A Senhora do Fim do Mundo – Interlúdio I

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— Setenta anos antes —

 

— Não vejo motivos para estar aqui! — exclamou com tanta ferocidade que parecia cuspir as palavras. — Odin precisa me ouvir e deixar que eu treine logo aqueles homens em Valhalla!

Um homem baixo e robusto a encarou, impassível. Trajava uma armadura pesada de prata, toda lisa e esteticamente simples, mas funcional. O metal gemeu quando ele cruzou os braços.

— É por esse comportamento que eu a trouxe até aqui — disse monotonamente. Os olhos dourados brilhavam como duas bolas de fogo, intensos. Os cabelos castanhos escuros eram curtos e raspados nas laterais. — Onde está a disciplina? Valquírias devem agir com graça e disciplina, e pelo que eu costumo observar, você não possui nenhum dos dois, Volan.

A garota chamada Volan envergava uma armadura leve simples, num azul intenso e escuro. Usava uma tiara com uma obsidiana encrustada.

Estavam em um espaçoso campo, onde o vento era tão calmo quanto lesmas caminhando pela estrada.

O sol não aparecia naquele dia, já que as nuvens pareciam ter tomado conta de seu reinado naquele dia. Volan cuspiu no chão.

— Graça? Somos guerreiras ou dançarinas, Tyr?! — retrucou com agressividade o homem, que alisava com calma a sua volumosa barba castanha escura. O bigode descia até o queixo.

— A batalha que travamos com espadas nada mais é que uma curta e dolorosa dança, Volan — disse cansado. — Quem possui a graça com a espada, terá a fluidez para ser um mestre na dança do aço. No entanto, meu objetivo hoje não é lhe ensinar a lutar. Não, estou aqui para lhe ensinar controle.

— Você é exatamente igual Odin — disse com desdém. — Acha que eu preciso me controlar! Eu já disse que o que aconteceu naquele dia não vai se repetir.

Tyr meneou a cabeça.

— Creio que você não sabe a sua importância para Asgard — o cansado deus da guerra fez um gesto para que ela se sentasse na grama. Sentou-se em seguida. — Acha que o que aconteceu foi culpa sua e que pode controlar como se não fosse nada. Eu não a culpo, Odin nunca foi transparente com você, mesmo eu e Mimir o alertando.

— Alertando o quê? — questionou Volan. — O quão instável e monstruosa eu sou?

— Não, claro que não — soltou um risinho, o qual a loira não gostou. — Quero dizer, instável, sim, mas é uma preciosíssima peça para Valhalla. Alertamo-nos que você se tornaria rebelde, e vejo que estávamos certos.

— Tenho toda a razão do cosmo para isso! Odin toma-me por uma criança desde que me tornei uma valquíria, descredita tudo o que eu falo, desdenha de minhas visões!

— E as vozes? — Tyr interpelou de súbito, como se aquele assunto fosse algo inesperado para Volan, que arqueou as sobrancelhas. — Ora, Volan, fui eu que a trouxe até Valhalla; também fui eu que lhe entreguei o sagrado dom que reside em seu peito nesse momento. Você não esperava que eu não soubesse das vozes, ou de qualquer outro efeito que isso poderia lhe acarretar, não é?

Claro que ela sabia. Mesmo assim um assunto como aqueles sem nenhuma cerimônia a incomodou. Ela nunca gostou de conversar com os aesir, pois sempre desdenharam dela, e ouvir um deles a perguntar sobre algo que ela lutava para esconder de seus iguais a deixava enojada.

Ela ficou em silêncio, o vento soprando-lhe o cabelo no rosto. Encarou-o com seus grandes e penetrantes olhos esmeralda.

— Eu jamais pedi coisa alguma para nenhum de vocês! Mesmo assim vocês me trouxeram para cá, deram-me essa… essa maldição! — Ergueu-se num pulo, gritando de ódio. — E agora esperam que eu simplesmente me abra e fique bondosa e alegre? Que eu controle a merda que vocês fizeram?!

— Espero apenas que você possa me ouvir — disse Tyr com tranquilidade. — Por favor, sente-se.

Alguma coisa parecia existir no olhar perfurante e sereno do homem que fez Volan voltar a se sentar. Ela não sabia o que poderia ser, mas sentia que deveria dar uma chance para o aesir.

— Sabemos que nunca pediu coisa alguma a nós — começou calmamente. — E é por isso que me ofereci a ter uma conversa plena com você, Volan. Sei que devemos tanto para os nossos guerreiros, para todos quem tiramos de suas famílias, de suas vidas, para lutar a nossa guerra — a voz de Tyr foi sumindo. Parecia tomar uma expressão entristecida demais. — Devemos ainda mais explicações para você.

“Quantos anos já fazem desde que entrou pela primeira vez em Valhalla? Trinta e sete anos, não? E tudo o que lhe oferecemos foram ordens, treinamento e mais ordens. Quando nos perguntava sobre o motivo de estar aqui, mesmo sabendo que nunca pegara em armas na vida, ou sobre quando Odin lhe obrigava a passar horas à fio com Freya, aprendendo todo o tipo de magia que outras valquírias não aprendiam; todas as vezes a ignoramos e dissemos que algum dia você saberia. Trinta e sete anos de rancor acumulado, de perguntas sem respostas…”

— Então quer dizer que o remorso cutucou agora? — riu Volan. — Vocês não se arrependem de nada, tenho certeza.

