A Senhora do Fim do Mundo – Capítulo II

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Podemos perder inúmeras batalhas, deixar de vencer incontáveis guerras. Mas nenhuma dor, frustração e ódio se equipara à perca do bem mais precioso: a família.
— Tyr, A Ótica da Antiguerra


Estava apoiada em um pilar próximo ao altar, observando uma rosa branca que acabara de colher de um arbusto. A valquíria já não se lembrava qual foi a última vez em que esperou tanto para alguma coisa.

Contou estar há quatro horas desde que acordou à espera das anciãs despertarem de sua meditação aparentemente infinita. Do jeito que demoram, não me surpreende a necessidade de regar Yggdrasil quando acordam, pensou Zero. Podia ser a Valquíria do Infinito, mas isso não significava que poderia esperar para sempre.

Apesar de não estar contente com sua situação, evitou expor suas opiniões. Sorm estava de olho em cada movimento em que ela pensasse em fazer, tudo por causa do confronto anterior.

Zero sentia as nornas perfurando-a com seus olhares desconfiados e afiados como navalhas. Evitou pensar muito naquilo; afinal já estava acostumada com os olhares de julgamento, os quais a perseguiam por onde quer que fosse.

Seja nos picos congelados de Niflheim, ou nas fornalhas celestiais em Muspelheim, os olhares e dizeres eram sempre os mesmos: reprovação.

Na realidade, aquilo não importava para a valquíria. Desde que chegou em Valhalla, as outras valquírias – as que nasceram na terra dos deuses –, nutriam um certo ódio por ela. Não gostavam de sequer imaginar que uma humana qualquer de Midgard pudesse partilhar de todos seus métodos, magias e trabalhos. Aquilo era inconcebível, mas tiveram de aceitar, ordenadas por Odin. E fora por causa de tais resignações e reprovações por parte de quem deveria ser sua nova família, que a Valquíria passou a almejar ser a melhor, para que assim, todos a notassem de forma positiva, que a respeitassem.

Agora, era uma valquíria experiente, uma das mais poderosas, e acima de tudo, respeitada por onde quer que passasse. Portanto, ela não via mais a reprovação que às vezes ainda recebe como algo negativo, mas sim, como seu combustível.

Jogou a rosa no altar e, de repente, uma das anciãs acordou, como se o som que a flor fez ao cair no chão a tivesse a despertado. Logo em seguida, as outras duas nornas acordaram de sua meditação intensa.

Um turbilhão de jovens mulheres tomou conta do altar. As nornas comuns se reuniam ao redor das anciãs, fazendo perguntas, trazendo alimentos e água para elas.

A Valquíria do Infinito sequer saiu do lugar. Esperou o tumulto diminuir, ou ao menos aquela foi a sua intenção. De dentro da roda, uma voz serena e firme chamou por ela. Seguiu até o altar e parou em frente às tão estimadas Primeiras Nornas. Estavam lado a lado, sentadas no chão frio de pedra do altar.

— Estávamos à sua espera — falou a anciã do meio. Tinha cabelos curtos, negros como a noite. Parecia ser muito jovem, por volta dos dezessete anos. Envergava um vestido de seda branco, o mesmo que as suas irmãs trajavam. Um colar de ouro branco pendia de seu pescoço, e em seu braço esquerdo, diversos braceletes brilhavam.

— E agora está diante de nós — a mulher sentada à direita continuou. Possuía o mesmo rosto que a jovem do meio, mas parecia mais velha. Seus cabelos grisalhos chegavam-lhe na metade das costas, onde estavam presos por um círculo dourado empoeirado. — O que você deseja, Valquíria do Infinito? Pelo que Urd nos lembra, Skuld já lhe disse uma vez que não consegue ver seu futuro.

— Preciso que me respondam algumas perguntas — Zero retrucou, prestando uma meia reverência.

— Nunca houve qualquer resposta para você — a terceira anciã se pronunciou. Como suas irmãs, possuía o mesmo rosto, entretanto era muito mais velha, repleta de rugas e flácida. Seus cabelos brancos estendiam-se até o chão, e todas as suas joias ou estavam enferrujadas, ou extremamente empoeiradas.

— Não há respostas para você — disse a norna de cabelos grisalhos, como se quisesse acabar a conversa naquele momento.

— Não haverá quaisquer respostas para você — pronunciou a anciã de cabe-los curtos. — Eu, Skuld, a Senhora do Futuro, não consigo enxergar o seu destino. Uma névoa densa e maligna impede-me.

— Seu passado é desconhecido. Eu, Urd, a Guardiã do Passado, não consigo vê-lo — a velha norna murmurou, numa voz tão fraca que parecia definhar.

— Você só não pode fugir do seu presente, Valquíria. Eu posso te observar, não importa onde você estiver.

— Fico muito mais tranquila ao saber que sou vigiada por uma norna que nada pode me dizer — respondeu com escárnio à Vigia do Presente, Verdandi. — Poupe-me de suas falsas preocupações.

— Nos preocupamos com todos os seres vivos no cosmo. Esta é a nossa natureza e nosso dever. Foi assim desde que chegamos e sempre será quando todos se forem — disse Urd, lembrando a valquíria das reais intenções das Senhoras do Destino.

As Nornas não nasceram junto ao universo. Chegaram depois, ninguém soube de onde. Instalaram-se sob às raízes de Yggdrasil, e espalharam pelos Nove Mundos que podiam enxergar o destino do universo. A curiosidade foi tamanha, que até Odin, o Pai de Todos fora se consultar com as Primeiras, onde Skuld, a Senhora do Futuro, revelara a ele que a era de ouro dos deuses estava prestes a acabar.

Algum tempo se passou, e embora ninguém acreditasse, a profecia se concretizou. De Jotunheim, um turbilhão de gigantes surgiu, prontos para profanar e destruir os mundos que deviam sua lealdade aos deuses.

A era em que todos os deuses eram amados e respeitados por todos acabara naquele dia. Apenas quatro dos Nove Mundos permaneceram sob o controle dos Deuses. E foi a partir daquela época que todos passaram a acreditar nas profecias das Nornas.

— Segundo vocês mesmas, eu não pertenço ao cosmo. Sou uma aberração, algo que surgiu de outro lugar, de onde vocês nem sequer sabem, mas que subitamente foi parar em Midgard — disse a valquíria. Subiu ao altar onde as anciãs estavam e continuou, enquanto encarava uma a uma. — Você, Urd, diz não encontrar o início de minha vida. Não conhece o começo do meu destino. Por quê?

A mais velha das anciãs ficou em silêncio. Sequer encarava a valquíria nos olhos. Zero continuou:

— Ah, Verdandi. A Vigia do Presente, a responsável por levar os vivos do passado para o futuro. Responda-me como irá fazer isso, se não sabe de onde eu vim e para onde vou.

— Pare com isso, Zero. Fazer tais questionamentos não irá solucionar os seus problemas. — Skuld pediu, enquanto se levantava. Sentia as pernas tremerem após tanto tempo sentada. — Nosso dever é profetizar o destino de quem nos pede para tal, mas você…

A valquíria cerrou os punhos. Não podia perder a cabeça; ela já não era mais a jovem tola sem controle de outrora. Aquela que fazia as coisas sem pensar, cheia de violência, ódio e rancor: sentimentos que pulsavam junto ao seu coração e eram bombeados como se fosse seu próprio sangue.

Tentando vestir sua melhor expressão de boa valquíria, tornou a falar:

— Desculpem-me — disse sem nenhuma vontade de que aquilo fosse realmente arrependimento. — A viagem foi longa e pouco amigável.

Verdandi pigarreou:

— É impossível. Entenda isso e siga em frente — Verdandi se levantou e em seguida, ajudou Urd a fazer o mesmo. — Isso é tudo, Valquíria do Infinito.

As três nornas anciãs puseram-se a caminho. Tinham muito o que fazer. Regar as raízes de Yggdrasil não era tarefa fácil, muito menos dar conselhos às jovens nornas. E mesmo após todo o trabalho, voltariam a meditar, presas em um sono em que jamais descansariam.

Vendo as três mulheres descendo o altar, Zero exclamou:

— Por favor, Skuld, preciso ter uma palavra com você. As outras podem ir regar sua preciosa árvore.

