Caçador – Capítulo 7: Escuridão

 

7

Escuridão


Coloco o último item na mochila: a pistola automática carregada. Mantenho meus olhos fixos na arma sobre o tecido de uma blusa extra.

Não há mal em me prevenir.

Fecho o zíper e ponho uma das alças sobre o ombro direito caminhando para a porta. Kalina e David já devem estar me esperando na entrada da floresta.

O mapa que João disponibilizou indica um local em uma parte distante da floresta. Em seu e-mail, ele relatou que nunca arriscou ir até o local devido aos possíveis ataques de animais selvagens na área, o que influenciou a minha decisão de levar uma das armas do estoque.

Pego a chave do SUV sobre a mesa e logo  me encontro diante da porta girando a maçaneta. No entanto, a visão de minha irmã parada rente ao rodapé da porta impulsiona meu corpo a dar dois passos para trás.

— Merda! — Suspiro. — Oi, Isa.

— Oi, Misael. — Sua voz soava calma e triste.

Isa sempre foi a irmã que compreendia ou tentava compreender os meus pensamentos e atitudes, mesmo que elas não significassem nada e isso a tornava a pessoa mais confiável para mim.

— O que faz aqui?

— Queria conversar. Tem um tempo? Vejo que já estava de saída.

— Ah! Sim. Vou sair, mas podemos conversar. Entre. — Dou meia volta e aproveito para digitar uma mensagem rapidamente para Kalina.

“Vou me atrasar. Estou com uma visita…”

Coloco o celular no bolso e volto a olhar minha irmã, depositando a bolsa no sofá.

— Estive pensando no que aconteceu… Creio que todos estamos… — Isa vaga seu olhar pela sala. — Sei que sua intenção era nos proteger, mas tanta coisa aconteceu, e nós… Nós não queremos que você se machuque. Já perdemos papai e mamãe, não queremos correr o risco de perder você também.

— Isa…

— Por isso manteremos distância, não porque estamos chateados ou algo parecido. Só precisamos de um tempo para lidar com o que nos transformamos, antes de voltar a ser o que éramos. Não queremos que corra o risco de ser morto pelos próprios irmãos.

Inspiro profundamente, colocando minhas mãos na cintura.

— Tudo bem. Eu entendo.

— Às vezes esqueço que você é mais novo que eu. — Ela ri. — Sempre foi mais maduro que todos os quatro e acho que sempre será.

Rimos juntos.

— Tio Ben esteve por aqui. — Isa fica surpresa por um momento.

— Pensei que você soubesse lidar com o complexado do Tio Ben. — Gargalhamos.

— Bom. Disse para ele que vocês estavam em um acampamento de sobrevivência. Não sei qual desculpa inventarei na próxima…

— Sei que dará um jeito. — Sou envolvido em seus braços. — Cuide-se, irmãozinho. 

— Você também, Isa.

Isadora começa a sair.

— Mais uma coisa. — Atento-me as suas palavras. — Não exija demais de si mesmo, peça ajuda caso algo aconteça, está bem?

Sorrio.

— Pode deixar.

Vejo-a entrar no carro e partir, ao mesmo tempo que  meu celular vibra.

“Estamos te esperando. Quem é?”

Bloqueio a tela sem responder.

Continuo o mesmo caminho com a mochila nas costas e as chaves na mão.

Entro no carro, respondendo a mensagem.

“Saindo daqui. Ninguém. Apenas meu plano saindo como esperado.”

***

O caminho para a floresta se tornou uma jornada complexa. A estrada esburacada de Queimada exigia mais do motor do veículo, enquanto a vegetação que teima em ocupar a via me obriga a focar em qualquer arbusto suspeito. Dar de cara com uma árvore neste momento, não está no meu roteiro.

Kalina e David permaneciam em pé, onde a rua deixa de existir. Aproximo o carro lentamente analisando o local deserto.

David exibia sua cara fechada, provavelmente devido ao meu atraso, ao mesmo tempo em que Kalina cavava um buraco no chão com a ponta de seu coturno negro.

