Caçador – Capítulo 2: Caçado

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Caçado

5 meses antes…

— Sério. Quando chegarmos em casa, lembrem-me de não deixar mais o Felipe trazer o Mercúrio para passear… — Diego bufa ao olhar para a floresta escura aonde Erik havia estacionado o SUV de papai.

Felipe chegou em casa ofegante dizendo que havia perdido Mercúrio, nosso cachorro. Papai não hesitou em nos mandar buscá-lo, mesmo diante de minha vã tentativa de mostrá-lo que não tinha nada a ver com a situação. 

Fecho meus olhos tentando manter a calma diante da possível briga que estava se iniciando dentro do carro. Quando os gêmeos começavam a discutir, o único que conseguia fazê-los se aquietarem era o Erik. Desde criança sempre foi assim.

Olho meu irmão mais velho que permanecia encarando o breu iluminado pelo farol. 

 — Será que os dois podem ficar quietos? — Erik os encara pelo retrovisor interno. — Agora, Felipe, para onde Mercúrio correu?

Esticando-se para frente e posicionando o corpo entre os dois bancos frontais, Felipe começa a narrar o que havia acontecido.

— Ele começou a latir que nem um doido em direção às árvores. Estava escurecendo e quando tentei puxá-lo para irmos embora, a coleira arrebentou e ele saiu correndo em direção àquelas árvores. Parecia que estava perseguindo alguma coisa. — Aponta para a vegetação.

— Pare de falar esse tipo de coisa. Dá medo… — Isadora comenta, vagando o olhar para o exterior em busca de uma possível criatura nas trevas.

Felipe volta ao banco traseiro, chocando suas costas no assento acolchoado. Encaro-o vendo sua afobação.

— Que seja… Vamos tentar achá-lo. Se não o encontrarmos, voltamos amanhã. — Erik abre a porta, e antes que possa sair, seguro seu ombro forçando-o a ficar no interior do carro. — O que foi?

— Fecha a porta. — Em alerta, me aproximo dos bancos frontais observando um conjunto de moitas à frente.

Isadora me olha assustada.

— Misael, para com isso, não tem graça nenhuma. 

— Isadora tem razão, isso não é hora para brincadeiras. — Erik me fuzila com seus olhos azuis.

Continuo a analisar as folhas e galhos amontoados sobre um tronco inclinado. E como havia suspeitado, as folhagens remexem.

— Misael. — Erik reclama ainda me olhando. Minha mão ainda permanecia em seu ombro, só que agora apertando mais forte do que gostaria, devido à tensão. 

Há algo estranho…

— Tem alguma coisa naquela moita. — Tirando os olhos de mim, todos começam a olhar para o mato que se remexia.

— Deve ser Mercúrio. — Erik tenta mais uma vez sair do carro, porém mantenho meu aperto firme. 

— Não acho que um Retriever possa remexer uma moita daquele jeito. — Meu irmão fica confuso, porém, sem demora volta a encarar o mato, fechando a porta entreaberta.

O silêncio permaneceu enquanto esperamos outro sinal.

— Devia ser um guaxinim. —Diego resmunga.

— E se for um urso? — Felipe demonstra medo em suas palavras.

— Acordem para a realidade! Estamos em São Paulo, de onde iria surgir a droga de um urso? — Erik já estava perdendo a paciência.

— Não sei, ora! Nunca se… — Antes que o tom agudo da voz de Felipe se formasse, somos surpreendidos por algo batendo com força no vidro do veículo. Meus irmãos encaram-se estatelados enquanto recolho meus braços, protegendo minha face no extinto.

— Esse é o… — Felipe sussurra com a voz trêmula.

Retirando minhas mãos da face, encaro o parabrisa que estava rachado e ensanguentado.

— Mercúrio… — Completo. — Erik. Ligue o carro, agora! — Tremendo, meu irmão percebe a urgência na minha voz.

Ao passar a marcha, os pneus arrastam a areia em um solavanco. No entanto, antes que pudesse ao menos colocar o carro de volta à rua improvisada da floresta, algo vem de encontro à lateral do veículo. Tudo correu tão rápido e tudo o que consegui ver foi um vulto grande e negro.

O carro foi lançado. Girou duas vezes antes de parar de ponta a cabeça. Escuto um misto de sons, que provavelmente provocaria uma dor de cabeça. O som de gritos desesperados, vidros sendo estilhaçados e da lataria indo de encontro ao chão, emitem um poluição sonora no pequeno espaço. 