Sem questionar, Skuld ficou, após ter certeza que suas irmãs estavam bem com aquilo. Seu dever como norna a impedia de negar o desejo de quem viesse para uma consulta com o destino. Olhou para Zero, que observava as jovens colhendo maçãs.

— Acabei de lhe falar. Seu destino não pode ser…

— Eu não viajei até aqui para saber do meu destino — interrompeu a Senhora do Futuro. — Sei muito bem o que vocês me disseram em todas as vezes que eu acompanhei meu Pai até aqui.

Skuld suspirou pesadamente.

— Muitas são as vezes em que as pessoas não se conformam com o destino que lhes é dado. Por isso tendem a voltar para descobrir se algo possa ter mudado.

— O que faria uma mulher sem destino num lugar como

 esse? Irei me conformar com o quê? Com aquilo que não possuo? — Zero riu uma risada que parecia exalar um pouco de tristeza. — Desculpe-me, não é do meu feitio parecer tão ameaçadora. Embora o que eu tenha dito seja verdade.

— Então diga o que quer saber — a norna anciã incitou.

— Preciso que me diga tudo sobre o futuro de alguém específico…

— E quem seria?

— Explicarei, fique calma, mulher.


***

— Eu tenho medo, papai.

— Não há o que temer, meu filho. Thor está comemorando as nossas conquistas, batendo com seu martelo! — O homem abraçava seu filho, dando-lhe conforto em relação aos raios e trovões incessantes.

— Agora você precisa ir dormir, Bore. O dia será longo amanhã — de um canto escuro da pequena cabana, surgiu uma mulher. Seus cabelos ruivos eram raspados do lado direito e trançados no lado esquerdo, chegando até metade de suas costas. Seus olhos azuis brilhavam à luz da fogueira no centro da cabana. — Deixe-me a sós com seu pai.

— Deixe o garoto ficar mais um pouco, Yertha.

— Não, Devar. Já passou da hora — abraçou o homem por trás. Devar era um homem robusto, com um longo emaranhado de pelos negros no rosto e uma volumosa cabeleira da mesma cor. Uma cicatriz cortava sua bochecha direita verticalmente. — Agora vá, Bore.

O garoto olhou para sua mãe, e após um breve momento de reclamações, obedeceu ao pedido.

— Por que conta essas histórias para o garoto? Thor? Sério?

— Yertha comentou, com um certo ar de reprovação.

— Mas é verdade. Thor está lá em Asgard, e nos protege e nos dá forças em momentos que precisamos da fúria dos trovões! — Devar respondeu, empolgado. — O que fizeram com sua fé, minha amada?

— Foi-se embora quando perdemos nossa última casa e meu pai para um bandido qualquer, Devar. Onde estão os deuses quando mais precisamos deles?

— Estão preparando nosso banquete em Valhalla, mulher! E se as coisas aconteceram, foi porque estava escrito em nosso destino.

— Você se contenta com tão pouco… — replicou, soturna.

— Por isso você me ama — deu um beijo em Yertha. — Vamos para a cama.

Bore viu a luz da fogueira se apagar. Deitou-se e se encolheu em sua cama de palha, tentando não dar ouvidos aos sons tenebrosos do exterior, e aos barulhos e gemidos de seus pais.

A tempestade não parecia querer ceder tão cedo, e mesmo após seus pais se silenciarem e caírem no sono, a chuva não cessou, e os trovões continuaram a atormentar.

Sem conseguir dormir, o rapaz se levantou e correu até a porta de casa. Observava atentamente o céu, negro e repleto de nuvens, as quais apareciam nitidamente quando o céu se esbranquiçava devido à luz de um raio.

Raio.

Em seguida, o estrondo do trovão.

Bore estremeceu, mas não recuou. Permaneceu à porta, olhando para o extenso breu. Nunca gostou da tempestade, sempre preferiu as estrelas que ornavam os céus com seus brilhos. Todas as noites desejava poder ter a sua própria estrela, embora soubesse que não conseguiria.

Raio. Trovão.

Agora nem ao menos estremeceu. Estava firme, não sentia mais medo. Poderia enfim falar para seu pai que o estrondo do martelo de Thor não lhe amedrontava mais. Tal pensamento não se manteve com o rapaz por muito tempo.

O céu clareou e, no meio das nuvens, viu uma silhueta. Sentiu um calafrio descer-lhe a espinha. Recuou, mas ainda manteve a cabeça para fora, na esperança de ver novamente a aparição. Foi em vão.

Numa mistura de decepção e medo, Bore resolveu voltar para a cama. Contudo, foi impedido quando ouviu o soar de um berrante de guerra. Inimigos.

— Mãe! Pai! É um ataque!

Ao ouvir a palavra ataque, seu pai saltou da cama como se fosse um gato. Não demorou nada para que vestisse alguma roupa e agarrasse seu machado e escudo.

Sua mãe levantou-se ainda mais rápido, como se fosse um dos raios que avistara nos céus. Ajudou seu pai a se ajeitar, e após um beijo de despedida, deixou-o seguir para a batalha.

— Também quero lutar, mãe! — O rapaz exclamou, colocando as mãos em um machado próximo à porta. — Vou provar meu valor para o pai e para os deuses!

— Temos que fugir, Bore — arrancou o machado da mão do jovem e o colocou em sua cintura. A mulher envergava um gibão verde escuro, e calças e botas de couro. Deu um punhal para o filho. — Use isto para se defender.

— Sou um homem feito, mãe! Quero um machado — protestou o rapaz, mas sua mãe não lhe deu ouvidos.

Juntaram peles e um punhado de comida e teriam fugido a tempo se três homens não tivessem invadido sua casa. Barbudos e de rostos quadrados, os homens carregavam machados e vestiam nada além de calças e botas de couro.

— Vejam a sorte que temos. Acabamos de achar um par de tetas que valem a pena foder — disse o homem com uma barba marrom que lhe chegava até o peito e uma careca brilhante por estar molhada. — Pena estar vestida como um homem.

— Não é como se ela fosse continuar vestida, meu irmão — resmungou o segundo invasor, torcendo a trança negra que era seu cabelo.

— Tem um garotinho aqui também.

— Eu não sou um garotinho! — Bore avançou no pescoço do terceiro homem, um magricela, sem barba alguma, não que isso significasse que o homem fosse mais fraco. Soltou-se das garras do garoto e o arremessou contra a parede.

— Além de ser um garotinho, quer morrer cedo — o magricela comentou, seguindo em direção ao jovem caído.

— Termine com o garoto e venha se divertir com a gente, Umber — convocou o homem de trança negra, enquanto acariciava os seios da mulher por cima do gibão. — Veja como ela fica excitada. Deve estar toda molhada — deslizou a mão pelo corpo de Yertha, descendo até suas partes íntimas.

Assim que a mão do invasor alcançou seu objetivo, Yertha agiu. Rápida e eficiente, a mulher utilizou o machado em sua cintura para cortar a mão que lhe assediava. O homem agonizou e recuou, tropeçou em uma banqueta e caiu sobre a fogueira ainda acesa.

Barba marrom, vendo seu irmão gritar, sacou o machado e avançou contra a guerreira com um golpe vertical, a fim de acertar a cabeça. A mulher rolou para o lado, evitou o golpe e, em seguida, golpeou o joelho do invasor com o machado, obrigando-o a cair.

Sem perder tempo e ignorando o garoto, Umber tornou sua atenção para Yertha e arremeteu contra a mulher, executando uma investida horizontal.

Yertha previu o movimento simples e, após se abaixar, projetou-se contra o homem, com força suficiente para que o derrubasse. Umber grunhia, apalpando o chão à procura do machado que deixou cair. Quando o encontrou, enfiou a arma na costela da guerreira, que berrou ao cair para o lado.

— Deixe minha mãe em paz, desgraçado! — Rugiu Bore, agarrando-se nas costas de Umber, que passou a se debater na tentativa de derrubar o rapaz.

— Solte-me, garoto — agarrou Bore pelos cabelos e o arremessou ao chão. — Agora você vai morrer! — Sem qualquer cerimônia, partiu o crânio do garoto. Sangue escorria, denso, junto com um pouco da massa cinzenta.

Embora seu ferimento lhe castigasse com a dor, ver seu filho ser morto daquela forma apunhalou-a ainda mais forte.

