Caçador: Capítulo 12 – Centelha da Morte

Após percorrermos um longo caminho correndo entre as árvores, chegamos onde vamos manter nossa nova convidada.

Minha casa.

David e Kalina revezaram em carregar a lobisomem que ainda permanecia inconsciente. Mesmo com o aumento da força devido à licantropia, ambos não eram feitos de ferro.

Aproveitamos o silêncio da noite e a ausência de pessoas pelas ruas para chegarmos em segurança na casa. Trato de me adiantar e abrir a porta para que ambos entrassem, da mesma forma que oriento ao casal que depositem o corpo sobre uma cadeira em uma das celas no porão.

Kalina e David entreolham-se ao mesmo tempo que observam o local.

— Você parece bem preparado. Essa casa já possuía celas quando se mudaram? — Kalina anda pelo local, enquanto David analisa uma grossa corrente ao chão.

— Uma das vantagens de se ter uma família rica.

Sorrio, pegando uma das correntes sobre uma prateleira.

— E quanto a estar preparado. Não tive escapatória. Quando se tem 4 lobisomens para cuidar, precisa agir rápido antes que coisas ruins aconteçam. Ou precisava agir… — Murmuro as últimas palavras enquanto termino de enlaçar as correntes ao redor do corpo da garota.

— Você ainda age.

— Como? — Viro-me em direção a Kalina.

— Mesmo afastado, você ainda os protege. Às vezes me pergunto o quanto você faria para protegê-los.

Meu olhar permanece nos olhos azuis da loira.

— O que faremos agora?

David quebra a tensão devido à pergunta, fazendo nossos corpos girarem em direção à prisioneira.

— Vamos esperar que acorde. Assim que acontecer, iremos fazer algumas perguntas.

— E acha mesmo que ela irá responder?

— É provável que não. Mas talvez possamos forçá-la.

Os dois lobisomens franzem a testa e acompanham minha movimentação em direção ao andar superior.

— Vamos, devem estar com fome. Tranquem a cela quando vierem. — Começo a subir as escadas.

David se movimenta e fecha a porta de ferro, deixando a garota sozinha em meio à vaga escuridão.

 

***

 

O barulho dos cascos agitados de um veado ecoa pela floresta. Seu olhar assustado percorre o local em busca do caminho certo. Seus perseguidores, vorazes e ansiosos para capturar a presa, correm atrás de si em um ritmo orquestrado.

— Não se afobem. — A frase soa como um resmungo irritado em meio à mata.

O pobre veado corre de um lado para o outro, tentando conseguir uma brecha para escapar e sair com vida.

E quando menos esperava, um de seus caçadores enfia as garras em seu pescoço. Os olhos do animal encaram as orbes vermelhas de seu assassino, enquanto o sangue que escorria de sua ferida promove a lenta escuridão que se apossa de sua visão.

— Foi uma bela caçada. Pelo menos conseguiram garantir a carne para o jantar de hoje. — Kaio, o instrutor do quarteto de lobisomens comenta encarando o trabalho feito por Erik, que esboçava um sorriso vitorioso. — Mas poderiam ter terminado com isso meia hora atrás.

Ambos ficam cabisbaixos diante do exposto. Viver no Instituto era mais difícil do que imaginavam, mas sabiam que era necessário passar por poucas e boas antes de conseguirem dominar a besta que habitava dentro de cada um.

— Por hoje chega.

— Mas nem escureceu ainda. — Diego fica surpreso. Geralmente seus treinamento iam até altas horas da noite, mais especificamente no pico da lua. Momento em que seus poderes estavam mais fortes. Não tanto quanto na Lua Cheia, é claro.

— Temos uma visita importante hoje. Jhonatan solicitou que todos fossem para o salão antes do sol se pôr. Um dos representantes da Ordem Oculta virá.

— Por qual motivo? — Isa põe-se frente a Diego.

— Jhonatan invocou a lei da desordem.

— Lei da desordem?

— Vocês descobrirão. Vamos, já devem estar se reunindo. Tomem um banho e estejam apresentáveis. Não se esqueçam de deixar o animal na cozinha para ser preparado para o jantar.

O grupo resmunga um “sim senhor”, tratando de cumprir a ordem.

 

Os irmãos estiveram poucas vezes no local. A maioria para realizar tarefas, como limpar os negros vidros do recinto, ou para simplesmente encerar o chão e suas enormes orbes de cristais.

O salão era semelhante a uma pequena arena, com arquibancadas rodeando-a. No canto, de frente para porta havia uma cadeira e ao seu derredor, dentro de um desenho de uma meia lua, as 5 orbes.

Isadora e seus irmãos analisam o local, outros jovens lobisomens conversavam sobre assuntos aleatórios, ao mesmo tempo em que Jhonatan, sua esposa e mais três lobisomens, os quais puderam reconhecer ser três instrutores mais antigos da instituição, permaneciam juntos cochichando algo.

Kaio era um deles.

No momento que acharam um lugar para sentar, o som das enormes portas do salão se abrindo ecoa, calando a todos.

Isadora observa o senhor percorrer todo o caminho em direção à cadeira. Não deixou de notar a rigidez em sua expressão.

Algo não o agradava.

— Ele é o cara da Ordem Oculta? — Felipe sussurra ao seu ouvido.

— Acho que sim.

Quando o homem se acomoda no assento, Jhonatan e seus colegas direcionam-se para as orbes e depositam suas mãos sobre a superfície transparente da pedra.

— Como líder e representante do Instituto Ethel, Eu, Jhonatan Muller, invoco a lei da desordem. Cabe à Ordem Oculta a responsabilidade de evitar uma futura entropia e a desestabilização do Tratado Oculto.

As orbes emitem um leve zunido.