— Já era hora. — Ele alfineta quando saio do carro.

— Eu mandei uma mensagem.

David iria retrucar, porém Kalina o interrompe.

— Não importa. Onde exatamente fica essa tumba?

— Fica a alguns quilômetros daqui. Teremos que andar um pouco, já que o carro não sairá daqui. — Digo, encarando a bifurcação de galhos e árvores na antiga via.

Vejo que os dois já haviam se preparado para a caminhada, pois ambos usavam botas específicas para a ocasião. Ou eles sempre as usam?

Afasto os pensamentos iniciando o trajeto.

— E se não houver nada lá? O que faremos? — Kalina questiona retirando alguns galhos que atrapalhavam sua visão.

— Se não der em nada, procurarei algo que dê. Ou bolaremos um plano para acabar com os desgraçados antes que nos peguem.

— Isso me parece mais realista. — Olho para trás e vejo David brigando com a vegetação.

— Não me importo se há fantasia ou não em minhas ideias. Até hoje elas me tiraram de inúmeras enrascadas. — Kalina e David entreolham-se.

A partir daquele momento, a difícil caminhada ocorreu em total silêncio. Vez ou outra David soltava um palavrão, seja pelos insetos que insistiam em querer nos atacar ou pelas subidas que a natureza impôs em nosso caminho.

O que importa agora era que, segundo meus cálculos, não devíamos estar distantes da tumba.

Chegamos no início de uma montanha, o vento frio que balança as copas da floresta, lembra que o inverno gaúcho se aproxima.

Optamos por parar e descansar entre as árvores, o barulho de pássaros e dos galhos chacoalhando acalma a minha respiração pesada.

— Segundo o mapa, ela deve estar em algum lugar por aqui. — Comento, abrindo o papel.

— O gordinho não disse como ela se parece? — David tenta matar um mosquito em seu braço.

— Não. Ele nunca veio aqui. Tinha medo dos ataques. — Dobro a folha e subo em uma rocha.

Observo o local procurando algum tipo de amontoado de pedras ou alguma caverna, algum sinal de existência da tumba. Sou bobo em pensar que algo que esteve escondido por séculos estivesse tão evidente.

Noto a expressão de Kalina.

— O que foi?

A loira permanece em silêncio, se concentrando. David começa a fazer o mesmo.

— Será que poderiam informar ao humano aqui, o que os dois estão ouvindo?

— Acho que é uma cachoeira.

Desço rapidamente da rocha.

— Vamos até lá.

Sem retrucar os dois começam a andar em direção ao suposto som. Após um bom caminho andado, escuto o que antes somente o casal escutava. Água. Era o som de água caindo contra as rochas.

Logo a visão da cachoeira toma a nossa atenção. A água que vinha do alto da montanha caía fortemente contra as rochas, fazendo as gotículas geladas bater contra o meu rosto.

Ao redor, ela formava uma enorme piscina natural.

Subimos um amontoado de rochas tomando cuidado para não escorregar no musgo que as encobria.

A água desembocava à esquerda, criando um pequeno riacho que descia em direção à cidade. Sobre a rocha consigo visualizar a imagem de Queimada entre as densas folhas de uma das árvores.

— Será que essa é a tumba? — Kalina olha para o alto de onde a água despenca desenfreadamente.

— Se for, deve ter algo como uma entrada. Aposto que está atrás da cortina de água. — David argumenta.

— Vamos procurar.

— Deixe que eu vou primeiro. Esses insetos me morderam tanto que precisarei de um banho para aliviar a coceira. — Diz o lobisomem retirando sua camisa e coçando um de seus braços.

Logo, David salta na água.

Kalina e eu nos assustamos ao vê-lo emergindo rapidamente urrando de dor e me aterrorizo ao ver a pele do rapaz em carne viva. A forma com que David se debatia, demonstrava uma possível transformação, no entanto sua forma lupina apenas ia e voltava, como se lutasse para sair de seu corpo.

— Misael!! — Kalina grita e ao olhá-la percebo o que eu deveria fazer.