— Não!! Por quê?! Que os deuses o amaldiçoem, maldito — Yertha rugiu o mais alto que seu ferimento lhe permitiu.

— Ainda está viva? — Questionou, claramente surpreso. — Você é uma mulher forte, sabia? Veja o que fez com meus irmãos. Queimou Heidar e provavelmente aleijou Bhor. Estou até com pena de matar uma guerreira tão incrível como você. — Umber, após uma boa risada, sacou o machado preso na cabeça de Bore e o colocou no pescoço da mulher. — Quais são suas últimas palavras? Se quiser, posso rezar aos deuses mais tarde para que a levem para Valhalla.

— Que Nidhogg devore sua carne, seu maldito — num movimento preciso, a mulher acertou a cabeça do invasor com uma pedra retirada da fogueira, fazendo-o cambalear para trás. Rapidamente, Yertha se jogou por cima de Umber, mas dessa vez o socou. Uma vez, duas, três vezes, até seu punho estar banhado no sangue do inimigo.

Deixou-se cair sobre o corpo de Umber. Sentia-se cansada e pesada. Quando ouviu o gemido do homem chamado Bhor, suspirou e revirou os olhos, mas no fim, foi até lá.

— Por favor, não me mate — implorou para Yertha, que permanecia de pé ao seu lado, machado em mãos. — Eu imploro!

Sem dizer uma única palavra, arremessou o machado contra a cabeça do invasor.

Yertha ainda conseguia ouvir o som da batalha no vilarejo. Sabia que viriam mais homens ali e que ela não tinha condições de enfrentá-los. Juntou todas as coisas que conseguiu e, antes de ir, foi até o corpo de seu filho, Bore.

— Se os deuses olham por nós, que ao menos confortem sua alma, meu querido — deu um último beijo na testa do rapaz.

E foi embora, sem sequer olhar para trás.


***

Teve que esperar uma semana para finalmente presenciar o ataque ao vilarejo que Skuld havia lhe informado. Zero viajou a pé, passou pelo portão de Midgard e seguiu por quase três dias em uma tempestade intensa até chegar no suposto lugar.

Agora, a Valquíria via tudo de cima, sentada na beira de um penhasco. Uma tempestade castigava o lugar com raios constantes e poderosos, mas mesmo com todos os estrondos, ainda conseguia ouvir o som do aço.

Homens adentravam uma vila com seus machados em mão, prontos para saquear e estuprar quem encontrassem pelo caminho. Aquela era uma das leis naturais dos homens, e Zero estava ciente.

Contudo, era isso que os tornava tão perigosos e formidáveis em combate. Foi por isso que Odin ordenou a construção de Valhalla, para que pudesse reunir um exército poderoso capaz de enfrentar os perigosos gigantes.

Quando iniciou seu treinamento, Zero fora para sua primeira caçada com suas irmãs valquírias e, na ocasião, todas elas pareciam fascinadas com o modo de batalha dos homens. Nunca entendera por que tamanha fascinação. Talvez pelo fato de já ser acostumada com as batalhas dos homens, aquilo já não lhe atraía mais como antes. Entretanto, ela não deixava de concordar que o povo de Midgard era naturalmente um povo guerreiro.

Preciso de bons guerreiros, mas tudo que vejo são homens desajeitados queimando uma vila qualquer, pensou Zero. Nunca reclamou do seu trabalho; gostava de recrutar homens com os quais pudesse combater mais tarde, guerreiros e guerreiras que dariam sua vida pelo bem do cosmo. Entretanto, acreditava que não seria naquele dia que conseguiria guerreiros dignos para Valhalla além do qual ela já tinha ciência de que encontraria.

Depois de muito pensar, observar, mas também bastante entediada com a falta do que fazer na situação, resolveu descer em direção ao vilarejo.

Na entrada da vila, arqueiros mortos com cortes no pescoço; haviam sido pegos de surpresa. As cabanas de palha queimavam, e o cheiro que elas exalavam se misturavam com o de terra molhada e o de cadáveres. Homens dançavam a dança do aço sob o céu enegrecido, e Zero caminhava por entre a batalha com tranquilidade. Não era como se não pudessem vê-la, só estavam ocupados demais matando a própria raça para se preocupar com outros.

De certa forma, isso a entristecia, embora fosse seu trabalho. Sempre quis um universo sem guerra, mas a mesma estava presente em sua vida desde que conseguia se lembrar. E agora, ela era sua ferramenta. Tentava guardar em sua cabeça que todas as mortes e batalhas eram meios para alcançar o fim que almejava. Para ela, isso já era o suficiente para manter sua mente livre.

Quanto mais andava por entre os corpos e cabanas incendiados, com menos vontade pensava em levar quaisquer um daqueles homens. Era um trabalho porco e ruim. Seriam facilmente engolidos pelas forças de Jotunheim, da mesma forma que o exército de elfos foi há dois séculos, quando os gigantes invadiram Alfheim e os escravizaram.

Ao virar para o fundo de uma casa incendiada, percebeu o som de batalha aumentando. Ouvia o grunhido e os berros de raiva que ecoavam naquele caos auditivo e visual.

Logo viu uma mulher de tranças cor de sangue empunhando uma espada, golpeando o peito de um agressor enquanto um outro chegava por trás, furtivo.

Zero não se moveu, queria ver o que iria acontecer. Não se arrependeu. A mulher, apesar de estar com um enorme corte na região da costela, era habilidosa e mortal. Como se possuísse olhos nas costas, girou nos calcanhares e acertou o cotovelo no rosto do agressor furtivo.

O ímpeto a fez perder o equilíbrio. Está bastante fraca, concluiu Zero. Caiu de joelhos; a abertura deu chance para outro agressor, surgido das sombras, dar uma joelhada no seu rosto, fazendo-a cair de costas no chão. Cuspiu sangue, o nariz quebrado. Apalpou o chão pela espada, mas sentiu um pisão na mão. Gritou. O bárbaro preparou outro chute, e apesar de estar quase definhando, a mulher rolou para o lado, esquivando.

Apanhou um punhado de areia e jogou nos olhos de um dos atacantes, e quando se levantou para se jogar contra ele, sentiu o outro puxar-lhe a perna, derrubando-a mais uma vez. Uma dor perfurante atravessou sua coxa esquerda graças a uma faca atarracada nela.

Sentiu outra estocada na perna antes de perceber que o homem tentava lhe arrancar as calças. O guerreiro que havia recebido areias nos olhos voltou a si e logo agarrou os cabelos ensanguentados da mulher, agora imobilizada e indefesa.

A valquíria viu os dois agressores rindo, abaixando as calças, triunfantes. Zero meneou a cabeça, estalando a língua. Avançou com velocidade, a espada ainda na bainha.

Com força, desferiu um gancho de direita no que agarrava os cabelos da ruiva, que caiu com um baque. A valquíria sentiu a mandíbula dele quebrar-se com o impacto. O outro que estava sobre a guerreira não teve tempo de se levantar. As calças se embolaram nas pernas; Zero riu, e então socou o topo da sua cabeça, afundando o crânio.

O agressor que havia sido cortado no peito quando Zero acabara de chegar ainda estava vivo, encolhido num canto. O desespero dançava em seus olhos apenas por um único instante. A Valquíria do Infinito foi a última coisa que ele viu.

Zero retirou o cadáver com o crânio destroçado de cima da guerreira. Ela respirava com dificuldade, o corte na costela ainda mais aberto que outrora.

— Você tem potencial — deu um sorriso. — Lutou contra eles e quase venceu mesmo nesse estado. Sinto um calor, uma vontade incessante de lutar e… — pausou. — Vingança.

— Quem… é você? — Foi o que conseguiu perguntar, tossindo e cuspindo sangue. Em determinado momento parecia quase ter se afogado, mas aguentou firme.

— E isso realmente importa agora?

A ruiva vomitou mais um pouco.

— Acho que não.

— Lutou bem, mulher. Vamos, diga seu nome — Zero perguntou, desembainhando e encostando a espada no pescoço da mulher.

— Yertha Rakjar…

— Bem-vinda a Vallhalla, Yertha Rakjar.

A espada desceu. E os raios pintaram o céu por um instante de branco.