Coloco-me de joelhos e ouço os resmungos de dor de meus irmãos. Isadora estava pendurada no cinto. Sorte a dela, pois eu e os outros havíamos sido remexidos de um lado ao outro, resultando em quatro garotos em posições nada agradáveis.  

Sinto uma ardência no braço, e vejo o longo corte em meu antebraço. Ignoro a dor e confiro se os outros estão bem.

— Estão todos bem? — Erik pergunta antes.

— Sério que você está me perguntando isso? — Diego reclama ficando de joelhos no teto do veículo. 

— Eu estou bem. — Felipe declara.

— Misael?

— Tudo certo, apenas alguns arranhões. — Logo começaram a se preocupar com Isadora. A mesma reclamava de dor. Aproveitei para averiguar o exterior.

O que quer que tenha batido contra nós era imenso e possuía muita força. Nem mesmo um urso seria capaz de fazer isso.

Meu coração dispara, temeroso pelo nosso estar. Ainda mais agora. Não tínhamos mais um carro para cair fora dali. 

Retirando o cinto, Diego e Erik seguram o corpo de Isadora. Ela cai sentada sobre os cacos de vidro da sua janela despedaçada.

— Merda. — Erik encara o ferimento no abdômen de sua irmã.

— O que diabos está acontecendo? — Felipe entra em desespero.

— Pressione o ferimento Erik. — Ao me olhar,  percebo a confusão dentro de si. Não, todos estavam perdidos, não sabiam o que fazer. Típico de jovens que eram literalmente bancados pelos pais. Bufo exasperado. — O sangramento, você precisa fazer com que ele pare. Pressione. — Motivo-o a fazer o que peço, e sem delongas o faz. 

Não que eu não seja bancado pelos meus pais, mas diferente dos outros filhos, eu sabia me cuidar. Não poderia ser considerado o mais durão da família, de certo modo era o mais quieto e inteligente dos filhos, por mais que não demonstrasse isso. O que só indicava a minha aparente incapacidade social…

— Misael, ainda está saindo muito sangue. — Percebo o medo na voz de meu irmão mais velho. Lanço-me para a frente do carro, tomando o controle da situação.

— Se afaste. — Pressiono o ferimento e observo Erik se afastar até o vidro lateral, olhando as mãos ensanguentadas. — Olha para mim. — Aumento o tom de minha voz, forçando-o a manter o contato visual. — Isso não é hora para entrar em estado de choque, precisamos sair daqui e buscar ajuda para a Isa. Então, por favor, não abandone a sua família.

Sorrio ao vê-lo balançar a cabeça tentando manter-se focado na situação.  

Repentinamente, o vidro quebra atrás dele, e algo morde o seu ombro.

Tudo o que eu conseguia raciocinar eram os gritos de meu irmão mais velho que estava sendo arrastado para fora do veículo por uma criatura de olhos vermelhos. Não, não pode ser. 

Minha mente lutava contra a possibilidade de cogitar o nome da criatura. Era um lobo, só podia ser…

Tremendo volto-me para Isadora. 

— Isa, preciso que desencoste do painel. — A mesma com muito esforço se movimenta. — Diego, me dê a sua blusa. — Meu irmão mais novo obedece. 

— O que era aquilo? — Encaro-o, porém permaneço em silêncio.

Rasgo a blusa o mais rápido que consigo. Rodeio a circunferência abdominal de Isa e aperto o local realizando um nó por trás, fazendo com que arqueie de dor.

— Prestem atenção. Vamos ter que sair e correr. — Os dois mais novos arregalam os olhos.

— Mas Misael, aquilo está lá fora. — A voz de Diego sai trêmula.

— Eu sei. Mas se ficarmos, não teremos chance alguma.

— Misael tem razão… Façam o que ele está pedindo. — Fito minha irmã que já mostrava sinais de seu estado físico.

— Escutem. A avenida principal fica a dez minutos daqui, se corrermos pode levar até menos que isso. Diego ajude a Felipe, ele não parece estar bem. Eu irei ajudar a Isa. — Nervosamente Diego começa a conversar com seu irmão que permanecia paralisado. — Vamos, agora!

