota escamada de cor azul, junto do manto de pele de urso, ficando apenas com uma camiseta de linho e com as calças de couro, as quais estavam puxadas até os joelhos

O sol banhava a mulher à margem do lago, seus raios penetrando a camiseta de linho. Ela sentiu calor, e mesmo querendo se jogar nas águas do lago, não o fez. Relutante, levantou-se a muito custo. Secou os pés na grama fofa e voltou a calçar as botas e a vestir a cota escamada. Quando terminou, pegou o cinto da espada e o afivelou, deixando a lâmina pender da anca direita. Abaixou-se mais uma vez e lavou o rosto e os cabelos, os quais alcançavam a metade de suas costas.

Seguiu caminho após verificar se não deixou nada para trás. Andou a passos largos, ignorando a beleza da vida ao seu redor. Já havia apreciado demais enquanto esteve sentada, agora era o momento de tratar dos seus próprios assuntos.

Após alguns minutos se viu de frente para a enorme árvore que avistara momentos antes. Sua altura era inacreditável, e nem mesmo os deuses sabiam exatamente seu tamanho. Contudo, todos sabiam que sem ela, a vida não existiria. Também compreendiam que as infames Nornas, as senhoras do destino, viviam sob as raízes da árvore da vida e cuidavam para que a árvore não morresse.

Todas as manhãs, as Nornas coletam a água da Fonte de Urd e derramam sobre as raízes de Yggdrasil, para que elas não apodreçam. Uma simples ação, que mantém tudo em harmonia.

A guerreira dos cabelos dourados fez um sinal para que seu cavalo ficasse por ali e prosseguiu por uma espécie de abertura existente sob as raízes da árvore da vida. À medida que continuava, conseguia ouvir vozes cada vez mais nítidas. Quando chegou no fim do túnel, deparou-se com um espaçoso campo. Algumas árvores se erguiam subitamente sobre montes, onde havia algumas mulheres de cabelos negros e pele branca deitadas, entre carícias e beijos.

Mais ao leste, pôde observar três outras jovens, sentadas na beirada de um poço, às gargalhadas. A oeste, conseguia ver apenas um denso bosque, onde os pássaros cantavam e as folhas farfalhavam com o vento. Várias outras moças, algumas nuas, caminhavam e saltitavam pelo grande campo.

No horizonte, um altar de pedra se erguia, onde diversas tochas queimavam, criando uma atmosfera macabra. Três mulheres meditavam sobre o altar, sem quaisquer distúrbios, como se ninguém pudesse sequer se aproximar.

Ignorando as mulheres ao seu redor, a guerreira seguiu em direção ao altar. Quando perceberam sua presença, as pessoas que até então pareciam frágeis e risonhas, vestiram expressões sombrias e duras. Logo, estavam na frente da loira com lanças e arcos apontados para ela, prontos para disparar.

Pensou em sacar a espada. Se quisesse, teria tempo de matar as arqueiras enquanto esquivava das lanças, afinal eram poucas mulheres. Todavia, não queria causar uma carnificina num lugar tão sagrado quanto o lar das Nornas.

Fez um simples movimento, e uma flecha voou, tão perto do braço, que o rasgou. Sentiu a fisgada no braço, mas manteve a compostura. Encarou a norna responsável pelo disparo; tinha se desesperado, ainda era muito nova para uma batalha, aquilo estava claro como a sua impaciência. A Valquíria ignorou e continuou seu movimento. Desafivelou o cinto da espada e o jogou para o lado.

— Não vou lutar com vocês — afirmou às mulheres que ali estavam, tensas como as cordas dos arcos que empunhavam.

— Então o que faz aqui? Ninguém entra há muito em nosso campo sagrado. — Umas das mulheres de lanças deu um passo à frente. Trajava um vestido de linho branco e sandálias de couro. Os cabelos negros caíam-lhe até a cintura, trançados. Seu rosto era fino, com as maçãs do rosto bem salientes. Os olhos eram castanhos como a cor de madeira.

— Desculpe-me se a recepção está sendo muito… ríspida.

— Temo que não foram ríspidas o suficiente — brincou. A lanceira soltou uma risada abafada, mas logo se recompôs. — Gostaria de falar com as Primeiras Nornas.

— E quem deseja ter tal honra?

— Meu nome é Zero. Costumam me chamar muitas vezes de Valquíria do Infinito. Em Midgard, chamam-me de Ceifadora da Guerra, em Alfheim, sou a Júri da Morte. — Queria lembrar de todos. — Como pode ver, tenho muitos nomes. Pode me chamar como quiser. E você, como se chama, mulher?