***

Dois guardas comemoravam a volta de Zero quando a viram no fim da ponte arco-íris. Com suas lanças elevadas, gritavam para que os homens responsáveis pelos portões o abrissem para deixá-la passar.

A valquíria finalmente chegara a Asgard depois de uma longa jornada até a Fonte de Urd e Midgard. Colhera todo o conhecimento necessário, além de alguns poucos guerreiros para Valhalla. Tinha certeza que Odin ficaria grato.

Apesar de a noite reinar naquele momento, tudo estava quase tão claro quanto sua vontade de estar em casa, pois a lua cheia comandava os céus.

A cidade era dividida em duas áreas: a primeira área, dedicada a população, era predominantemente feita de casas de pedra, algumas tão altas quanto torres. Uma espaçosa praça ficava situada no centro da cidade, onde æsir podiam ter seus momentos de lazer e socialização. Grandes árvores decoravam a praça, e alguns bancos que ficavam sob a sombra delas serviam como local de descanso e apreciação da paisagem.

Enquanto que a primeira área abrigava basicamente toda a população de Asgard, a segunda área, situada no ponto mais alto da cidade, era onde se localizava o palácio de Odin e Valhalla; e era para lá que Zero seguia.

Por todos os lugares em que a valquíria passava, sentia olhares desagradáveis em sua direção. Ela não culpava ninguém de tais atos, afinal, todas aquelas pessoas queriam estar na mesma situação: fazer parte do conselho de Odin. Só de pensar que uma simples valquíria havia se tornado tão importante, aflorava os piores pensamentos na mente da população.

Algumas vezes, Zero se pegava perguntando o real motivo de Odin tê-la colocado em um patamar tão alto dentro da sociedade dos æsir, quando na verdade, não passava de uma humana elevada a uma espécie de semideusa. Talvez o Pai de Todos precisasse ter a Valquíria do Infinito o mais próximo possível de si a fim de evitar que seu futuro incerto lhe causasse surpresas desagradáveis. Ou, pudesse ter certo receio sobre algo que Zero não saberia dizer.

Ignorando os pensamentos flutuantes, continuou seu caminho pela praça, passando devagar pelo grande fluxo de pessoas no local. Aquele sempre foi um lugar muito movimentado, pois era onde aconteciam diversos festivais para agradar a todos com música e dança. Naquele momento, ocorria o Festival dos Vanir, uma comemoração dedicada aos deuses da fertilidade, reis de Vanaheim.

As pessoas dançavam e bebiam à vontade enquanto tudo que Zero fazia era atravessar a quase impenetrável multidão. Por vezes, bêbados a esbarravam, outros até a convocavam para dançar, pelo menos até perceberem com quem estavam falando.

Afogam o tédio na bebida enquanto poderiam estar se preparando para lutar, a valquíria criticava a população em sua mente. Não gostava de ter que criar um exército de forasteiros quando poderiam muito bem treinar seus próprios guerreiros, ao invés de deixar a população se embebedar com festivais inúteis.

Tambores rufavam, criando uma melodia incômoda que se juntava aos gritos e risadas dos festeiros. Zero teve de agradecer ao cosmo quando se distanciou o suficiente da praça, onde conseguia ouvir apenas minimamente a multidão.

Avançou por algumas vielas, onde encontrou um gato preto dormindo no parapeito de uma janela alta. Um homem estava sentado em uma cadeira em frente à sua casa, cantando uma suave canção, desconhecida para Zero, a qual não deu nenhuma atenção.

Logo, se viu na base da escadaria direcionada a Valhalla. Degraus de mármore e corrimãos de ouro eram o que constituía aquela longa monstruosidade. No seu topo, uma gigantesca construção, muito parecida com um castelo, se erguia imponente, toda feita de mármore, com portas de ouro maciço. Duas valquírias guardavam o local, com lanças e escudo em mãos. Envergavam armaduras brancas completas, com uma espada dourada gravada no peitoral e capas vermelhas cor de sangue, denso.

Quando tiveram o vislumbre da Valquíria do Infinito, ambas se ajoelharam, e apenas se ergueram quando Zero ordenou.

— Bem-vinda de volta, senhora — uma das valquírias declarou ao abrir a maciça porta de ouro. Zero apenas acenou com a cabeça, sorriu, e seguiu para o Grande Salão.

Antes mesmo de adentrar o salão, a Valquíria do Infinito já conseguia ouvir o barulho de música e de festa. Era um costume festejar todos as noites após um longo dia de treinamento árduo de batalha. Tal ação era uma espécie de recompensa por tamanha dedicação aos treinamentos em Valhalla.

Uma quantidade surreal de mesas estava disposta lado a lado, onde todos os guerreiros de Valhalla saciavam sua sede e fome. Pilares sustentavam o teto de mármore, enquanto tochas se agarravam neles para iluminar todo o local.

Duas mulheres faziam sua refeição em um estrado no fundo do salão, num lugar de destaque. Ambas bebiam alegremente e por algumas vezes paravam a música para propor qualquer tipo de brinde, o qual era sempre respondido com muita alegria, e ainda mais cerveja.

No entanto, tudo mudou quando Zero adentrou o Grande Salão. A música cessou instantaneamente e toda a bebedeira parou quando a viram caminhar por entre os guerreiros, em direção ao estrado.

O silêncio era incômodo, mesmo ela sabendo que tal ação não era feita por desafeto, mas sim por respeito. Ouviu um berro de boas-vindas abafado do meio da multidão, e foi o suficiente para a festa continuar, desta vez com todos gritando seu nome e lhe desejando boas-vindas.

Estou finalmente em casa, disse a si mesma, alegre. Todos os pensamentos ruins que adquiria durante a passagem por Asgard sempre eram rasgados e queimados de sua mente quando chegava em Valhalla. Aquele lugar era a sua casa, seu mundo, e onde encontraria as suas irmãs para dividir novas histórias.

Assim que se aproximou do estrado, uma das mulheres que lá estavam exclamou, chamando sua atenção:

— Finalmente nos agraciou com sua presença, Zero!

— O dever não quer me deixar em paz, Sigrdrifa — respondeu à mulher. Sigrdrifa possuía cabelos sombrios, que pendiam até metade de suas costas, e olhos azuis tão claros que por vezes pareciam brancos. Envergava uma armadura escamada verde-floresta, com um berrante branco gravado no peitoral, o qual representava a sua alcunha. — Às vezes gostaria de poder ficar deitada como Freya no Jardim dos Deuses.

— E qual seria a graça disso? — Dessa vez quem se pronunciou foi a valquíria ao lado de Sigrdrifa. Seus olhos eram enevoados devido à cegueira. Os cabelos lhe chegavam até os ombros e eram prateados como o aço de espada. A mulher trajava uma armadura da cor de seus cabelos, e em seu peitoral, carregava um olho enegrecido. Após beber um gole da cerveja em seu copo, continuou. — Deixe Freya para lá e nos conte das suas jornadas. Aposto que tem muitas coisas para contar, afinal ficou bastante tempo fora. Vamos, sente-se conosco!

Não esperou que insistissem. Zero puxou uma cadeira e sentou-se à mesa junto de suas duas outras irmãs. Ambas eram as únicas valquírias que possuíam certo apreço por ela. Desde que se conheceram há muito, criaram certo laço de rivalidade e respeito, e era isso que Zero mais valorizava atualmente.

Sigrdrifa encheu seu copo, apenas para acabar com ele num único gole.

— Surpreende-me em saber que são necessárias duas valquírias para exercer minha função — deu uma risada, enchendo o copo mais uma vez. Na sua despedida, deixou as próprias valquírias sozinhas para decidir quem as lideraria

durante sua ausência. Chamou aquilo de ‘liberdade de escolha’ e acreditou piamente ter feito a coisa certa.

— Você fala como se fosse fácil controlar esses homens de Midgard. São animais, que só pensam em matar, comer e fazer sexo. Skögul quase precisou matar alguns deles.

Zero encarou sua irmã de cabelos prateados.

— Isso é verdade, Skögul?

— Sim, quase causaram uma guerra dentro dos salões de Valhalla. Não podemos deixá-los tão soltos assim, Zero. Precisamos controlá-los.

— Como se pudessem ser controlados — encheu mais uma vez o copo, mas dessa vez não bebeu. — Skögul, me diga, a quantas caçadas em Midgard você já foi? — Questionou, alisando o bocal do copo.

