Caçador: Capítulo 11 – Armadilha para Coelhos

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Armadilha para coelhos

 

Nicola caminha calmamente no jardim do enorme castelo. As sombras inquietas sobre o telhado do edifício não o incomodam, mesmo sabendo que qualquer sinal de ameaça por sua parte resultaria em uma retaliação.

O vento batia em seu rosto como um tapa, e vez ou outra segurava seu chapéu impedindo que voasse.

A falta de iluminação do local dava um ar de abandono, ao contrário do dia em que era aberto para visitação turística.

Nicola visualiza tochas acesas ao entrar em um corredor, tremeluzindo, convidativas para que fossem seguidas. E foi o que fez. Seguiu o caminho feito pelas chamas presas à parede.

Vez ou outra ouvia os passos, mesmo que suaves atrás de si. Voltar agora não era uma opção, se tentasse, provavelmente morreria.

A Esquadra Vermelha nunca brincava em trabalho. Victor era a prova disso. Antes de ser transformado, era um membro da alta cúpula da Esquadra. As histórias e relatos que Victor contava sobre como a organização tratava de assuntos sobrenaturais causavam arrepios em Nicola.  E não eram arrepios de medo, e sim de excitação.

A simples ideia de um antigo membro da Esquadra Vermelha morrer para as mãos de qualquer um, o enchia de ódio. E por isso estava aqui, para descartar a possibilidade de um membro da organização ser o culpado.

Diante de si, uma enorme porta dupla de madeira permanecia fechada. Neste momento, sua anfitriã já deveria saber de sua chegada, e hesitar só prolongaria o encontro.

Com um único movimento de mãos, Nicola empurra as duas abas e adentra o local captando o desafiador olhar de Constância por sobre o livro que lia.

— Ora, ora, ora. A que devo a honra da visita de Nicola, irmãozinho do grande Victor Arruda?

Nicola franze seus lábios depositando toda sua raiva na força da minúscula ação.

— Deve saber o motivo de minha visita.

A mulher ri suavemente levantando da poltrona e depositando o livro sobre a estante. O barulho de seu salto ecoa pela sala e Nicola não deixa de captar os pés gordos da mulher.

— Deve estar irado com a pessoa que matou seu irmão, e para estar aqui deve desconfiar que um de nós o tenha feito.

Nicola apenas mantém o olhar fixo no rosto da mulher.

— Sinto te desapontar, mas nenhum membro da Esquadra Vermelha matou seu irmão. Não vou mentir, ele estava em nossa mira como um de nossos possíveis alvos, e quando descobri que ele havia sido morto, apenas tive o trabalho de riscar o nome dele de nossa lista.

Nesse momento Nicola já fervia de raiva.

O olhar altivo de Constância analisava a expressão do rapaz e isso fez um leve sorriso abrir nos finos lábios da líder.

— Victor foi um de nossos melhores soldados Nicola. Ele matou inúmeros seres sobrenaturais a meu comando. Tentei ao máximo prolongar a morte dele. — Constância se aproxima de Nicola. — Eu gostava de seu irmão, ele me promoveu diversos favores que com o tempo eu fui retribuindo. Por que acha que ele estava tão desesperado em criar uma alcatéia?

Nicola mantinha seu olhar raivoso para a mulher.

— Era de se esperar que o tempo dele fosse acabar, no entanto, fui pega de surpresa ao saber que o grande Victor foi morto por um caçador. — Ela fala de forma incrédula.

— Se eu descobrir que está mentindo para mim Constância…

A mulher ri.

— Parece que o garotinho que vivia com medo se tornou adulto, não? Levem-no daqui.

Dois indivíduos mascarados surgem da escuridão e caminham lentamente em direção a Nicola.

— Ah. Mais uma coisa. Quando descobrir quem matou seu irmão, dê meus parabéns.

Escoltado, Nicola é forçado a sair do local enfurecido. Em contrapartida, descartou o envolvimento da Esquadra Vermelha. Nicola sabia que Constância não possuía motivos para mentir.

Agora só restaram apenas os lobisomens que foram transformados por Victor. Mesmo que não saibam quem matou seu irmão, serão punidos pela infidelidade a ele.

 

***

 

Meus olhos não haviam visto outra coisa além das duas pistolas sobre a superfície da mesa há horas. Tudo o que conseguia pensar era em como agir a partir de agora. O que fazer para evitar que os próximos corpos que eu veja, sejam os dos meus irmãos.

Essas perguntas rondavam minha mente e a cada segundo tiravam mais de minha sanidade.

