Caçador – Capítulo 10: Inquietação

10

Inquietação

 

Arf… Arf…

Esse é o único som presente na densa floresta ao redor de Queimada. Era o único som que Lívia conseguia emitir naquele momento.

Nicola havia entregado a garota nas mãos de um de seus capangas e antes que ela pudesse perceber, estava sendo solta na floresta. Ela não sabia o que queriam com aquilo, mas não gostaria de descobrir o que aqueles sorrisos presentes na face de seus sequestradores representavam.

Seus pés já clamam por descanso e seus pulmões traem seu corpo fazendo sua visão falhar. Faz dias que não se alimenta.

Lágrimas caem de seus olhos. Lívia sabe que precisa encontrar ajuda, e logo, pois deduz que os olhares que a encaravam antes de correr ansiavam pelo seu desespero.

Ansiavam por uma caça.

 

***

 

Misael lança um chute na lateral do tronco de Kalina, no entanto, a lobisomem nem se move ou demonstra um sinal de dor.

— Se quer enfrentar um lobisomem, terá que colocar mais força em seus ataques. Ainda mais se estiver lutando corpo a corpo contra um.

Reviro os olhos em irritação.

— Escute. — Viro-me em sua direção observando a loira iniciar o sermão. — Seria mais fácil para você se Nicola decidisse atacar durante o dia. Nós não podemos nos transformar diante do sol, é algo que você já devia saber, mas creio que dificilmente nosso inimigo faça algo tão idiota. Isso significa que você provavelmente ficará diante de lobisomens transformados e absurdamente fortes devido à lua cheia.

— Eu sei exatamente como é, Kalina. — Desvio meu olhar, encarando o nada com raiva. O tipo de raiva que me assolava toda vez que eu lembrava que era incapaz de proteger minha família dessa merda toda.

— Recapitule o que te ensinei novamente.

Encaro os olhos azuis da garota, me conformando com a situação.

— O que precisa fazer para matar um lobisomem?

— Preciso arrancar a cabeça ou o coração. Um tiro na cabeça o invalida por um longo período…

— E por que um tiro na cabeça nos invalida por um longo período?

— Por que sem um cérebro ele não consegue ficar consciente? — Digo, expressando minha indignação com o óbvio.

Kalina me olha com seriedade.

Bufo e continuo.

— Se o lobisomem levar um tiro na cabeça e seu cérebro for danificado, sua consciência será apagada levando a um episódio de coma. Nesse período, as células de seu corpo irão começar a trabalhar no processo de restituição das células cerebrais.

— E as consequências desse coma são?

Reviro meus olhos mais uma vez.

— Perda parcial da memória, dependendo da quantidade de massa cerebral afetada. Em casos raros, leva à demência.

— Muito bom. Continue.

— O processo de cura de um lobisomem é extremamente rápido. Se um membro for cortado, em poucos dias ele pode restituí-lo, se estiver em posse da parte de seu corpo separada. Com exceção do coração e a cabeça.

— E quanto ao acônito?

— Aparentemente, ele só foi usado para mostrar a verdadeira forma dos lobisomens por caçadores e outras organizações. Não há registros de que podem matar ou envenenar um lobisomem, no entanto são eficientes por causar queimaduras no corpo lupino.

Kalina caminha e fica ao meu lado.

— Caso você encontre lobisomens, qual será a melhor opção para enfrentá-los?

— Mirar na cabeça, olhos e membros inferiores que proporcionam movimento.

Ergo a pistola presente em minha mão e miro nos alvos impostos pela lobisomem a metros de distância.

Custo a acertar, mas não há impedimento para receber um elogio ou outro.

— Muito bom.

Retiro o cartucho da minha pistola e recarrego a arma, analisando a sua nova aparência.

— Nenhuma mágica aconteceu ainda?

Kalina olhava para minhas mãos.

— Nem um Expecto Patronum qualquer. — Nos entreolhamos e rimos suavemente da situação.

— Ainda bem que fui poupado da sessão nerd dos dois. — Avisto David aparecer ao lado de uma das árvores.

— Não seja ridículo. — Kalina retruca.

— Eu sei muito bem que você usou aquela sua forma técnica e científica para ensiná-lo a matar Lobisomens. — Antes mesmo que Kalina o respondesse à altura, David muda seu semblante e prossegue de forma preocupada. — Isso não importa agora. Temos um problema.

Kalina e eu nos olhamos curiosos.

— Venham. — David retoma seu caminho.

— Desembucha! — A garota apressa os passos ficando ao lado de seu amigo, enquanto isso eu guardava as duas pistolas no cós traseiro de minha calça.

— Não sei se estão cientes das mortes que vêm acontecendo ao redor de Queimada.

— Isso não é uma novidade em Queimada. — Comento.

— Sim, mas aparentemente vem aparecendo corpos demais. A polícia está cogitando a presença de um Serial Killer na cidade.

— Sabemos muito bem que o culpado é um lobisomem. — Kalina passa sua mão sobre seus cabelos loiros, jogando alguns fios rebeldes para trás.

