Caçador – Capítulo 5: Ameaça

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Ameaça

Meus irmãos observam meu corpo com a desolação da culpa. As lágrimas contidas nos olhos de Erik mostrava a culpa se alojando em sua consciência ao mesmo tempo em que Isa cobria sua boca com uma das mãos evitando um suspiro de horror. Obrigo-me a desviar o olhar do grupo e buscar as roupas espalhadas pelo chão.

— Por que não nos contou? — A voz do meu irmão mais velho vacila.

Coloco a calça em silêncio.

— Por que!? — Erik grita fazendo-me ter um leve espasmo devido ao susto.

Isa, junto dos meninos, sai do carro.

— Depois que papai e mamãe morreram, prometi a eles e a mim mesmo que os protegeria a qualquer custo. — Abotoo a blusa ocultando as marcas e o curativo ainda recente em meu tronco. — Carregar a dor em meu corpo pelo bem de vocês não é nada comparado ao arrependimento que teria em não cumprir a promessa que fiz.

— Mas que merda você está falando!? Acha que colocar a sua vida em risco vale a pena!? Você é um humano…

— E é por isso que tive que ficar ao lado de vocês esse tempo todo! — Esgoelo a frase em meio às lágrimas. — Para lembrá-los que um dia foram humanos. 

Eles permanecem em silêncio. 

— A cada lua cheia que passava mais eu tinha certeza de como ficariam se matassem alguém. E perder vocês dessa forma era algo que acabaria com o que restou de mim.

— Você mentiu para nós. — Vejo a dor nos olhos de Erik. O seu desapontamento… — Não devia ter escondido isso da gente. 

Isadora, Diego e Felipe evitam manter contato visual.

Sei exatamente o que eles estão sentindo, algo semelhante à traição. Assim como a força, os sentidos e a velocidade, os sentimentos são intensificados no indivíduo que passa pela transformação. Neste momento, a confiança deles em mim foi abalada. 

Mas, talvez seja o necessário.

— Não precisa mais se preocupar. Manteremos distância a partir de hoje.

Erik olha mais uma vez para minhas cicatrizes e sem olhar para trás, começa a retornar a pé para o Instituto. Hesitantemente, o restante do grupo o segue. 

— Não queria que fosse dessa forma… — Sussurro.

Algumas lágrimas teimosas são derramadas. No entanto, trato de secá-las. 

Esse era o objetivo desde a saída de São Paulo.

— Conseguiu o que queria.

Observo o professor sair detrás das árvores, seus braços cruzados frente ao peito. 

Observo-o por um instante antes de me mover mais uma vez.

— Sim. — Respiro profundamente e caminho em direção ao carro, parando antes de abrir a porta. — Cuide deles para mim. 

Entro e logo saio derrapando com o veículo sobre a terra úmida.

Aperto o volante fortemente.

“Foi o melhor, Misael…”

***

Estaciono o carro na garagem. Apoio minha cabeça no volante e apenas tento acalmar meus pensamentos.

Meus olhos ardiam e provavelmente estão avermelhados devido ao choro pelo caminho.

Sinto o calor da luz solar sobre as minhas mãos. Foco toda a minha atenção na sensação. Era o mesmo calor que sentia nos verões que passávamos nas praias em dias de domingo. Mamãe e papai sob a sombra de um guarda-sol enquanto jogávamos vôlei ou algum jogo improvisado na hora, rente à água gelada do mar, que batia fortemente contra as pedras. 

Ergo minha cabeça para observar a luz em minhas mãos. No entanto, inevitavelmente encaro a porta de casa.

O medo me alerta.

Entreaberta ela balançava levemente devido à brisa. 

Saio do carro devagar ainda encarando a superfície da madeira envelhecida. Ando apressadamente pela lateral da casa, agachando-me ao passar pelas janelas. 

Chego até a porta de trás. Destranco o segredo usando uma das cópias da chave. 

Entro e esgueiro até a lateral do fogão, local onde uma agulha da chaminé estava posicionada. Seguro sua superfície de ferro firmemente. Porém, quando viro em busca do intruso, dou de cara com um garoto do meu tamanho. Percebendo a cor amarelada de seus olhos, meu coração grita devido ao medo. 

Lobisomem.

Desfiro a agulha em direção ao seu rosto, porém com um único movimento ele a retira de minhas mãos. Em um baque sou jogado ao chão. A mão direita de meu agressor pressiona meu pescoço violentamente.

Tento questionar a sua presença, no entanto o que saía de minha boca eram engasgos e as tentativas de manter uma frequência respiratória. Minhas mãos procuram desesperadamente impedi-lo de continuar. 

O pior disso não era o fato de estar no chão chorando diante de alguém que provavelmente vai me matar. E sim o fato de ser impotente ao nível de sequer conseguir se defender.

Meus olhos notam outra presença atrás do garoto. Passo meus olhos do rosto quase sem vida do rapaz para o da garota loira atrás dele. Ela me encara séria, seu vestido esvoaça levemente devido ao vento que teimava em passar pelo vão das janelas.

— David. Já chega. — A voz da garota faz com que David a olhe de esguelha antes de me soltar. Logo inicio uma série de tosses enquanto inflo meus pulmões com a maior quantidade de ar que conseguia.

Ajoelhado ao chão, encaro duas botas de couro se aproximarem.

— Quem é você? — A garota pergunta.

— Eu… Que deveria perguntar isso. Não acha? — Ergo meu olhar e visualizo a desconhecida. 

Seus cabelos loiros contrastavam com o vestido negro que usava.

— Ele é apenas um humano. Deveríamos achar os outros logo.