A água, hipoteticamente, possuía alguma substância a que lobisomens eram “alérgicos”. Meu cérebro, imediatamente, lembra do que João falara sobre o acônito.

Mergulho em direção ao David.

Com certa dificuldade seguro o pescoço do lobisomem com uma chave de braço e começo a puxá-lo para as rochas. Uma dor excruciante surge em meu antebraço, me motivando em puxá-lo mais rápido. Não sei o que aconteceria caso ele fosse exposto à substância por mais tempo.

Com a mão livre seguro a superfície da rocha seca. Kalina ignora a dor em seus pés causada pela água e me ajuda a tirar seu amigo da piscina.

Com leves espasmos, David começa a recuperar a pele, que expelia uma fumaça esbranquiçada.

Vagueio meus olhos pelas laterais da cachoeira e noto plantas com flores roxas que preenchiam e embelezavam o local, rente às águas.

— Acônito.

Olho para uma Kalina assustada, e depois para o meu braço que ganharam cinco furos e sangravam absurdamente.

— Mas que…

David tosse e começa a se levantar já se recuperando. Algumas feridas ainda cicatrizavam, mas sua consciência já estava de volta. Ele olha para as águas temeroso.

Vou até a mochila e pego o kit de primeiros socorros, retiro algumas ataduras do pequeno pote e enrolo-as sobre a ferida, amarrando firmemente.

— Precisamos voltar. Eu e David não podemos entrar aí. — Ela tenta ajudar David a ficar de joelhos.

— Eu entrarei.

— Misael, não. Além de estar ferido, você nem sabe onde fica a entrada desse lugar. — Kalina exibia um tom de urgência em sua voz e isso de certa forma me incomoda.

— É fundo.

— O que? — Kalina e David me olham confusos.

— A piscina da cachoeira, ela é funda. — Ambos olham para a água escura. — Pode ser que a entrada não esteja na superfície e sim submersa.

— Misael… É perigoso demais, você não sabe o quão profundo pode ser e quanto tempo levará até que encontre o outro lado. Pode ficar sem oxigênio antes mesmo de chegar lá.

Ignoro os argumentos da lobisomem e pego uma lanterna na minha bolsa. Corro sobre as pedras escorregadias e salto na água. Kalina grita meu nome, mas era tarde demais para voltar, já impulsionava meu corpo mais para o fundo, confirmando minhas suspeitas.

Um túnel.

O percurso era estreito. Minhas pernas roçavam nas rochas, ao mesmo tempo em que minhas mãos tateavam as extremidades conduzindo meu corpo pela rota semicircular da fenda.

Meus pulmões começam a implorar por ar, levando meu corpo inteiro ao desespero. Tento ao máximo me concentrar no caminho, acelerando os impulsos e ignorando a surra que as pedras pontiagudas davam em minha pele.

Em poucos minutos alcanço a superfície. Permito-me inspirar todo o ar que conseguia.

Nado lentamente até tocar em uma rocha. Lanço o meu corpo sobre o chão úmido e gelado, tentando igualar minha respiração ao som das gotas que caíam uniformes em algum canto da caverna.

Encaro a escuridão do teto.

O ferimento em meu braço ardia intensamente. Tento ignorar a dor acendendo a lanterna e iluminando o ambiente acima. Sento e avalio o local extenso à minha frente.

A água escura formava uma piscina assim como no exterior. Ao meu lado esquerdo consigo encontrar uma trilha sinuosa.

Levanto-me e ando apalpando a parede, desviando de algumas tochas penduradas. Ao virar a leve curva, começo a perceber a presença de indícios da passagem humana no local.

A piscina já havia desaparecido, agora o que conseguia ver eram apenas as extremidades da caverna. A cada passo dado mais eu tinha a impressão de estar sendo prensado pelas paredes. Talvez seja apenas coisa da minha cabeça ou por estar rodeado pela escuridão e conseguir ver apenas o que minha fraca lanterna iluminava.

Finalmente chego a uma fenda. Poderia compará-la a uma porta, porém a deformidade da passagem não chegava a exibi-la como tal.

