Caçador – Capítulo 4: Escolhas

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Escolhas

Finalmente, acabo de arrumar a estante. Meus livros eram uma das minhas maiores paixões. Herdei o talento e a ambição por eles de minha mãe: Elizana Goulart Pascoal. Era uma mulher admirável. Sua inteligência, a beleza e a capacidade de ser um exemplo de bondade, mantinha-nos no caminho correto. 

Enquanto estava viva.

Parece que com sua partida, tudo começou a desandar. 

Pego o porta-retrato dentro de uma das caixas. Vejo a imagem e me recordo  do dia em que a tiramos. 

Era dia de Natal e estávamos todos reunidos para a ceia. Papai dificilmente vinha para casa, então a foto se tornou uma lembrança preciosa.

Deposito o objeto sobre a mesa ao lado da cama ouvindo as risadas abafadas de meus irmãos no andar abaixo. 

Levantando-me, caminho em direção à bagunça. Depois da conversa de ontem, imaginei que estariam mais tensos ou relutantes durante a manhã, no entanto, o ânimo do grupo parecia ter duplicado.

Desço as escadas e me deparo com os três meninos desempacotando as coisas. Sento-me nos degraus observando Felipe lutar contra uma das caixas.

— É algo belo de se ver, não é? — Isadora estendia uma caneca em minha direção. — Vê-los trabalhando assim é…

— Engraçado. — Pego a caneca e noto o líquido marrom e quente em seu interior.

— Sim. — Gargalhamos.

Tomo um gole do chocolate quente.

— E é bom saber que tem melhorado em algumas coisas também. — Encaro seriamente a caneca, admirado pela semelhança com o gosto da bebida que mamãe fazia.

— Eu sempre fui boa, meu amor.

Erik e os meninos começam a rir.

— Você não sabe nem fritar um ovo. Saber fazer um chocolate quente não é uma conquista digna de comemoração. — Diego desvia de uma almofada jogada pela garota irada, que anda pesadamente em direção ao centro da sala para ajudá-los.

— Porque só o Misael recebe chocolate quente? — Felipe questiona, injuriado.

— Porque ele não é idiota que nem os três patetas.

Felipe faz uma expressão debochada para sua irmã mais velha.

Bebo o restante da bebida e corro até a cozinha.

— Vou retirar o lixo. Assim que voltar, iremos nos preparar para ir até o Instituto. — Pego o saco e saio pela porta principal de nossa nova casa ouvindo os “Ok’s” resmungados.

Estremeço com o vento gélido do sul do país, que passa pela porta. Não havia neve, porém o frio permanecia na pequena cidade. Em minha opinião era agradável. Nunca gostei muito do calor do sudeste.

Desço os pequenos degraus da varanda e percorro a estreita calçada entre a grama do quintal. Abro a tampa da lixeira e deposito a pesada sacola em seu interior.

Fito o céu nublado. Em tempos assim em São Paulo, diria que uma chuva estaria para chegar, porém aqui não sei o que esperar. Chuva ou neve?

Assusto-me com uma senhora empurrando um carrinho de supermercado enferrujado.

Ela ria em meio a uma tosse violenta. 

— Parece que vem uma chuva por aí. — A velha comenta com uma voz carregada.

— Sério? — Fito novamente as nuvens ao alto.

— Sim. Uma chuva de sangue. — Surpreso, analiso a senhora que volta a empurrar o carrinho rindo.

— Misael? — Ouço Isadora me chamar. — Vai ficar aí parado ou vai entrar para se arrumar? Estamos quase prontos.

— Vou sim. — Murmuro, procurando a estranha senhora, entretanto, apenas avisto um cachorro tentando abrir uma das lixeiras na calçada. 

Entro em casa com a pulga atrás da orelha. 

— Peça ao Erik para tirar o carro da garagem. Não demorarei.

— Tudo bem. 

Subo as escadas de dois em dois degraus. Apresso-me pelo corredor, virando bruscamente na porta do quarto.

Pego um dos pesados casacos que compramos antes da viagem, e antes de sair do quarto, vejo meu celular vibrar sobre a cama.

Por um momento fiquei observando o aparelho, decidindo verificar a mensagem ou não.

Subitamente o pego e verifico o remetente.

“Boa tarde Misael,

Como vai a mudança?”

Suspiro forte e penso por um tempo antes de digitar a resposta.

“Tudo nos conformes. Nada para se preocupar…

Não fique preocupado, estamos bem. Já disse que precisamos desse tempo sozinhos.”

Envio a resposta, e em questão de segundos sou surpreendido novamente pela vibração do celular.