Saio, ajudando Isa a se arrastar pela janela. Diego e Felipe saem pela janela lateral de trás. Seguro minha irmã, colocando seu braço a volta do meu pescoço.

— Ai. — Encaro Felipe, mancava antes mesmo de começarmos a correr. Pode ter torcido o pé no interior do carro.

— Misael…

— Faça como estou fazendo com Isa. —Após me imitar, iniciamos a nossa fuga.

Não sei exatamente se estávamos sendo rápidos o bastante, ou se a criatura iria realmente nos perseguir, mas algo, uma desesperança me dizia o contrário. A voz ecoava em minha mente dizendo que não iria alcançar a avenida, ou que não conseguiria ajuda para Isa, ou ainda que não veria mais o Erik.

Afugento os pensamentos errantes, e foco no caminho. Inacreditavelmente, Diego e Felipe estavam atrás de nós, mesmo os dois sendo do mesmo tamanho; enquanto eu carregava uma garota que possuía o dobro do meu.

— Misael! — Ouço a voz de Diego.

Paro e olho para trás, vendo Felipe encostado em uma árvore. Deixo Isa sentada em um tronco caído.

— O que pensam que estão fazendo? — Digo exaltado. Será que não veem a situação em que se encontram?

Percebo que o motivo não era Felipe e sim Diego, ofegava feito um cão que acabara de correr e ansiava por água.

— Nós não temos… Felipe, cuidado! — Grito enquanto vejo a criatura aparecer em meio à escuridão e abocanhar a perna estável de Felipe, o arrastando para a floresta enquanto o garoto berrava de dor. 

— Felipe! — Diego grita e corre em direção ao irmão.

— Diego, não! — Aperto minha mão com raiva.

Vou até minha irmã, colocando-a de volta à posição de fuga. 

Idiota, dois idiotas. Não deviam ter parado. 

Meus olhos começam a marejar.

— Misael… — Ouço a voz fraca de Isa.

Encaro a luz de carros a poucos metros.

— Isa, estamos quase lá. Vamos. Não desista, por favor. — Ela me olha e deposita forças em mim, que talvez nem ela mesmo sabia que ainda existia.

Continuamos a correr, agora mais lentos do que antes. Percebo minha irmã olhar de relance para trás, e antes de percorrermos os últimos dez metros restantes , ela me empurra. Inevitavelmente acabo tropeçando e caindo. 

Volto-me em sua direção. Mantinha o corpo ereto. Os ombros caídos e a palidez evidente em seus lábios e olhos, não escondiam sua determinação.

— Corra. — Noto um misto de decisão e medo na voz de minha irmã.

A coisa surge das árvores novamente e morde sua perna, levando-a, assim como a Felipe, para a escuridão da floresta.

Trêmulo e assustado pelos gritos agudos de Isa, levanto-me e começo a correr. Em poucos segundos estou na Avenida. Paro apenas quando um carro buzina e freia freneticamente, fazendo com que eu caia no chão. Outros automóveis atrás dele produzem um eco de freadas.

Olho para o caminho de onde vim. A criatura permanecia sobre duas patas. A falta de luz não encobria o desenho de seu corpo sobrenatural. Dois pontos vermelhos me fitam, e antes que outra pessoa o aviste… Desaparece na mata.

— Está tudo bem, garoto? — Olho para o homem a minha frente, e deixo as lágrimas caírem enquanto todo o meu corpo estremece pelo desespero.

Dias atuais…

— Vai ficar ai dentro lerdando? — A voz de Diego sai abafada ao mesmo tempo em que bate no vidro de meu carro, liberando-me das más lembranças.

Sorrio e retiro o cinto.

Abro a porta e pego as compras que fiz no caminho de volta para casa.

— Que tal pedirmos pizza hoje à noite? — Sorrio ao falar, olhando de Diego para Isa, que me esperava na varanda perto da porta. Erik e Felipe aparecem ao seu lado.

O grupo se extasia pela ideia.

— Portuguesa! — Felipe fala rapidamente.

— Não… Há muita coisa em uma pizza só… — Diego reclama. Os dois sempre discordavam da opinião do outro.

— Que tal comprarmos uma de cada sabor? Do jeito que vocês comem… — Caminho em direção a nossa casa.

Os quatro continuam a conversar sobre as pizzas. E enquanto isso; permito-me aproveitar o momento com tudo o que restou de minha família.


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