— Arrependo-me amargamente de não ter tido ação para ir contra Odin — respondeu a encarando com sinceridade. — Veja bem, Volan, mesmo eu sendo um velho e sábio deus, posso errar como qualquer outro ser. No entanto, o que diferencia um sábio de um imbecil é saber que o erro não pode continuar a se repetir.

“Eu vi toda a sua dificuldade de perto. Sei o que você passou, o que decidiu fazer ou não. Eu estive ao seu lado sem que você percebesse, dando-lhe a mão quando precisasse, embora sempre fui recusado”.

— As vozes! — bufou Volan. — Era você! Ficou zunindo na minha cabeça, dizendo-me o que fazer, quem desafiar, qual rota escolher. Você me controlou!

— Eu lhe salvei — disse com uma voz penetrante. — Volan, o seu dom é perigoso, mortal se nas mãos erradas. Ele já tentou lhe matar mais vezes do que consigo contar. Todavia, sempre me certifiquei de que estaria protegida. Se não fossem os meus feitiços, as minhas precauções, sua morte teria sido decretada no terceiro dia em que eu a entreguei o dom.

Não estou falando isso para que eu possa receber gratidão. Estou apenas explicando que eu fui o único a expressar um interesse em a manter a salvo.”

— E por que me entregar algo tão mortal?! Por que me manter viva?! — a valquíria vociferou, pondo-se de pé mais outra vez. — Eu não entendo! Se queriam me ver morta, bastava me deixar mais um mês em Midgard que tenho certeza que à essa altura seria um espírito vagante qualquer em Vanaheim!

— Como tudo que gira ao redor de Odin, sua vinda para Valhalla ocorreu porque as Nornas profetizaram — respondeu.

Deu um enorme suspiro. — Lembro-me como se fosse ontem do que disseram quando Odin perguntou se havia algo que pudesse ser feito contra os gigantes:

“A relíquia há muito esquecida deve ser despertada pelas correntes de aço que prendem não o corpo, mas a mente e o espírito. Ah, mas isso só será possível quando O Destino não puder ser lido, o Passado sumir e o Futuro jamais existir. Só então os gigantes recuarão”.

— O que no dia mais me intrigou não fora o fato da impossibilidade surreal de “O Destino não puder ser lido”, mas sim a parte em que as correntes de aço “prendem não o corpo, mas a mente e o espírito”. Foi ali que eu me lembrei de uma menina, jovenzinha, que eu encontrei em uma das minhas viagens por Midgard, num povo estranho para mim.

“Trataram-me com ódio aquele povo. Revelaram-me que eu não era bem-vindo e que tinham um soberano. Supus que eram servos de Umir, e por isso resolvi voltar a Asgard”.

Volan se manteve num silêncio tão profundo que Tyr até pensou ser outra pessoa de pé a sua frente. Continuou:

— A menina, quando eu me preparava para ir embora, disse-me uma coisa — sorriu para a valquíria. — Creio que a menina poderia me lembrar o que era?

— “Não se importe com o povo daqui, existem infinitos outros, todos eles com suas próprias características e culturas — cerrou o punho. — Aqui, todos merecem a dor que terão”.

— Exatamente — assentiu com a cabeça. — E o que essa menina tinha que me chamou a atenção?

— Controle mental mágico — Volan respondeu quase num sussurro. — Antigo, imbuído de caos, o que permitia ser maltratada e violentada sem morrer. Bloqueava pensamentos que pudessem fazer mal à cidade e ao seu soberano.

— Isso, isso — concordou mais uma vez. — Então uma parte da profecia fazia sentido. Quanto ao destino indecifrável, bem, pedi para as Nornas verem seu futuro e devo admitir que fora uma surpresa enorme quando não conseguiram ler o seu destino — soltou um risinho abafado. — Odin quase desmaiou, maluco que é por essas coisas. No fim, fomos buscá-la, e creio que a partir daí eu não preciso continuar.

A valquíria meneou.

— Vocês apostaram numa menina que sequer disse alguma coisa lógica! — retrucou. — O quão malucos são?

— Ah, mas havia lógica nas suas palavras — disse Tyr. — Havia medo, dor e angústia. E também… existia magia nelas — inspirou e expirou fundo. — Você amaldiçoou aquele lugar com suas palavras; não só isso, mas amaldiçoou todos ali mesmo estando com um controle mental.

“Fiquei encantado em saber que magia podia ser feita com apenas um pensamento, que o controle mental podia ser burlado; a profecia dera-me motivos suficientes para lhe trazer a Valhalla, não só para cumprir um destino, mas para a estudar”.

— Então me tiraram de uma morte em escravidão humana para morrer em uma escravidão divina — concluiu Volan virando-se de costas. — Tornei-me um experimento para vocês, e tudo o que fiz até hoje foi para cumprir os seus “destinos”.

— Não foi bem assim…

Claro que foi! — uma voz berrou na cabeça de Volan.

— Claro que foi! — a valquíria se viu gritando o que a voz lhe dissera. — Agora agem como se eu fosse um ser vivo, tentando se desculpar? Espero que os gigantes acabem com todos de uma vez!

Tyr tentou explicar, mas não fora capaz. Volan correra dali sem olhar para trás.  

 

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