Kalina e David se ocuparam em procurar soluções fora das quatro paredes de minha casa, me deixando só com meus pensamentos. O que não era uma boa ideia. Meu cérebro criava apenas cenas em que eu encontrava os corpos da minha família e em como eu iria reagir após encontrá-los sem vida com o coração ou a cabeça arrancada por um maluco.

Sou pego de surpresa ao ouvir as batidas nervosas na porta. Encaro-a decidindo o que fazer, mesmo que fosse óbvio o que deveria ser feito.

Trato de esconder as armas em uma gaveta ao lado e logo caminho lentamente para porta, olhando pelo pequeno visor redondo preso à superfície de madeira. Afasto-me lentamente tentando achar uma resposta para o motivo de Felipe estar parado frente a porta de casa.

Abro a maçaneta lentamente e sinalizo para meu irmão mais novo entrar.

— O que faz aqui? — Percebo que soei seco demais ao vê-lo se encolher.

Suspiro e fecho a porta.

— Achei que seria uma boa ideia te visitar. Não gostei de como as coisas ficaram.

— Está tudo bem. Não é como se essa casa também não fosse sua. — Sorrio, deixando-o mais confortável. — Que tal um chocolate quente?

— Com marshmellow. — Ele complementa com os olhos vivos.

Vou até a cozinha e pego o material para preparar a bebida. Felipe senta rente à mesa de centro da cozinha e acompanha cada movimento meu.

Quando terminado, coloco os copos sobre a mesa e começo a colocar a bebida quente em seu interior.

— Por que três copos?

Antes que eu responda outro bater na porta ecoa pela casa. Esse mais forte e na mesma quantidade de intervalos.

— Abra a porta para o Diego enquanto termino aqui. — Digo mantendo o olhar concentrado sobre a bebida.

— Como sabe que é ele?

Encaro meu irmão, me divertindo com a situação.

— Vocês são como unha e carne. E como irmão mais velho, os conheço muito bem.

— Ele às vezes é protetor demais. Me irrita.

— Você também não fica para trás. — Felipe me olha revoltado. — Mas isso não é ruim, me deixa mais tranquilizado. Saber que um cuida do outro.

As batidas na porta soam mais nervosas.

Felipe sai apressado e logo as vozes me fazem rir do comportamento dos gêmeos.

— Que merda você está fazendo aqui? — Felipe diz raivosamente.

— Eu é que pergunto.

— Eu vim visitar o Misael.

— Isso é óbvio, idiota.

— Será que os dois poderiam parar de discutir e vir aqui?

Os dois aparecem na porta da cozinha. Meu olhar recai sobre Diego.

— Sentem logo. Aproveitem enquanto o marshmallow está derretendo.

Empurro as canecas em direção aos dois.

O silêncio durante a bebida parecia incomodar os dois, e começa a me incomodar quando ambos iniciaram o desvio de olhar.

— Como andam as coisas no instituto?

— B-bem — Felipe diz quase engasgando com o marshmallow.

— Que bom. Estão conseguindo aprender alguma coisa?

— Sim. — Vejo a animação no olhar de Felipe. — Antes era tudo muito estranho, saber que conseguia me transformar em um lobisomem, sem ao menos entender o que eu era. Mas o instituto está me dando algo que não tinha antes… — Diego acotovela seu irmão.

— Felipe. — Diz entredentes.

— Está tudo bem, Diego. Esse era o objetivo desde o início. Eu sei que não consigo ajudá-los em tudo, mas eu tentei e tento no que posso.

Os gêmeos ficam levemente cabisbaixos.

— Me contem o que os dois têm feito de interessante lá.

Como esperado, Felipe começa a falar.

— Nós estamos aprendendo a caçar. Ontem mesmo aprendi a montar uma armadilha e capturar um coelho. Tinha que ver Diego caindo de cara na lama ao tentar pegar um na carreira. — Felipe começa a rir e Diego reclama irado por ter sido exposto.

Não deixo de disfarçar meus pensamentos com um sorriso forçado. Capturar coelhos…

— Como Erik está?

Os gêmeos ficam sérios por um momento.

— Bem, eu acho.

— Você sabe como ele é. Desde que papai e mamãe se foram, ele tenta ao máximo nos proteger, por mais que quem fizesse isso fosse você. Quando descobriu que te machucamos nos períodos de lua cheia, começou a se sentir mais inútil que o normal. — Diego explica.

— Às vezes acho que ele se culpa pela morte deles. — Não… Ele não podia se culpar por isso.