— Muito bem. — O velho fala com uma de suas mãos apoiando sua cabeça no braço da enorme cadeira. Sua voz gera calafrios na espinha de Isa. — Deve haver um ótimo motivo para invocar a lei da desordem, Jonathan.

— E há, Morfeu. Queimada vêm sendo assolada por lobisomens sanguinários. A cada dia o número de corpos humanos aumenta e…

— Isso é de responsabilidade do seu Instituto, Jonathan. Nós da ordem…

— A história é mais complexa do que simples ataques de lobisomens sanguinários, senhor Morfeu.

— Sandra… — Jonathan tenta parar sua esposa, no entanto, é interrompido por menear de mãos da mesma.

— Como meu marido explicava, essas mortes vêm aumentando a cada dia. Recentemente abrigamos quatro jovens recém transformados por um lobisomem que talvez o senhor se lembre. — Morfeu encara a senhora Muller com irritação. — Victor. Ele era de responsabilidade da Ordem Oculta. E pelo que soube, sua morte foi pelas mãos de um reles caçador.

A senhora Muller caminha por entre as Orbes, a irritação em sua voz era clara.

— Este instituto nasceu com a missão de ajudar jovens lobisomens de Queimada, não para lidar com as consequências das falhas da Ordem Oculta.

— Olha como fala, senhora Muller.

Jonathan caminha até sua esposa, segurando em seu ombro.

— Morfeu, perdoe-nos. O estresse de toda esta situação tem afetado cada um de nós de maneiras extremas. — Sandra olha raivosamente para Jonathan e volta para trás de sua orbe. — Recebi informações de que o irmão do Victor está a frente de uma enorme alcateia de lobisomens motivados pela loucura da mente conturbada dele.

— E o que ele busca? Vingança?

— Creio que sim. Achamos que ele virá atrás dos transformados do irmão.

Morfeu fica em silêncio.

— Representante. — Kaio chama a atenção do grupo. — Pelo que entendo do Tratado Oculto, uma atitude dessa magnitude precisa da intervenção da Ordem. Se Nicola agir desenfreadamente em Queimada, não passará despercebido pelos humanos.

— Tch. Não precisa me lembrar do que já tenho conhecimento, rapaz. — Morfeu se levanta. — Antes de tomarmos qualquer atitude severa, necessitamos contatar e alertá-lo sobre o perigo de suas ações. Precisarei de dois soldados seus, para me acompanhar.

Jonathan concorda.

— Eu, Morfeu, um dos representantes da Ordem Oculta  ponho em prática a Lei da desordem.

Assim que a reunião termina, os quatro jovens ainda permanecem sentados, tentando digerir a dimensão da situação em que encontravam-se.

Alguns olhares curiosos e outros irritadiços encaram os irmãos, como se toda a culpa estivesse sobre eles.

— Eu não entendi direito, essa lei da desordem serve para que especificamente? — Diego põe-se entre Felipe e Isa.

— Para pôr tudo em ordem. — Isa declara.

— A qualquer custo.

A frase dita por Erik fez Felipe se encolher enquanto Diego voltava preocupado para seu lugar.

 

Encantado – Rio Grande do Sul

 

Taylor caminha em direção à alcateia de Nicola, o cheiro dos diversos lobisomens já era perceptível  mesmo antes de ter entrado na pequena cidade de Encantado.

Forçando a porta do galpão abandonado, Taylor carrega o garoto em seus ombros.

Nicola logo o encara curioso, brincando com a machadinha.

— O que aconteceu, Taylor?

— Aparentemente Samara e o novato foram atacados. — Ele joga o corpo do rapaz no chão.

— E onde ela está?

— Capturada.

— Rum. — Nicola caminha pelo salão, encarando a tremedeira do jovem. — O que aconteceu com ele?

Nicola cutuca o corpo com o cabo da arma.

— Ele levou um tiro.

— Prata? Reação alérgica talvez? — Taylor sabia o que ele estava fazendo. Escondendo sua raiva atrás da ironia.

— Não sei. O que ele me disse é que não consegue usar nenhum de seus poderes. — Nicola franze sua cara da pior maneira possível e entrega a arma nas mãos de Taylor.

Ele se aproxima do rapaz e o obriga a exibir a ferida. Nicola observa a ferida do rapaz e as inúmeras ramificações negras ao redor. Sem pedir permissão, ele enfia o dedo na ferida, fazendo o garoto urrar de dor.

Longos segundos se passaram até Nicola achar o projétil no interior da ferida. A essa altura o garoto já havia perdido a consciência.

Nicola ergue a mão em direção a uma fraca luz do galpão, limpando ao máximo a bala para poder enxergar que tipo de poder eles haviam encontrado agora.

A mente do homem tentava achar a solução daquele problema, no entanto tudo o que conseguia ver era uma bala de acervo. Prata com filetes vermelhos adornando-a.

— Nicola, tem mais uma coisa.

Nicola encara Taylor de soslaio.

— Havia um cheiro no local.

Nicola se levanta, já imaginando as próximas palavras de seu colega.

— Era o mesmo cheiro presente no hotel onde seu irmão foi abandonado. Cheiro de…

— Gardênia.

O olhar de Nicola estava preso ao nada, enquanto sua mente vagava pelas lembranças.

— Vamos para Queimada. Agora. — Seu olhar transbordava ódio.

Seus passos eram pesados e apressados ao se dirigir para a saída.

— E quanto a ele? — Taylor questiona o destino do rapaz inconsciente no chão.

— Tragam-no. Se ele não voltar a demonstrar sua forma lupina, podem matá-lo.

Taylor encara o rapaz no chão e logo o ergue, seguindo Nicola para fora, em direção aos carros.

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