“Hum…

Difícil não ficar preocupado com os meus sobrinhos. Se pelo menos tivessem me falado para onde exatamente decidiram fugir, eu estaria mais relaxado.”

Sorrio com a preocupação.

Tio Ben era um irmão distante de mamãe. Visitávamos sua casa uma vez por semana. Era um homem solteiro, sem esposa ou filhos. Para resumir: Tio Bem não tinha muito o que fazer além de babar pelos seus sobrinhos.

Depois de optar pela mudança, deixei os negócios da empresa sob seus cuidados. Ele mais que ninguém era capaz de não deixar a empresa afundar.

“Se tivéssemos revelado aonde iríamos, definitivamente o senhor não nos deixaria quietos. O senhor adquiriu um ‘complexo de tio’ que o impede de relaxar quando o assunto diz respeito aos seus sobrinhos. Já disse… Estamos bem.”

Começo a descer as escadas em direção aos meus irmãos, que me esperavam impacientes e antes que partíssemos, recebo mais uma mensagem.

“Você não mede palavras. Não é? Haha

Tudo bem. Se precisarem de mais dinheiro… Avisem, por favor.”

Digito um “O.K.” rapidamente e saio, permitindo que Diego feche a porta.

***

O caminho até o instituto foi meio que… Silencioso. Erik dirigia enquanto seguia as orientações do GPS. Os demais estavam perdidos em seus pensamentos alternando seus olhares para a floresta e o caminho a frente.

Eu sabia que a agitação pela manhã era apenas um mecanismo para ocultar o nervosismo. Agora mesmo conseguia sentir a tensão causada pelo temor deles. É justificável, pois esse é o primeiro contato deles com lobisomens que não saem por aí matando pessoas…

Erik para em frente ao enorme portão de ferro que abre como mágica. Percebo uma câmera no tronco de uma das árvores ao lado.

Felipe e Diego deixam um suspiro de admiração sair de suas bocas ao verem a extensa área. E mais ainda ao notarem a imensa mansão.

Vejo o Professor Muller e sua esposa na porta da residência. Ao lado do casal, um rapaz e uma moça permanecem sérios diante da visita.

Erik estaciona o carro perto de outros veículos, próximo à garagem. 

— Vamos.

Abro a porta, incentivando o grupo a fazer o mesmo e logo alcanço o casal.

Somente sua esposa sorriu para nós. Não culpo o Professor, não é fácil simpatizar com alguém que entrou em sua casa e deliberadamente expôs sua fraqueza.

— Professor Muller.

— Senhor Misael.

Aperto sua mão. Os dois jovens ao seu lado me encaram desconfiados.

— Esses são meus irmãos. — Indico o grupo que permanecia ao meu encalço. — Erik. Isadora. Felipe. Diego.

Apresento-os, indicando cada um com a mão. Educadamente um a um sorri ou faz uma saudação adequada aos donos da casa.

— Vamos entrar. Tomaremos um café enquanto conversamos.

Sigo os quatro até o mesmo escritório que conversei com o professor ontem. O cheiro de mofo em união ao café ainda estava impregnado no ar.

— Bom… Seu irmão nos contou sobre a condição atual de vocês. Ele nos pediu para ajudá-los com suas transformações. Para ser sincero ainda estou com receio de tomar tal atitude, pois não os conheço. Não sei do que são capazes de fazer ou o que já fizeram. — O senhor Muller senta-se em sua cadeira acolchoada diante de sua mesa.

— Se sua preocupação está em termos matado algum humano, fique tranquilo quanto a isso. Não derramamos nenhum sangue. — Erik se pronuncia.

Os dois jovens ainda permaneciam em silêncio, observando cada atitude de meus irmãos.

— E como posso ter certeza disso? Como saberei que vocês não mataram nenhum inocente em um de seus momentos de fúria?

— Porque em todos eles, Misael esteve se certificando que não faríamos nenhuma besteira. — Felipe diz, e percebo o mais novo começar a se descontrolar. Seus olhos intercalam a cor, evidenciando a falta de autocontrole.

Dentre os quatro, Felipe era o mais impulsivo e o que dava mais trabalho nas noites de lua cheia.

O professor Muller me olha curiosamente e não permito demonstrar qualquer incerteza. De alguma forma ele estava testando-os. Testando a mim.

— Muito bem. E o que tem a dizer sobre o seu alfa?

Os quatro ficam, perceptivelmente, incomodados.

— O que tem ele? — Erik pergunta.

— Ele está morto? — Jhonatan faz uma pausa. — Betas e Ômegas conseguem sentir quando o seu alfa morre. Então respondam. O alfa de vocês está morto?