— Nenhuma — respondeu a valquíria cega. Sentia-se constrangida ao fornecer a informação.

— Exato, irmã. Se você tivesse a experiência que eu e Sigrdrifa tem em caçadas, saberia muito bem da impossibilidade de controlar esses guerreiros. Claro, eu consigo ao menos acalmá-los pois possuo certa afinidade com eles, afinal nunca deixei meu passado de lado, conheço minhas origens — concluiu Zero. Depois agarrou o copo de cerveja e deu mais um gole. — Além disso, por que acha que Odin quer tanto eles para seu exército?

— Porque são ótimos guerreiros, como você mesma está dizendo.

Zero riu, e Sigrdrifa a seguiu.

— Estou começando a questionar a decisão de nossas irmãs ao escolhê-la para as liderar na minha ausência — sorriu novamente para Skögul, para provocá-la. — Vou lhe mostrar o real motivo, minha irmãzinha — bateu com força o copo de madeira na mesa, atraindo a atenção de todos no salão.

— O que ela vai fazer? — Perguntou Skogul, mas tudo que sua irmã fez foi menear a cabeça e pedir para que esperasse.

— Vejo que estão aproveitando a festa — começou a falar, se levantando da cadeira. — Porém tenho notícias importantes a dar para todos. Acabei de ficar sabendo que os gigantes irão atacar Asgard nesta madrugada!

Antes mesmo de poder terminar seu discurso, os homens começaram a se manifestar.

— Vamos destruí-los!

— Dê suas ordens, Ceifadora da Guerra! Mataremos todos em nosso caminho!

— A seguiremos até o fim de nossas vidas!

E o tumulto continuou. Os guerreiros rugiam e os berrantes soavam. Espadas, machados e lanças eram erguidas junto a bebidas, e o batuque dos tambores foram substituídos por batidas em escudos.

Skögul ficou perplexa, mas parecia ter compreendido.

Zero sorriu, depois tomou mais cerveja.

— Percebeu como se tornaram ainda mais ativos quando falei que iriam guerrear logo? Percebeu a ausência do medo da morte? Odin os escolheu pois adoram a nós mais do que a própria vida, e estão dispostos a se sacrificar pelas nossas vontades.

— Claro, a proficiência em batalha deles é um bônus muito útil — Sigrdrifa complementou. — Graças a todos esses motivos, temos o exército perfeito.

— Quase perfeito. Ainda são muito inconstantes. Precisam de mais treinamento.

— Tem razão.

A música continuou, e a bebedeira também. Alguns bárbaros se divertiam em uma competição de xingamentos. Zero tinha que concordar, os homens eram muito criativos na hora de inventar palavras de baixo calão. Nenhum outro povo que conheceu conseguiu alcançar tal patamar conquistado pelo povo de Midgard.

Riu um bocado junto de Sigrdrifa, sempre fazendo comentários relacionados as novas palavras que aprendiam com os guerreiros. Por mais que fosse uma humana na origem, não teve a chance de aprender tanto sobre a própria língua e, portanto, via-se mais entretida do que o normal quando presenciava esses momentos com os guerreiros de Valhalla.

 Após alguns minutos de diversão, percebeu um certo desânimo por parte de sua irmã cega.

— Ficou em silêncio de repente, Skögul — comentou a Valquíria do Infinito, enchendo o copo de cerveja e oferecendo para suas irmãs.

— Percebi que preciso aprender muita coisa ainda, irmã. Obrigada por abrir meus olhos e destruir meus achismos e incertezas — levantou e se ajoelhou em frente a Zero. — Peço-lhe sua benção antes de me retirar para meus aposentos.

— Que o cosmo lhe proteja, irmã — apoiou a mão no ombro de Skogul, que levantou após sentir o toque.

— Obrigada mais uma vez, Zero.

Após a saída da valquíria cega, Sigrdrifa não se conteve.

— Ela é tão estranha, não acha? Todas as vezes em que a questionamos, ela procura desviar de alguma maneira, geralmente fugindo do local como fez agora.

— Nem todos agem sem pensar como você, irmã. Alguns precisam refletir sobre cada ação realizada em suas vidas — deixou-se esparramar na cadeira.

— Nem sempre há tempo para pensar — revelou a valquíria dos cabelos negros, num tom soturno.

Zero nada disse. Ateve-se a apenas matar seu caneco de cerveja. Após um momento de silêncio entre as irmãs, Sigrdrifa resolveu se pronunciar:

— Agora que estamos a sós, conte-me sobre o que aconteceu na Fonte de Urd.

— Passei a maior parte do tempo esperando a boa vontade das Nornas — disse à irmã num tom monótono. — Pelo menos quando fui atendida consegui as informações que buscava.

— Está falando dos homens que trouxe de Midgard? Sinceramente, achei que viriam em maior número. Acredito ter sido a caçada mais humilde de todos os tempos.

— É verdade, não havia homens de qualidade — Zero não se orgulhava da última caçada. Três homens realmente era o menor número de recrutados por uma valquíria. A dona da marca anterior de oito recrutados era da infame valquíria Vadana, A Fracassada, a qual era alvo de piadas justamente devido a sua ineficiência nas caçadas. — Contudo, há uma mulher dentre os três, irmã, que aposto estar à par do nosso melhor guerreiro.

Sigrdrifa riu.

— Você está apenas tentando esconder o seu fracasso com uma desculpa maluca. Ou talvez já esteja bêbada — puxou o copo das mãos de Zero, apenas para enchê-lo mais uma vez. — Deixe as piadas para Loki, minha irmã.

— Diga-me quando me ouviu contar alguma piada, Sigrdrifa — questionou Zero num tom cortante, sua expressão tornando-se fria e sombria subitamente.

Um silêncio caiu novamente sobre ambas as mulheres. Encaravam-se com frieza, estudando a expressão facial e os simples movimentos que faziam. Está ponderando sobre o assunto. Ainda está duvidando do que eu disse, pensou Zero. Conhecia muito bem sua irmã valquíria, e sabia quando algo não a convencia.

— Estou vendo que não acredita em mim, irmã. Tudo bem, não faço questão de tal. Fique ciente de que logo você ouvirá o nome dela por esses corredores.

— Talvez — levantou-se, sem antes terminar de beber a cerveja em seu copo. — Ou talvez, Ognar continuará sendo o melhor. No fim, tudo sobre essa guerreira são apenas suposições, enquanto que para o meu campeão, são fatos. Quer ter uma ideia do que eu estou falando? Vá ao pátio de treinamento mais tarde.

— Irei se possuir o tempo para isso — Zero respondeu, sorrindo como sempre. — Agora dê-me licença, Sigrdrifa, tenho assuntos a tratar.


***

A Valquíria do Infinito seguiu por entre os corredores de mármore de Valhalla a passos largos. O metal de sua armadura tilintava, e as luzes que vinham das chamas de tochas presas às paredes faziam com que o metal reluzisse.

Andou por pouco tempo, até chegar a um pequeno aposento que estava com sua porta dourada entreaberta. Parou ali.

— Ela ainda não acordou, Eir?

— O ferimento na costela dela estava pior do que aparentava. A pobre mulher sofreu demais antes de você chegar, Zero — a valquíria chamada Eir respondeu. Possuía longos cabelos vermelhos trançados, e olhos cor de avelã. Trajava um vestido de seda branco, tão longo que sua barra se arrastava no chão, e usava um brilhante colar de prata no pescoço. — O dano emocional nesta mulher…

— Eu sei. Salvei-a antes que fosse ser estuprada por um bando de malditos — interrompeu-a. — Ela já estava bastante machucada quando cheguei.

Eir suspirou.

— Ela irá acordar quando estiver pronta. Não apresse o procedimento. Agora se me der licença, preciso ir analisar os outros dois que você trouxe.

— Vá em paz, irmã. — Ela não respondeu, apenas encarou a Ceifadora com seriedade.

Quando Eir a deixou, Zero se dirigiu à cama onde Yertha dormia, serena, e se sentou. Observava a mulher atentamente. Envergava nada além de um vestido de linho, e seus cabelos ruivos, diferentes de quando Zero a encontrou pela primeira vez, eram um emaranhado de fios vermelhos, livres de qualquer trança.

