Caçador – Capítulo 1

1

DECIDIDO

Deposito minha xícara de café sobre a mesa de centro da biblioteca. Depois de pequenas provas, meu estômago embrulhava só em sentir o gosto do líquido preto. Não que eu estivesse passando mal ou algo semelhante, só não me atraía pela bebida como 98% da população brasileira. E estar na casa de um lobisomem só me deixava mais desconfortável ainda.

O ar ambiente também não ajudava em nada. Uma mistura do mofo presente nas páginas dos inúmeros livros ao redor em conjunto ao cheiro adocicado do café proporcionava-me uma nostalgia agradável.

Lembranças de minha mãe sentada em sua poltrona, com uma imensa caneca de café com leite apreciando o final de tarde das sextas-feiras, me nocauteiam.

Fecho meus olhos e logo volto a encarar o homem a minha frente. Seus olhos demonstravam toda a sua desconfiança com o seu novo visitante.

— Então senhor Misael, o que gostaria de saber sobre os Lobisomens? — Seu sorriso cínico escondia sua tensão.

Há cerca de uma semana lhe encaminhei um e-mail, dizendo que gostaria de marcar uma reunião, pois estava fazendo um trabalho da faculdade sobre os seres das sombras. Não que saber mais sobre Lobisomens não vá me ajudar, mas não vim por isso. Não estou correndo o risco de ter minha garganta arrancada à toa.

Se o Professor Muller é um deles? Um Lobisomem? Sim. Ele é. E é por isso que estou aqui.

Sei que ele coordena um instituto particular, mais voltado para determinadas famílias da região sul do país. E é claro que não é um instituto qualquer. As famílias que patrocinam a instituição são iguais aos meus irmãos. Lobisomens.

O instituto é exatamente do que necessito. Do que eles precisam.

— Nada muito especial. Acho que podemos começar pelos boatos que há na cidade de Queimada. — Estreitando seus olhos, me analisa.

— Deve estar se referindo aos boatos de que existem lobisomens aqui, mas te garanto que não passam disso. Apenas boatos criados por turistas que foram atacados no meio da floresta. Todos estão cansados de saber dos ursos na região…

— Entendo. — Vagueio meus olhos pela sala, e paro ao notar determinado livro na prateleira. — Aquele é um dos livros clericais?

O senhor Muller se contorce em sua poltrona e fita a estante. Rapidamente preparo o objeto escondido sob as mangas grossas de meu casaco.

— Será que eu poderia dar uma olhada? — Levantando-me, vou até a estante.

Com meu movimento brusco, o objeto oculto cai ao chão. O senhor Muller já me acompanhava, porém para observando o objeto.

Ao se inclinar e pegar o objeto, ele puxa sua mão rapidamente demonstrando um olhar aterrorizado. Noto que o Professor não teme a prata, e sim a minha expressão.

Meus olhos diziam que o seu segredo havia sido exposto.

Sem precisar continuar com sua atuação, o senhor Muller exibe sua verdadeira forma. A transformação é instantânea e superficial, se comparada aos dias de lua cheia.

Soltando um som inumano, tenta me assustar. Porém, não é algo que me abale. Não mais…

— Não acha que foi imprudente vir a uma casa cheia de lobisomens? O que você é? Um caçador? — Vocifera.

Dou uma risada abafada.

— É falta de educação mostrar os dentes professor Muller. — Dou um leve sorriso com certo estranhamento diante do título dado a mim. A ousadia provoca um rosnado baixo com tom ameaçador. — Sou muito novo para ser um caçador, não acha? — Seja lá o que for.

Caminho de volta ao meu assento.

Ainda alerta, ele me observa.

— Quero apenas conversar, Professor.

Surpreendentemente, a esposa do senhor Muller aparece na porta. Ela me olha de forma ameaçadora. Concluo que tenha ouvido nossa conversa desde o começo.

— E o que quer conversar exatamente?