— Exatamente. Hoje, enquanto os dois brincavam de escolinha, aproveitei o momento para investigar. Acabei encontrando uma frota de carros da polícia no meio da floresta e um corpo estripado pendurado em uma árvore.

Um arrepio percorre meu corpo.

— Onde ele está?

— O que?

— O corpo.

David compreende e apressa o passo.

 

No local, permanecemos distantes da área preenchida pelos policiais. David tinha razão em falar sobre uma frota de carros policiais.

— Não acham que há muitos carros para apenas um crime?

— Sim, mas eu não os culpo. Corpos estão aparecendo aos montes ao redor de sua cidade, o que você faria? — Kalinareflete.

Meus olhos vagueiam até pousar sobre o corpo ainda preso na grossa árvore. Aquele rosto era familiar, no entanto nessa distância posso apenas estar sob a confusão de minha mente.

Agachado, corro me aproximando um pouco mais da cena do crime.

— Misael! — Kalina chama meu nome tentando não gritar.

Escondo-me atrás de um dos carros policiais e observo atentamente a face da garota na árvore. Meu coração dispara e meus olhos ficam estáticos diante do corpo.

— Não…

Assusto-me ao ver um policial se aproximando, me escondo da melhor forma possível atrás do automóvel.

— Não foi encontrado nenhum documento junto ao corpo?

— Não senhora.

— Eu quero o nome dela o mais rápido possível.

— Sim, senhora.

Ouço os passos do policial se afastar. O cheiro de cigarro impregna minha narina e antes que eu saia, escuto a senhora que deu as ordens falar consigo mesma.

— Essa merda de cidade piora a cada dia.

Saio detrás do carro, mais uma vez tomando o cuidado para não ser pego.

Ao encontrar Kalina e David, recebo os olhares raivosos.

— O que você tem na cabeça? — Kalina braveja mantendo o tom baixo, porém minha mente ainda se lembrava da garota morta.

— Provavelmente merda.

Permaneço em silêncio, recostando minhas costas em uma das árvores.

— Misael. O que foi? — Kalina se aproximava, preocupada ao perceber meu estado.

— Ela se chama Lívia. — Ambos me olham surpresos. — Ela é uma ex-namorada do meu irmão Erik. Os dois só terminaram o relacionamento porque precisávamos nos mudar.

— Nicola está provocando seus irmãos.

— É mais que isso. Ele está mandando um alerta. — David diz como se falasse somente com sua própria mente.

Deslizo minhas costas até sentar no chão. Meus olhos percorriam o ambiente freneticamente enquanto minha mente insistia em se culpar pela morte da garota.

E com razão.

Se não fosse por mim, Erik não estaria longe de sua namorada.

Tudo o que consigo imaginar é como Erik ficará arrasado quando descobrir.

— Droga… — Solto um lamento.

Kalina e David apenas trocam olhares enquanto esperam que me recomponha. Uso toda a força que encontro, ao me colocar de pé. Inspiro fortemente e esfrego os olhos afim de evitar que lágrimas escoem.

— Preciso pensar em um plano. Eu não vou deixar que um maníaco tome meus irmãos.

Caminho a passos largos de volta para o local aonde deixamos o carro e o restante de nossas coisas.

 

Caxias do Sul

Castelo Lacave

 

O aparelho no bolso do sobretudo de Nicola vibra.

Após conferir o nome no identificador de chamadas, o homem logo se apressa em atender.

— A pequena Lívia foi bem tratada?

— Perfeitamente. — A voz sedutora e melosa de Samara no outro lado da linha demonstra a sua satisfação com seu trabalho.

— Ótimo.

— O que fará agora?

— Tenho mais uma parada. A última. Enquanto termino por aqui, continuem com o planejado, mandei mais um homem para ajudá-los. Ele já deve estar pela cidade procurando vocês.

A risada da garota soa como uma forma de deboche.

— Sabe que não precisamos. Eu e Taylor estamos dando conta do assunto. Nenhum lobisomem se aproximou ou tentou nos caçar.

Nicola permanece em silêncio, encarando o enorme castelo a sua frente. Seus olhos encontram uma figura em meio à densa vegetação.

Ele caminha lentamente acompanhando a estranha movimentação do corpo. Em passos lentos e arrastados, o indivíduo caminhava espasmódico, como se estivesse sem forças para levantar os pés e tudo o que conseguia fazer era arrastá-los. Repentinamente, o corpo para e vira lentamente, Nicola aperta o telefone em seu ouvido e tenta discernir o medo que aqueles olhos vermelhos transmitiam.

— Nicola?

— Não subestime suas presas Samara, me admira você se comportar dessa forma. Já que você vive dando sermões em Taylor por isso.

A garota fica em silêncio e Nicola não espera uma resposta para desligar o aparelho. Ele tenta achar a coisa que se arrastava no meio da floresta, no entanto apenas encontra a vegetação que balançava devido ao vento.

Ele volta a respirar novamente, afastando de sua mente a estranha cena presenciada. Seus olhos miram a entrada do castelo, que de forma assustadora encontra-se sob a escuridão da noite.

Nicola estava perto de sua vingança, sentia como se ela mesma a estivesse procurando por ele. E de forma alguma deixaria que escapasse.

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