Começou a questionar a afirmação que fez para sua irmã. A mulher realmente era muito habilidosa, mas vendo-a deitada num sono tão profundo criava uma dúvida em relação ao seu verdadeiro poder.

Zero chegou naquela conclusão ao comparar com quando Ognar foi trazido para Valhalla. Sua irmã Sigrdrifa precisou cortar a cabeça do homem para poder trazê-lo, e quando chegou, foram necessárias duas valquírias para conter sua felicidade por chegar no Grande Salão.

Ao observar o poder de Ognar, Odin presenteou sua irmã com uma nova espada, armadura, e uma alcunha: Incitadora de Vitórias. Naquela época, Zero era apenas uma recém-formada valquíria, adorada por ninguém, desprezada por muitos, e ver sua irmã adquirir tamanha fama por causa de um único feito fez Zero a invejar, mas também lhe deu alguma esperança de enfim ser notada por Odin.

Muito tempo se passou desde então, e a Valquíria teve que fazer muito mais do que tirar a sorte grande com um guerreiro de Midgard. Treinou com dedicação, caçou milhares de guerreiros para o exército de Odin, matou todos aqueles que ficaram em seu caminho; fez tudo o que deveria ter feito para se tornar a melhor, para ser o que é hoje e, se fosse necessário, faria tudo de novo sem qualquer hesitação.

Mesmo após todo o árduo caminho que trilhou, estava ali, sentada em uma cama duvidando de suas próprias afirmações. Por que duvidar agora? Nunca errei, maldição. Não será hoje que estarei errada, xingou a si mesma. Contudo, mesmo pensando dessa forma, ainda não poderia fazer nada em relação ao sono profundo de Yertha.

Ao perceber que permanecer ali não adiantaria de nada, Zero levantou-se num pulo, irritada, e se dirigiu à saída.

No entanto, acabou se deparando com uma de suas irmãs parada na porta.

Um silêncio suave pairou sobre suas cabeças. Nenhuma das duas sabia o que falar e, além disso, não era como se fossem melhores amigas. Skögul sempre preferiu o silêncio à popularidade, portanto nunca teve muitas companheiras para partilhar experiências ou treinar suas habilidades em conversa fiada. Zero era sempre muito mais ação, poucas palavras. Mesmo assim, quando era necessário, dava sábios conselhos para Skogul.

E por essa inexperiência e introversão, a valquíria cega ficou impressionada quando foi eleita para ajudar a supervisionar Valhalla na ausência de Zero, não apenas devido ao fato de todas votarem para escolhê-la, mas também por saber que ajudaria de alguma forma a Valquíria do Infinito, a qual sempre foi um modelo a ser seguido para ela.

E foi por tal motivo que veio até Yertha. Queria entender o que Zero vira de tão extraordinário na mulher, afinal essa era a única explicação para o suposto fiasco na caçada. No entanto, tudo que conseguia ver era uma mulher fraca, vagando pelo mar negro do Caos. Zero precisa ter visto algo nela. Ela jamais fez algo sem um motivo por trás.

— Está aqui há muito tempo, irmã? — Perguntou Zero, quebrando o silêncio. — Não a notei parada à porta.

— Acabei de chegar — retrucou.

Zero sorriu tristemente.

— Ela é a primeira guerreira que vejo estar em conflito em relação a Valhalla, sabia? Já vivi mais do que consigo me lembrar, mas nenhuma pessoa me lembra de possuir esta tamanha vontade de voltar às desgraças de Midgard.

A expressão de Zero tornou-se sombria subitamente, de uma forma jamais sentida por Skögul. Conseguia até mesmo sentir a melancolia emanar de cada palavra dita pela mulher.

— Ela lutou contra homens três vezes maiores que ela antes de trazê-la para cá — suspirou. — Precisei salvá-la, mas apenas porque ela já estava ferida. Quando eu olhei nos olhos dela, percebi que no fundo, ela sabia quem eu era, mesmo assim, pareceu que não queria morrer naquele momento. Ela queria vingança por algo.

Agora eu entendo, pensou a valquíria cega, foi a determinação dessa mulher que atraiu Zero.

A valquíria cega suspirou.

— Você está bem? Sinto uma tristeza tão densa e profunda, que acredito até conseguir apalpá-la.

— Sua perspicácia sempre me impressionou, Skögul, mas não se preocupe, estou bem — afagou os cabelos brancos da valquíria cega.

— Preciso voltar ao salão — retirou a mão que lhe afagava os cabelos gentilmente. Apesar da calma, nunca gostou que lhe fizessem aquilo. — O Pai quer que eu me mantenha de olho nos nossos homens.

— Bom, muito bom — Zero respondeu num tom monótono, dando de ombros. — Boa sorte, irmã.


***

Estava tudo claro. Uma luz angustiante parecia atravessar e furar seus olhos com tanta intensidade que pensou estar ficando cega aos poucos.

Yertha não sabia onde estava. Não havia nada nem ninguém naquele lugar branco e irritantemente calmo.

— Olá — exclamou. Sua voz retumbou no vazio. — Alguém aí? Devar? Bo… — pensou em chamar seu filho, mas lembrou do que lhe acontecera. Seu coração pesou, as entranhas dando um nó.

Não recebera qualquer retorno. Começou a navegar pelo mar de nada, em procura de alguma coisa que parecesse familiar.

Andou, andou e andou.

Não sou por quanto tempo o fez, mas como se anoitecesse subitamente, o oceando esbranquiçado deu espaço para a escuridão. Yertha se assustou, tentou recuar, mas caiu de costas no chão quando tropeçou em alguma coisa que não conseguia enxergar.

O cenário mudou de novo.

Estava em uma praça agora. Ou o que deveria ser uma. Havia chamas. Pessoas gritavam enquanto queimavam junto com suas residências de mármore e ouro, as quais derretiam lentamente. Um navio feito de unhas e carne apodrecida flutuava nos céus, jogando lá de cima cadáveres contra o chão.

Os mortos andavam e matavam quem ainda estava vivo. Crianças corriam desesperadas para seus pais, os quais muitos jaziam deitados inertes em meio ao caos e violência.

Criaturas humanoides avermelhadas e em chamas atravessavam a praça, pouco interessadas em toda a morte e dor ao seu redor. Iam em direção a um enorme castelo no topo daquele lugar.

Sobrevoando e atacando o navio flutuante, havia mulheres trajando armaduras prateadas. Todas usavam elmos que simulavam máscaras; possuíam asas três vezes o seu tamanho. Valquírias? Questionou a si mesma, incrédula.

Ninguém ali parecia ver Yertha. Ela correu como nunca houvera feito antes. Subia escadas de mármore, rumava para o castelo ainda intacto e que as criaturas gigantes pareciam querer chegar.

O ambiente mudou mais uma vez. Estava num salão enorme. Homens e mulheres caídos e estatelados sobre mesas de madeira, suas mãos segurando canecas de cerveja. Não havia sangue, entretanto, a morte era presente. No fundo da sala, uma mulher de olhos vermelhos e cabelos azuis gargalhava, divertindo-se com a cena.

Yertha entrou na primeira porta que viu. Não aguentava mais, queria fugir. Seu coração batia acelerado e seu estômago revirava com toda aquela morte e dor que a pegou de surpresa.

Todavia, a porta apenas a levou para mais outro pesadelo.

Um homem barbudo de tapa-olho, que trajava uma armadura dourada e reluzente, estava caído em seu trono. Uma lança perfurava seu peito. Yertha estava horrorizada. Se as gravuras que existissem em Midgard fossem de fato acertadas, então o homem morto no trono era Odin. À frente do Pai de Todos, uma mulher de cabelos dourados e olhos esmeralda. A mesma que havia lhe salvado em sua vila! Não sabia se havia sido ela que o matou. Não tinha sinais de sangue na mulher.

A loira a encarou friamente.

— Você o matou.

— Eu não fiz nada! — Yertha retrucou com firmeza, embora tremesse muito de medo.

A mulher parecia não ter ouvido.

— E agora, Sigê?

Yertha se virou para tentar ver com quem a loira falava. O mundo girou, agora estava abarrotada de neve.