— Meu nome é Sorm, Valquíria. Temo que as Primeiras Nornas estão em seu período de meditação. Não há como ter qualquer audiência com elas.

— Não me importo. Esperarei o quanto for necessário. Tenho bastante tempo — respondeu à lanceira. — Creio não atrapalhar se ficar pelas redondezas?

Todas se entreolharam, perguntando-se com os olhos o que deveriam fazer. Zero as observava com atenção, e notou quando a jovem que disparou a flecha contra ela deixou o local, se escondendo no bosque ao leste. Sente vergonha pelo ocorrido, pensou a valquíria, enquanto aguardava uma resposta das nornas.

— Está convidada para partilhar a comida conosco esta noite, se lhe aprouver. — A mulher dos cabelos trançados se aproximou e apoiou a mão sobre o ombro da valquíria. — Amanhã as anciãs levantar-se-ão de sua meditação para regar as raízes de Yggdrasil. Terá esse curto tempo para conversar.

— Agradeço-lhes pela hospitalidade. Juro pela honra dos deuses que nem perceberão minha presença — disse à lanceira em um tom confiante. — Apenas digam-me onde poderei esperar e será o suficiente.

Zero fora escoltada para perto do poço onde viu anteriormente três mulheres às risadas. Ficou ali por algumas horas, num silêncio tão profundo que por vezes, nornas passavam para lhe perguntar se ainda vivia. Ela respondia apenas com um curto aceno, embora um pouco aborrecida por lhe tirarem a concentração que ela tanto prezava.

Quando o breu da noite caiu, acenderam-se as tochas e uma fogueira, tão grande, que Zero pensou estarem preparando um gigante para ser assado, por isso se decepcionou ao servirem a ela carne de porco e veado. Acompanhando a carne, beberam vinho e comeram maçãs.

Ao fim do jantar, a Valquíria do Infinito retornou ao seu lugar designado, e manteve-se por lá. Não conseguia dormir, portanto ficou afiando sua espada no silêncio da noite. O aço brilhava à luz do luar, revelando escrituras verdes gravadas na lâmina.

Da escuridão surgiu uma jovem envergando um vestido de seda branca, aberto na parte de trás, revelando suas costas. Seus cabelos de uma cor que se misturava com a noite estavam amarrados em um coque, o qual devido ao tamanho, era possível supor que seu cabelo alcançaria fácil a metade de suas costas.

Sem muitas cerimônias, a jovem norna se sentou, frente à valquíria. Ficou ali, a encarando por um tempo. Seu rosto era delicado, com uma pequena verruga ao lado esquerdo do nariz, a qual Zero só percebeu quando encarou a garota de volta.

— Deseja algo? Talvez atirar-me outra flecha? — Perguntou à norna, enquanto continuava a afiar a espada.

— Venho lhe pedir desculpas pelo acontecido. Pensei que tentaria atacar uma de nós.

— Teria atacado todas vocês se fosse a minha verdadeira intenção — a valquíria respondeu, sem tirar a atenção do que estava fazendo por nenhum momento.

— Sei que o teria feito. Sua reputação a precede, valquíria. Por isso pensei em atacar primeiro.

— Você é uma norna. Poderia ter previsto que eu não atacaria — disse Zero. As nornas não eram chamadas de senhoras do destino por nada. Eram elas que traçavam o destino de todo ser vivo, inclusive dos deuses. Não havia sentido em atirar uma flecha por puro palpite.

— Apenas as anciãs podem enxergar o destino de todos. Nós, as comuns, podemos apenas prever o destino de quem nos é conectado — a jovem murmurou, num tom suave e hipnotizante. Em seguida, engatinhou até a valquíria. — Sou uma norna livre por enquanto. Gostaria de saber seu futuro, Ceifadora? — Sussurrava ao ouvido de Zero, acariciando a lâmina da espada.

A valquíria parou de deslizar a pedra de afiar sobre a espada. Suspirou e encarou a mulher:

— Terei de recusar sua proposta. — Respondeu num esboço de sorriso. — Agora se lhe agradar, gostaria de passar o restante da noite em silêncio.

Como se tivesse sido derrotada num jogo de tabuleiro, a garota se levantou num salto, com uma expressão tão raivosa que provavelmente colocaria medo até mesmo nos guardiões de pedra de Helheim. Sumiu na escuridão que a trouxe, deixando a Valquíria do Infinito sozinha em seus devaneios.

Um vento agradável soprava naquela noite quente. Preparou um pequeno leito para dormir com as peles que usara para se esquentar no clima frio. Retirou as botas e a cota, e por um momento cogitou se livrar das calças também, mas desistiu por achar muito demorado vesti-las depois.