Olho a bancada da cozinha que permitia a visão ampla da sala. Uma rota de fuga até uma pistola sob a mesa de jantar, que tinha um cartucho recheado de balas de prata. Dariam conta dos dois, pelo menos até que eu conseguisse escapar.

— Eu sei, mas o cheiro aqui dentro é definitivamente de vários deles. — A garota resmunga para seu amigo.

Aproveito a distração dos dois e salto sobre a bancada. Corro até a extremidade da mesa passando a mão sob a superfície de marfim. O David já estava sobre a bancada com suas presas à mostra e a expressão alterada. A garota apenas me encarava com seus olhos amarelados.

Minha mão estava firme na arma, pronta para retirá-la e atacá-los com tudo o que tinha. Isso significava as 20 chances que teria.

O David dispara em minha direção. Ergo rapidamente a pistola mirando em seu ombro. Disparo, e de imediato ele cai gritando de dor. 

A loira me olha sem entender a situação. E quando tira as suas próprias conclusões enraivece ao ponto de me ameaçar como o seu colega.

— Caçador! — Sempre me perguntei quem eram esses caçadores. Não é a primeira vez que ouço essa denominação, nem mesmo a segunda.

— Eu não sou um caçador. — Ela se aproxima de David, puxando-o para si. — Mas se tentarem se aproximar de meus irmãos, eu definitivamente irei caçá-los. — Tanto demonstrar toda a confiança que não tinha. 

Mal sabem que meu plano era sair correndo dali. 

— Seus irmãos? — A loira tenta decifrar minhas palavras. — Você é irmão de lobisomens? 

A menina volta à face humana.

— Eu não vim para machucá-los. — O David retira a bala de seu ombro. Por um momento ele fita o projétil entre seus dedos ensanguentados, depois me olha furiosamente. — Muito pelo contrário, vim alertá-los.

— Como assim? — Franzo minha testa. 

— Eu me chamo Kalina. O quanto sabe sobre a transformação de seus irmãos? — A garota senta em uma poltrona. 

Ainda mantenho a Pistola erguida, vigiando de esguelha o tal David. 

— O bastante… É melhor ficar quietinho se não quiser outra bala presa em você. — Digo entredentes para o rapaz que se movimentou de forma suspeita.

— David, se acalme. — Kalina o olha advertindo-o. Um resmungo de raiva sai da boca do rapaz. — Victor possui um irmão, que não está nada feliz com a sua morte.

— E o que temos a ver com isso? 

— Seu nome é Nicola. Ele está caçando os subordinados de Victor. Está coletando informações dos caçadores que mataram seu irmão mais velho. Viemos aqui para avisá-los.

— E como sei que vocês possuem tal boa intenção? — Balanço a pistola levemente no ar.

— Por que também fomos transformados pelo Victor. Também estamos sendo caçados pelo Nicola e por seus capangas…

Kalina desvia o olhar. Consigo visualizar o temor em seus olhos.

Abaixo a pistola lentamente.

— Ele enviará seus subordinados para nos capturar. Até que ele chegue e tenha uma de suas conversas macabras conosco. 

— Como assim macabras?

— Aquele cara… Ele e os lobos que o seguem são totalmente pirados. Psicopatas que não hesitarão em matar quem estiver no caminho deles. — O David se pronuncia.

— Viemos em busca de ajuda, pretendemos nos juntar aos seus irmãos e ter pelo menos uma chance de sair vivos dessa. — Kalina continua. — Poderia nos dizer onde eles estão? Ou quando eles voltarão? Pelo forte cheiro aqui dentro, deve morar com eles.

Encaro-a seriamente.

— Moravam. — Os dois me olham perdidos. — Os quatro se juntaram a uma matilha hoje cedo. Creio que não irão voltar.

Merda. O cheiro deles, definitivamente irá atraí-los para cá.

— Isso não muda o fato de que serão caçados. Sorte a deles. Pelo menos terão uma matilha para contar. Nós… — Ela fita o David que olha para o chão. — Temos apenas um ao outro.

Deixo o silêncio preencher a sala e aproveito para organizar os pensamentos.

— Terão a mim agora. 

— Como? — David solta uma risada de incredulidade.

— Acham mesmo que sairei intocado se eles vierem atrás de meus irmãos? 

— Definitivamente não. Mas isso não significa que iremos protegê-lo só porque é irmão de lobisomens. — Ele desconta toda a raiva em sua ironia.

— Não estou contando com a proteção de vocês, e sim com a ajuda.

— No que está pensando? — Kalina mais uma vez me olha como se estivesse olhando um enigma. 

— Kalina. É sério? — David se exalta. — Podemos tentar pedir ajuda dos irmãos dele. 

— A matilha deles não iria aceitar, David. Sabe como é difícil aceitarem lobisomens desligados.

David range os dentes. 

Talvez o Professor Muller pudesse adotá-los na matilha assim como fez com meus irmãos, mas primeiro, preciso da ajuda deles.

— Sei que a ideia de cooperar com um humano parece loucura, mas acho que eu sou a maior chance de vocês agora.

— Prossiga.

David lança seus braços ao alto em rendição ao que achava tolice da parte de sua parceira.

— Esta cidade… — Kalina mais uma vez fica confusa. 

Caminho ainda em alerta até a janela. Averiguo a rua frente à minha casa. 

Meus irmãos podem ter se decepcionado comigo. Por ter mentido, por mentir para eles. Mas não posso decepcionar papai e mamãe. Preciso manter a promessa. A qualquer custo.

— Não é uma cidade normal. 

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