Engulo o choro que ameaçava surgir e agradeço os toques nos celulares dos gêmeos.

Eles me olham como se tentassem achar uma desculpa.

— Não se preocupem. Se precisam ir, vão. Podem vir a hora que quiser para tomarem outro chocolate quente.

— Com marshmallow.

— Deixe de ser infantil.

— Pare de implicar com ele Diego. Meu estoque de marshmallow nunca acaba. — Felipe e eu rimos enquanto Diego revira os olhos.

Acompanho os dois até a varanda e me despeço.

— Mandem um beijo para Isa.

Os dois concordam e somem ao virar na rua que levaria à floresta.

Rapidamente pego meu celular e disco o número de Kalina.

— Pensou em algo?

— Sim. — Fecho a porta em um solavanco. — Iremos capturar um deles.

— Como assim?

— Acho que manter um refém pode ser um bom recurso.

— Ele tem razão. — Ouço a voz fraca de David na outra linha.

— Até o chato do David concorda comigo.

— Merda. E o que pretende fazer com um deles quando o capturarmos?

— Ainda estou pensando.

— Ok.

— Encontrem-me no local do último assassinato. Hoje à noite.

— Ok.

Desligo o celular e confiro a hora.  Tenho pouco tempo para me preparar.

Subo as escadas em direção ao meu quarto. Puxo uma bolsa de debaixo da cama e retiro um pote de vidro que estava sob as armas.

Caminho em direção ao banheiro e ligo a torneira da banheira, despejando o conteúdo sobre a água quente.

— E lá vamos nós.

 

O silêncio da floresta dava mais calafrios do que o próprio frio de Queimada. Já conseguia ver a árvore onde Lívia foi pendurada, sangue seco ainda podia ser visto como se a própria árvore tivesse sangrado.

Ouço o barulho de passos e viro-me rapidamente para encarar Kalina e David com seus típicos casacos. Os capuzes sobre as cabeças e os olhares atentos.

Ambos me encaram da cabeça aos pés.

David apenas ergue uma sobrancelha.

Além das minhas normais calças jeans, tomei o cuidado de colocar o coturno e os coldres para as duas recém armas “especiais”… E havia também a jaqueta que eu ganhei de presente de papai em meu último aniversário.

Lembro-me do dia em que a ganhei. Quando eu vi o couro branco com detalhes vermelhos sobre os ombros tentei demonstrar toda a felicidade que não tinha para papai.

Hoje ela seria minha companheira na caça. Será dela que tirarei a coragem para prosseguir.

— Belo uniforme. — David ironiza.

— Que cheiro é esse? — Kalina se aproxima e funga próximo ao meu corpo. — O que aconteceu com o seu cheiro?

— Essência de gardênia. Ela tira o cheiro como pode perceber.

— E por que disfarçou seu cheiro? — David desconfia.

— Não seria uma boa ideia ser perseguido antes da hora.

Ambos apenas entreolham-se confusos.

— Vamos logo com isso. Teriam alguma noção de como procurar pelos assassinos?

— Sinceramente? Não. — Kalina dá de ombros.

— Eu sei.

Encaro David esperando explicações.

— Quando encontramos sua amiga morta, pude sentir o cheiro de lobisomens. Mesmo agora consigo, fraco, mas consigo.

Kalina se esforça para captar o odor que seu colega falava.

— Tem razão. Há um leve cheiro doce. Doce demais. — A loira franze o cenho.

— Ótimo. Então vamos… Farejar? — Misael propõe.

— Não nos trate como cães.

— Não foi minha intenção.

Com os dois seguindo o rastro dos lobisomens de Nicola, iniciamos nossa noite.

Por horas caminhamos sem captar sinal algum dos lobisomens. Já tinha notado que os dois olhavam entre si como se conversassem sobre o plano ter sido uma perda de tempo.

Eu mesmo cogitava essa possibilidade.

— É melhor voltarmos. Acho que essa não foi a melhor das ideias. — Minha decepção estava estampada em minha voz.

— Pensaremos em outra saída. — Kalina deposita sua mão direita sobre meu ombro me fazendo concordar.

— Pessoal. Acho que não iremos voltar tão cedo.

David encarava algo atrás de mim, Kalina ao perceber tensiona seu corpo e foca na mesma direção.

Viro-me e distingo em meio a escuridão uma figura masculina nos encarando.

Levo minha mão rapidamente para o coldre, preparado para qualquer ação. Noto Kalina e David olhar para os lados, preocupados.