Viu um homem careca de armadura vermelha lutando contra a mesma mulher da sala do trono. O som de aço beijando aço vibrava pelo ar com impacto. Yertha estremeceu, não soubera se de frio ou de medo.

Outro homem apareceu de súbito por trás da loira, mas teve o golpe evitado com maestria e precisão. A ruiva tentou gritar para chamar atenção, contudo sentiu o mundo escorregar de baixo dos seus pés mais uma vez.

Agora estava numa câmara. No centro, uma caixinha brilhante se encontrava imperturbável por uma espécie de escudo luminoso. Viu mais uma vez a mulher dos olhos esmeralda, agora se aproximando da caixinha.

— Finalmente — olhou para trás, seu olhar encontrou o de Yertha. — Devo lhe agradecer. Sua ajuda foi inestimável para consegui-lo. Esse é o primeiro passo para uma nova era…

— Os gigantes perecerão, e a guerra terá um fim.

— Terá, Yertha, com certeza…

Yertha?!

Mas antes que pudesse pensar em entender, tudo se apagou.

E dessa vez, definitivo.


***

Mesmo que Valhalla estivesse em uma das áreas mais altas de Asgard, o palácio de Odin estava situado num ponto ainda mais alto, e, portanto, obrigava Zero a subir as tão odiosas escadarias.

Se existia uma coisa que Zero odiava em todos os Nove Mundos, eram escadas, e Asgard possuía várias delas. Este era um dos motivos pelo qual a valquíria preferia permanecer em constante viagem. Ela trocaria todos os degraus de mármores por montanhas se fosse necessário.

A valquíria subia rumo ao Palácio de Odin: uma construção gigantesca de estrutura diversificada, ora feita de ouro, ora de vidro. Duas torres erguiam-se atrás do palácio, onde se localizavam os aposentos do lorde de Asgard e de seu filho, Thor.

Como qualquer outra construção importante da cidade, dois guardas protegiam a entrada. E assim quando avistaram Zero, começaram a se mobilizar para abrir todos os portões e para cumprimentá-la à altura.

Ela parecia sempre despertar o medo no coração de quem quer que a presenciasse. Bastava apenas um simples olhar para ter sua entrada garantida nos lugares que desejasse e receber a melhor hospitalidade possível. E não poderia ser diferente, tendo em vista a reputação da mulher.

Zero ainda lembrava do monótono dia em Vanaheim. Seu dever era apenas tratar de assuntos simples com Freya, mas acabou tendo certos desentendimentos com a Vanir, o que acarretou numa briga séria entre ambas, e uma punição por Odin.

Quando fora libertada, Zero descobriu que passaram a tratá-la como uma rebelde indisciplinada. Sabia que depois do conflito com Freya, sua vida não seria a mesma, mas o tratamento externo lhe pareceu extremo. No fim de tudo, acabou se isolando ainda mais, e aprendeu a apreciar sua solidão e exclusão.

Após vagar por alguns corredores do castelo, a valquíria se deparou com mais uma enorme porta feita de ouro. Não havia ninguém vigiando e, portanto, adentrou sem qualquer cerimônia.

No fundo da pequena sala, um homem, possuidor de uma respeitável barba branca e um tapa-olho no lado esquerdo do rosto, estava sentado em uma cadeira, lendo um grosso livro com uma capa de couro. Zero, ao entrar na sala, fechou a porta atrás de si, e o barulho acabou chamando a atenção do homem.

— Esperava ver você mais cedo — o homem comentou, voltando seu olhar para o livro.

— Precisei verificar como as coisas andavam em Valhalla, e isso acabou tomando mais tempo do que o necessário.

— Claro que tomou — suspirou, fechando o livro com uma pancada. — Ao invés de vir reportar imediatamente os resultados da viagem, preferiu brincar com de lutinha com Sigrdrifa. Sinceramente, Zero, às vezes pergunto-me o porquê

de aturá-la por tanto tempo.

A Valquíria do Infinito permaneceu em silêncio.

— Nada a declarar? Pois bem, fale-me então sobre o resultado pífio de sua última caçada, e me dê um motivo para não a trancafiar novamente nas masmorras de Valhalla.

— Não há nada a dizer em relação à caçada, Pai. Acredito que já lhe contaram tudo sobre o meu suposto fracasso — recostou-se na porta e cruzou os braços.

— Suposto? Você roubou o título de Fracassada da pobre Vadana ao voltar com apenas três guerreiros. Diga-me onde isso não é um fracasso.

Odin tinha razão. E seria difícil argumentar de forma coerente com o Pai de Todos. Zero havia, em tese, realmente fracassado ao trazer um número ridículo de guerreiros para Valhalla. Entretanto, parecia que ninguém conseguia recordar a natureza da valquíria: a qualidade antes de quantidade. Sentiu-se decepcionada por nem o próprio Pai lembrar disso. Mesmo assim, se preocupou em respondê-lo.

— É verdade, pai — concordou com certa relutância. — Mas escolhi os três com o maior potencial, pois o restante parecia-me um bando de bonecos de palha. Desculpe-me, mas se não está satisfeito, avise-me para que eu possa trazer quinhentos idiotas que serão apenas peso morto no campo de batalha.

Odin ergueu as sobrancelhas, estranhando a resposta relativamente amigável e apologética da mulher.

— Estou surpreso — disse enfaticamente. — Nunca esperaria uma resposta sensata e… calma de você.

— Podemos mudar, não é?

— As nornas pelo visto lhe botaram um pouco de juízo — sorriu o antigo deus. — Isso é bom. No entanto, preciso lhe informar algo que claramente você não vai gostar.

Entreolharam-se por alguns segundos, quietos. Zero retesou-se.

— A partir de hoje, você está fora da supervisão de Valhalla. Passarei o cargo para Sigrdrifa. — Comunicou Odin, de forma rápida e concisa.

— O quê?!

— Sigrdrifa é capaz de controlar os guerreiros de Valhalla. E tem mais vontade em servir do que você. Coisa que vem faltando em demasia desde que lhe entreguei o…

— O que raios vou fazer, então? — interrompeu Zero, indo até a mesa de Odin. Apoiou-se com seus punhos cerrados, seus olhos esmeralda o encarando.

— Você é uma valquíria, faça o que deve ser feito e treine seus guerreiros. Talvez você reconquiste o fogo que havia em você — Odin levantou-se e apontou para a porta do aposento. — Agora, Zero, preciso finalizar a minha leitura e não gostaria de ser incomodado.

Sentiu o sangue subir à cabeça. Odin parecia se divertir com a visão de uma quase-explosão da Valquíria. E apesar da dificuldade, Zero se conteve, sussurrando para si mesma encantamentos que lhe fora ensinada há muito por seu mentor à época em que era uma feroz e insaciável valquíria.

Ela sabia que não adiantava mais desafiar Odin com impetuosidade, então jurou que partiria para uma forma mais subjetiva de se trabalhar.

Fitou Odin com seus olhos esmeralda:

— Ora, Pai, algo de muito errado aconteceu. Você não me destituiria do cargo dessa forma sem um motivo muito maior — continuou a encarar Odin.

O Pai de Todos suspirou mais uma vez, revirando os olhos. Tamborilou os dedos na mesa, refletindo se deveria mesmo falar algo.

— Assinei uma trégua com os gigantes — revelou. Sua expressão por trás da volumosa barba estava impassível. — E por isso preciso que você apenas fique em silêncio e faça seus deveres. Sei muito bem que se você continuasse no cargo após receber esta notícia, com certeza ignoraria todas as minhas ordens e mobilizaria o exército.

Zero bufou:

— Como pode ser tão cego? — questionou a loira. — Acha que eles obedecerão a essa suposta trégua? Até quando? Amanhã, ou quando estivermos despreparados para a iminente traição?

— Não haverá traições! — deu com o punho cerrado na mesa. — Enquanto seguirmos o que as Nornas disseram, teremos condições de lutar no Ragnarök! — bufou, irritado. —  É por isso que preciso de você aqui, Zero. Quero que prepare nossos homens para o Ragnarök. Deixe que eu me preocupo com os gigantes.

— Não haverá nada disso! — exclamou a Valquíria. — Por que os gigantes aceitariam uma trégua?! Pense, Pai! O Ragnarök é o suposto retorno a Era de Ouro para nós. Não faz sentido eles quererem isso! — pausou, tentando se acalmar.