Percebo os olhares distantes de meus irmãos.

— Sim. Ele está… — Isadora responde.

— Foi uma das piores dores que já sentimos. — Ao ouvir o que Felipe dissera, não pude evitar o aperto em meu coração. 

— Um dos motivos de não conseguirem controlar as transformações, é o fato de não possuir um alfa. Se querem controlar o lobo que há dentro de vocês, precisam aceitar o alfa de uma matilha. Ele lhes dará, além da orientação, o poder para isso. A pergunta é: estão dispostos a me aceitar como o seu alfa?

O silêncio perdura no cômodo.

Depois de concordarem entre si e me olhar de esguelha o grupo responde positivamente.

— Certo. Senhor Misael? — Olho-o. — Poderia nos deixar a sós? Preciso explicar algumas coisas aos seus irmãos.

— Ok. — Levanto-me e caminho incerto em direção à saída. 

Preciso me preparar. Talvez seja inevitável o fato dos quatro descobrirem sobre a devoção à matilha. 

***

Aguardei por longos 50 minutos…

Minha paciência não é algo para ser testada. Aproveitei o momento de solidão para avaliar o local. Definitivamente, este lugar tinha estrutura. 

Em minhas pesquisas não consegui muita coisa, mas os artigos encontrados relatavam a quantidade das famílias que patrocinavam o local, e suas capacidades financeiras.

Depois de vaguear com meus pensamentos, sou desperto pela porta sendo aberta. Meus irmãos saem, e pelas expressões tentavam não demonstrar o descontentamento. 

Suspiro profundamente.

Sem uma única palavra os quatro rabugentos entram no carro. Pego a direção do veículo, e antes de dar a partida, vejo o senhor Muller na porta me olhando.

Com um leve aceno de cabeça o cumprimento. 

Da mesma forma iniciamos a nossa volta para casa, em silêncio, porém, depois de passar pelo portão de ferro do instituto, freio violentamente o SUV. 

Encosto minha cabeça no volante, abro a porta e vou para dianteira do automóvel. Fito a rua de terra que se estendia para além das árvores.

— O que aconteceu? — Digo baixo sabendo que ouviriam.

Viro-me olhando os quatro. Seus olhares tentavam compreender algo em mim que eu não queria que compreendessem.

Meu medo.

Erik sai do carro.

— Ele nos explicou o que teríamos que fazer para fazer parte da matilha. Assim como o fato da nossa vida mudar após isso. — Percebo a seriedade em sua face. — Nós não podemos escolher entre a matilha e você, Misael. Não nos peça para fazer isso.

Fecho meus olhos, deixando minha frustração evidente. Então era tão difícil esconder essa parte deles Jhonatan?

— Vocês não possuem muita escolha, sabem disso.

— Claro que possuímos. Estamos lidando muito bem com isso. Sozinhos.

— Sozinhos!? — Exalto-me. — Não. Não estamos Erik.

— Nós não tivemos nenhum problema até agora Misael. As celas sempre nos mantiveram sob controle, elas evitaram, até hoje, que encostássemos a garra em algum humano.

— Quantas vezes eu terei que repetir isso para vocês? A transformação está sendo cada vez mais difícil. Cedo ou tarde, correntes e um pedaço de metal que os separa do mundo não serão suficientes para detê-los.

— Então duplicaremos as correntes e as grades. — Ele aumenta seu tom. — Não iremos fazer isso!

Merda Erik…

— Erik, me escuta…

— Não, Misael. Essa conversa acaba por aqui. — Ele inicia a sua volta para o veículo.

Fecho meus olhos. E inspiro profundamente.

— Você se lembra do que mamãe dizia? — Erik para e permanece de costas. — “Decida-se. A vida é uma experiente pedinte. Precisa dar o que ela quer ou será arrancado à força de suas mãos.” — Erik me encara estranhando a minha movimentação.

Uma por uma, retiro cada peça de roupa. O frio só promovia uma rigidez em meus músculos, levando-me a retirá-las lentamente.

— O que você está… — Erik e os outros arregalam os olhos quando jogo minha blusa ao chão e retiro a minha calça.

O vento frio bate contra a minha pele branca. Contudo, mantenho minha postura firme.

— Sinceramente, não sei o que acontecerá na próxima lua cheia. — Usar isso contra eles era algo que eu não gostaria de ter feito, mas fez-se necessário.

As cicatrizes eram a maior demonstração de fraqueza que eu poderia ter. 

E essa, talvez, seja a minha única opção para mantê-los seguros.

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