— Veja o que temos aqui. — Uma voz feminina e sedutora ecoa pela floresta. — Vieram nos encontrar?

Avisto uma mulher diante da luz lunar.

Seus cabelos cheios e cacheados realçavam seu rosto fino e o olhar de pura excitação constatava que coisa boa ela não era.

Por um longo período permanecemos estagnados, um encarando o outro. Kalina e David com a cor das íris alteradas demonstrando o poder aprisionado em seus corpos.

Nossos inimigos não estavam diferentes, o único detalhe era a sede de sangue em seus olhos.

Minha mão ainda permanecia preparada para sacar a pistola. E foi o que precisei fazer.

Após um rosnado sair da boca do homem desconhecido, seu corpo dispara em nossa direção. David põe-se a minha frente. Meus olhos ainda acompanhavam o lobisomem antes que colidisse com David.

Kalina não estava diferente, usava as garras que cresceram em suas mãos para tentar inibir os movimentos de sua rival.

Naquele momento meus olhos alternavam de combate a combate enquanto meu coração disparava e meu cérebro tentava achar uma solução para que meus colegas não saíssem feridos. Ou pior…

Posiciono a arma em direção a David. Minha mão tremia e precisei usar todo meu autocontrole para me acalmar e mirar corretamente. Qualquer erro poderia machucar David.

Quando meu aliado está de costas para mim, forço minha voz a sair.

— DAVID! ABAIXE!

De relance o rapaz me olha, e logo obedece.

O inimigo me encara tentando compreender momentaneamente meu papel naquele cenário, mas antes que pudesse reagir disparo em sua direção.

O projétil acerta o ombro do lobisomem.

Kalina e sua oponente encaram a cena estateladas. David se ergue enquanto o rapaz encara seu ombro.

Noto linhas negras subir para seu pescoço e preencher toda a sua face. Era como se algo percorresse sua corrente sanguínea. Dando leves espasmos, o rapaz cai de joelhos, agora encarando sua parceira. Havia um leve tom de súplica naquele olhar, mas logo reajo e viro-me em direção à mulher de cabelos cacheados, ignorando seu comparsa.

— Se não quiser ficar igual ao seu amigo, é melhor ficar quietinha.

Erguendo os braços, Samara me olha desafiadoramente.

— David, Kalina. Imobilizem ela. Precisamos sair daqui rápido. Podem haver mais deles.

Ambos, após saírem do transe, simplesmente obedecem.

Kalina dá um forte soco no rosto da mulher, deixando-a inconsciente.

David coloca o corpo sobre os ombros e antes de sairmos, olho mais uma vez para o corpo ao chão.

— Ele ainda está vivo. — Kalina deposita um aperto em meu ombro. — Parece que a função dela não é matar lobisomens.

Olho para o pequeno círculo vermelho ao lado da arma.

— É, parece que não.

— Vamos.

Consinto e os sigo em meio às árvores.

 

Horas depois…

 

Taylor, depois de deixar o próximo corpo para ser encontrado ao redor da cidade de Queimada, segue o rastro de seus colegas.

Mas havia algo de errado. Mais cheiros que não deviam estar ali. Cheiro de lobisomens.

Taylor se apressa e chega ao local onde o odor da dupla era maior. E logo encontra um corpo ao chão. O corpo do garoto enviado por Nicola.

Ele caminha em direção e agacha-se para socorrê-lo.

O garoto tremia igual a uma vara verde. Estava suando frio e Taylor não sabia se aquele olhar perdido representava algo lógico. Talvez… Medo?

— Anda garoto, me diga o que aconteceu? — Sua voz grave parece tê-lo acordado de um pesadelo.

— Eu não consigo mais senti-lo. — A voz do rapaz estava carregada de dor e loucura.

— Sentir quem!?

— E-eu não consigo sentir m-meu poder, m-meu lobo. — O garoto faz uma cara de dor e se encolhe tentando proteger o ombro.

Taylor rapidamente usa a força para ver o que havia acontecido.

— Isso foi feito por um caçador? — Taylor questiona depois de ver o ferimento, mas o rapaz voltou ao estado catatônico.

Depois de praguejar internamente, Taylor começa a prestar mais atenção no ar ao redor. Nos diversos odores deixados para trás.

Havia um. Um odor que fez os pelos do homem se arrepiarem. Um odor que traria a guerra para aquela cidade.

— Levante-se. Temos que encontrar Nicola. — Forçando o corpo do garoto, Taylor começa a caminhar na direção contrária de Queimada.

Definitivamente voltaria com o exército de Nicola.

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