Estatelado, observo o inusitado à frente. Um estranho vento bagunçava meus cabelos enquanto eu caminhava até a beira da rocha para observar a enorme galeria. Águas de tons azuis fluorescentes circundam uma mesa retangular. Sobre ela, um objeto estava fincado emitindo um brilho suspeito.

Olho ao redor, buscando alternativas para descer até lá. Uma escada, feita de pedras cravadas nas paredes, descia em direção ao solo.

Vagarosamente coloco o pé sobre a primeira pedra, tirando prova de sua fixação. Tomo o máximo de cuidado para não escorregar nos musgos presentes nelas, porém não consigo evitar um ou dois deslizes.

Meu coração acelerado pela adrenalina se acalma ao sentir o toque da água fluorescente nos meus pés.

Analiso a profundidade da piscina, e aos poucos caminho em direção ao centro, onde a mesa permanecia. Conforme me aproximo, reconheço o que era o objeto cravado na mesa.

Uma espada. A arma relatada no livro clerical.

Subo os três degraus na lateral da mesa. A espada era de um metal branco, sua lâmina era reta, com os dois gumes sinuosos. Uma pedra vermelha pregada em sua guarda mão dava um contraste com a cor do metal.

Estranho o fato de não estar enferrujada ou corroída pelo tempo.

Seguro o cabo da arma com minha mão saudável e tento puxá-la da pedra, no entanto, teimava em sair. Coloco as duas mãos e puxo mais uma vez. O sangue começa a escorrer do curativo improvisado e cai sobre a mesa, e mesmo assim a espada nem se movia.

Exasperado, subo na mesa colocando a lanterna na boca. Seguro a empunhadura com tamanha força que os nós de meus dedos ficam ensanguentados, mas ignoro a poça de sangue que começou a se formar na superfície retangular.

Após alguns segundos de esforço total, a arma sai em um solavanco. Acabo me desequilibrando e caindo de costas na piscina, enquanto a lanterna bate contra a mesa. Ergo-me bruscamente, observando a espada em minhas mãos. O sangue se mistura à água, e dissipa lentamente perdendo sua tonalidade.

Levanto-me e caminho novamente até a mesa. Deposito a espada sobre a mesma e desfaço o curativo frente à luz da lanterna que piscava devido ao choque. O ferimento estava infeccionando, ficar ali por mais tempo não seria uma boa ideia.

Capto uma movimentação estranha em cima da mesa. Imediatamente com a lanterna, ilumino a superfície da mesa. A poça de sangue secou em segundos, como se fosse sugada para o buraco feito pela espada.

O local começa a escurecer repentinamente. Rodopio a lanterna acompanhando as águas escurecerem e tomar uma tonalidade escarlate. Pego a espada e ameaço voltar, entretanto paro ao ver pequenas bolhas d’água flutuarem.

Giro o corpo encarando a água subir lentamente. Volto-me em direção à escada e acabo encarando uma concentração do líquido. O medo toma conta do meu raciocínio. Eu estava delirando ou a água estava tomando uma forma humanoide?

A coisa começa a se arrastar em minha direção estendendo o que se assemelhava a um braço, dois pontos vermelhos surgem no alto de sua cabeça e encaravam-me ferozmente.

Começo a recuar conforme a criatura se aproximava, mas antes que ousasse se aproximar seu corpo se desfaz e toda a água que estava no teto cai adquirindo sua tonalidade fluorescente novamente.

Fico apoiado na mesa, em choque, por um tempo. Mas logo recupero a razão e corro para a escada, subindo o mais rápido possível.

Sinto que não deveria ter retirado a espada da mesa, mas agora era tarde. Não havia como voltar atrás.

Faço o mesmo caminho de volta, meu corpo já demonstrava as consequências do ferimento, e devido a isso, apresso meu passo. Morrer ali não era uma opção.

Quando encontro a piscina que me levaria de volta para o exterior, trato de sugar todo o ar que conseguiria armazenar em meus pulmões. Rogo para não desmaiar no caminho de volta.

 

 

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