— O que não faz sentido é querer continuar lutando quando precisamos nos preparar — replicou Odin, composto. — Volto a dizer, não haverá traições. E mesmo que supostamente ocorra alguma, eu não sou idiota, Zero, se é essa a sua preocupação.

— A minha preocupação — respondeu, sentando-se numa cadeira ao canto da sala — é Hel e seu exército crescente de mortos e dragões. É Loki e suas conspirações nas mentes dos outros reis. É Surtr e sua movimentação em Muspelheim desde que passei por lá. É os pontos de bloqueio e devastação na estrada rumando para Vanaheim! Eu poderia continuar o dia inteiro se o senhor desejar. — suspirou profundamente. — Pai, não esqueça o real motivo por ter me dado o dom. Eu sou a sua informante de todo o cosmo. Eu sei o que anda acontecendo nos lugares em que o senhor não quer se meter. Peço que me ouça ao menos dessa vez.

— Nenhum deles me preocupa, Zero — queixou-se. — Somos estruturados, poderosos, e destinados à grandeza. Pergunte às Nornas, a Mimir e todos lhe dirão a mesma coisa: Voltaremos ao poder máximo.

Zero permanecia incrédula durante aquelas afirmações.

— Eles estão se preparando também, da mesma forma que vamos estar — retorquiu ao pôr-se de pé. — Espero que esteja levando isso em consideração também.

— Estou.

— E vai manter a mesma decisão?

— Vou.

— Que o cosmo seja bondoso conosco.


***

Sentada frente à uma lareira apagada, Skadi, a Senhora de Gelo e rainha de Niflheim, ponderava sobre a recente proposta do cavaleiro vermelho, que tremia feito uma gelatina devido ao frio intenso.

Tqir odiava com todas as suas forças o inverno, e quando ficou sabendo que precisaria ir até Niflheim para conseguir entrar em contato com seu antigo parceiro, torturou seu pobre cavalo com palavras de baixo calão. E o fez até ser abordado por gigantes de gelo, criaturas horrendas e disformes, cobertas de uma grossa camada de neve e carne congelada.

Não conseguiu se comunicar com os benditos monstros; afinal, quem ainda tentava aprender a língua deles? O cavaleiro vermelho então fora levado para o Palácio do Inverno, a morada da soberana do mundo congelado, sem saber ao certo o que fizera de errado.

Por sorte, apesar de Skadi ser uma gigante, não era uma aberração como os outros. Seus cabelos estendiam-se até o fim de suas costas, como uma cascata de fios azuis. Seu rosto era fino, de queixo esbelto e um nariz pequeno como um botão.

O cavaleiro vermelho nunca havia visto a Senhora de Gelo pessoalmente, e embora todas as histórias relatassem que ela possuía uma beleza descomunal, jamais imaginou ser no mesmo nível o qual presenciava naquele momento.

Quando Skadi abriu sua delicada boca para se comunicar com Tqir, o homem agradeceu ainda mais aos deuses por ouvir a gigante falar a língua comum, mesmo que o conteúdo não tenha sido dos mais amigáveis.

Demorou um bocado para convencê-la a não o matar. A gigante parecia estar determinada a empalar sua cabeça para que fizesse companhia aos outros animais na parede. Após muito implorar, conseguiu com que ela ao menos conversasse normalmente, apesar do constante beijo de uma lâmina em seu pescoço.

Agora, permanecia sentado no congelante piso de uma pequena sala, com suas mãos acorrentadas à sua frente. A corrente responsável pela sua prisão estava amarrada a uma grossa coluna, a qual o homem não sabia identificar se seria de pedra ou gelo. Ao lado da lareira, havia uma cadeira velha de madeira, quase totalmente coberta de neve.

Esperava a decisão de Skadi, ou que ela ao menos acendesse a maldita lareira que tanto encarava. A Senhora de Gelo trajava um colete couro e uma saia de pele de urso cosida. Sobre o colete, um grosso casaco de pele e pelos. Para os pés, calçava uma bota de cano alto de couro. Com toda aquela roupa, não admirava Tqir o fato da gigante não sentir o frio que ele sentia.

Depois de um longo e tortuoso período de silêncio, o qual Tqir sofreu incessantemente quando sentiu sua bunda congelar, a rainha de Niflheim resolveu se manifestar:

— Mesmo estando acorrentado em meu castelo, você ainda deseja fazer este tipo de proposta? Esclareça-me, por que eu deveria libertar Siegfried? — Olhou para Tqir por cima do ombro. — Ou melhor, por que eu deveria libertar você?

— Veja bem, vossa majestade — o cavaleiro vermelho começou tentando se ajeitar numa posição confortável, algo que parecia se tornar cada vez mais difícil. — A senhora precisa de apoio para persuadir os Filhos da Névoa, e eu, preciso de Siegfried. Não acha ser uma troca justa? Dois míseros prisioneiros por um exército de aberrações assassinas?

— Você fala como se tivesse certeza de que conseguiria trazê-los até mim. Entretanto, parece ter esquecido de quem são.

Como se fosse possível, resmungou para si mesmo.

O cavaleiro vermelho já teve suas desavenças com o grupo de humanos nascidos em Niflheim autodenominados de Filhos da Névoa.

Até os dias atuais, ninguém sabe ao certo como surgiram, ou o verdadeiro significado do nome de sua tribo. A única coisa conhecida sobre eles é o seu método de execução, o qual matam sem serem vistos, pois há sempre uma estranha névoa que os encoberta.

Os “malditos enevoados” como Tqir os costumava chamar, atacaram-no enquanto faziam sua travessia por Niflheim, em direção a Midgard. O cavaleiro vermelho jamais esqueceu quando sentiu a névoa fechar seus pulmões e a morte quase lhe beijar o rosto. Se os lobos protetores de Niflheim não tivessem aparecido, estaria provavelmente vagando por aquele maldito reino dos mortos que Hel comandava.

Percebendo o silêncio de Tqir, a rainha de gelo continuou:

— Supomos então, que eu aceite sua proposta, cavaleiro vermelho. Por que tem tanta certeza de que eu preciso da ajuda dos Filhos da Névoa?

— Porque só eles sabem a localização do Niflungar, o anel mágico capaz de lhe fornecer poderes diretos sobre tudo o que há em Niflheim — levantou-se e se aproximou o máximo que a corrente permitiu, com um esboço de sorriso no rosto. — É um artefato digno a uma rainha, não acha? Além disso, devo lhe advertir de que vossa majestade irá precisar dele em breve, se quiser continuar viva.

Furiosa, Skadi virou para o homem e plantou um tapa em seu rosto, seus olhos azuis brilhando de raiva.

— Cuidado com o que diz, cavaleiro — voltou a se virar para a lareira, como se nunca tivesse sequer explodido de raiva. — Toma-me por uma fraca? Odin pode mandar seu exército inteiro. Os aniquilarei todos nessas montanhas de neve e morte.

O Cavaleiro Lagarto soltou uma gargalhada, a qual ecoou por um bom tempo pelas paredes congeladas.

— Posso saber o que tanto lhe diverte?

— Claro, majestade — Tqir sorriu. — Odin não irá mandar exército algum para cá.

— Então não devo me preocupar em adquirir o Niflungar tão cedo, logo posso me livrar de você.

— Nada disso — balançou o dedo indicador em negação. — A senhora precisará do anel imediatamente. A Rainha Hel disse ter suspeitas de que A Valquíria do Infinito estaria a caminho.

— Faz-me rir com isso! Uma valquíria não é páreo para uma deusa como eu, seu imbecil — respondeu com frieza e escárnio. — Contudo, ela sempre me pareceu problemática.

Skadi, assim como qualquer outro ser no cosmo já ouvira alguma história sobre Zero, mas a deusa do inverno jamais acreditou em nenhuma delas. Fitou o cavaleiro vermelho:

— Pensarei sobre o assunto, Tqir. O anel é algo que irei precisar em breve de qualquer forma, então talvez seja melhor recuperá-lo logo. — comentou, pensativa. — Além disso, se eu derrotar essa valquíria de uma vez… pode ser interessante no fim das contas. A rainha de Niflheim voltou a encarar a lareira fria. — A cabeça de uma valquíria será um ótimo troféu, não acha, cavaleiro?

 

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