— O quão difícil foi o início de sua transformação, professor? Deduzo que não foi mordido.  Pela história de sua família, deve ser um lobisomem de berço. — Levanto e caminho até uma janela. Não disfarço minha inquietação. — Eu tenho três irmãos e uma irmã. Recém-transformados que precisam de orientação.

Um longo silêncio toma conta do lugar.

— E por que acha que eu posso orientá-los?

— Porque a orientação de um humano não é mais o bastante. — Sussurro, para que ninguém além de mim escute aquela afirmação dolorosa. — Já fiz tudo o que podia para ajudá-los. Para ser sincero, não sei mais o que fazer. Vocês são meu último recurso.

Ouço-o bufar. Sentando em sua poltrona novamente, o professor puxa os cabelos para trás, como se pensasse numa decisão. Sua outra forma desapareceu num piscar de olhos.

— Não acho que as outras famílias irão aceitar isso…

— Os aceite em sua matilha. Eles não seriam os primeiros.

O casal me olha surpreso.

— É mais complicado do que você pensa. Ao fazer isso, estarão adquirindo uma nova família. E por isso terão que colocar a matilha sempre em primeiro lugar. Quer mesmo que seus irmãos escolham a matilha ao invés da família deles?

— Isso não será problema. — Minha afirmação os fez franzir a testa. — Nossos pais morreram. De família só nos restam uns aos outros. E como os quatro estão transformados, não haverá barreiras. — Ainda há o Tio Ben, mas dele eu cuido depois.

— Mas e você, rapaz? Ficará sozinho? — A senhora Muller se pronuncia.

— Estou disposto a sacrificar qualquer coisa por eles. — Mantenho meu olhar firme no senhor Muller.

— Bom, ainda há outros problemas…

— Quais?

— Como… Há quanto tempo estão transformados…?

— Cinco meses.

— Creio que para serem transformados, foram mordidos por um alfa. E se um alfa os mordeu e não os matou, foi porque queria que fizessem parte de sua matilha. Seria uma dor de cabeça ter um alfa nos causando problemas…

Fecho meus olhos ao lembrar do quão problemático foi lidar com aquele alfa. Ficamos dias e noites pensando em como escapar daquele idiota, criando milhares de planos para escapar do destino dos quatros serem liderados por um monstro naquela matilha.

Mas com o Professor Muller poderia ser diferente. Mesmo com um humano descobrindo sobre o seu segredo, ele parou e decidiu escutá-lo. O senhor Muller não se parece com aquele tirano.

— Não causará.

— Como assim? — O senhor Muller fica ainda mais inquieto.

— Ele está morto. Após ter transformado meus irmãos, alguns lobisomens da região ouviram boatos de que o alfa havia sido morto por um caçador.

— E como pode ter certeza disso?

— Não temos notícias dele há meses. Se quisesse encontrá-los já teria feito.

Inspirando fundo, os dois anfitriões se entreolham por um longo tempo.

— Muito bem rapaz. Traga-os amanhã. Quero conhecê-los. Mas isso não significa que irei orientá-los, preciso saber se vale a pena.

Comemoro internamente. Uma parte de mim parece ficar tranquilizada.

Tê-los perto de mim não os ajudaria em momento nenhum, sou inútil agora.

— Preciso que me faça outro favor. — Voltando a olhar para mim, os dois esperam pelo pedido. — Não falem que eles precisarão se afastar. Apenas deixem que saibam que serão ajudados.

O professor parece ter compreendido minha linha de raciocínio. Se de alguma forma, os quatro soubessem que teriam que escolher entre mim e a matilha, provavelmente descartariam a ideia de sequer entrar nela.

— Tudo bem.

— Obrigado.

Não sei se foi a decisão certa, mas definitivamente era a única coisa que eu conseguia pensar.

Prometi que iria protegê-los e é o que farei.


CAPÍTULO SEGUINTE

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