O sono veio depressa, atacando-a com tamanha ferocidade que quando despertou, assustou-se ao pensar ter perdido a chance de falar com as Primeiras Nornas.

Ninguém havia despertado ainda, apesar do sol já brilhar forte no céu sem nuvens. Zero se vestiu, e após afivelar o cinto da espada, seguiu até o altar das anciãs, onde elas ainda meditavam. Não tinha certeza se já haviam regado as raízes da árvore da vida ou ainda estavam meditando desde o dia anterior, portanto decidiu sentar-se de frente ao altar, à espera de algo acontecer.

Sentiu uma mão apoiar-se em seu ombro.

— Fique calma, elas ainda não terminaram de meditar — Sorm brincou e abancou-se ao lado da valquíria. Trajava o mesmo vestido de linho, mas agora seus cabelos não estavam trançados.

— O que tanto meditam?

— Sobre o destino de todos os seres vivos. São elas que leem a substância primordial, o caos, e decidem o destino de todos. Nós, as nornas comuns, lemos os destinos decifrados pelas anciãs para os mortais.

A valquíria suspirou, retirando um odre com água do cinto da espada.

— É um poder maravilhoso. Ter o controle de todos na palma da mão — bebeu um longo gole. Ofereceu um pouco à mulher, que o recusou.

— É um dom perigoso.

— O perigo é maravilhoso — deu mais um longo gole, finalizando o odre. — Quando mais jovem, pensava igual a você. Mas quando se vive o suficiente, há coisas que desafiam as nossas crenças, os nossos objetivos.

— E você mudou seu pensamento porque as anciãs disseram que assim seria. Vê como tal poder pode alterar tudo o que acreditamos? Este exato momento foi predestinado muito antes do seu próprio nascimento, valquíria. Até mesmo as próximas palavras, as quais você está pensando, todas elas foram previstas.

A Valquíria do Infinito explodiu em uma gargalhada.

— Percebo que em Valhalla não são ensinados a respeitar os deuses — a norna comentou, irritada com a súbita gargalhada.

— Na verdade somos. Porém, pode se dizer que já tive alguns problemas em relação a isso — respondeu à norna, referindo-se à punição que Odin lhe deu sobre discutir com os deuses.

— Espero que tenha sido punida.

— Não tenha dúvidas disso.

— Então me diga, Valquíria do Infinito. Por que gargalha do destino? — Sorm perguntou. Olhava para as poucas nuvens que se formavam no céu.

— Vou lhe contar um segredo, minha cara Sorm. Venha, chegue mais perto.

A lanceira se aproximou, inclinando a cabeça para perto dos lábios de Zero. Num tom sério, murmurou:

— As Anciãs jamais conseguiram ler o meu destino. É por isso que não confio em nenhuma de vocês aqui.

Sorm virou pedra assim que ouviu a declaração da valquíria. Seria uma brincadeira? Uma ameaça? Não conseguia distinguir devido ao choque.

— Isto é impossível! Não ouse brincar comigo desta forma.

— Não há qualquer norna ligada a mim desde meu nascimento. Sou uma incógnita, jogada no cosmo por algo maior que qualquer outro deus — revelou à lanceira após deitar-se na grama.

— Não existe nada maior que o destino.

— E quem determina o destino? Quem criou o caos primordial? — interrompeu a lanceira. — Não sabemos. Pode haver algo maior que nós todas? — questionou, embora não esperou resposta alguma. — Com toda a certeza há.

— Pare de brincar com coisas desse tipo, ou será punida rigorosamente.

— Você está me ameaçando? — A máscara despreocupada da valquíria caiu, revelando uma expressão sombria e macabra, embora de desapontamento. — Olhe nos meus olhos, e diga para mim que estou mentindo — ergueu-se e puxou a mulher pelos ombros, aproximando seu rosto do dela. — Se achar que sim, pegue esse maldito punhal que você esconde em seu vestido e perfure meu coração.

Sorm sentia um turbilhão de emoções diferentes. Sentia medo, choque, estava confusa. Encarava os olhos verdes de Zero, mas não conseguia lê-los. Estaria a valquíria mentindo?

Por um instante, pensou em puxar o punhal, mas não o fez. Ao invés disso, se livrou das mãos da guerreira e se levantou.

— Se as anciãs não podem ler seu destino, por que ainda vem? A resposta vai ser sempre a mesma, não é verdade?

— Sim. No entanto, o mundo ainda não gira em torno do meu próprio umbigo.

 

PRÓXIMO CAPÍTULO

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