Caçador – Capítulo 8: Karma

8

Karma


 

Isa acorda confusa. Seus olhos vagueiam, pelo ambiente, procurando alguma familiaridade. Imediatamente lembra que a decoração pertencia ao seu antigo quarto, quando o decorou com a ajuda de sua mãe.

Ao se levantar, percebe o temporal fora da casa. Isa verifica o relógio em sua mesa e nota que eram exatamente 13h da tarde e a escuridão presente no lugar era anormal.

— Erik! — Ela chama o nome de seu irmão, enquanto caminhava para o corredor ambíguo. — Felipe! Diego!

Isa desce as escadas e nota a substância pegajosa sob seus pés. Sangue. Havia um caminho feito de sangue percorrendo a escada em direção à porta principal.

O ambiente escuro promovia uma tensão maior na garota que andava tremendo, não se sabe se era devido ao frio ou pelo aparente medo que sentia. Ela tenta iniciar sua transformação lupina para se defender de algum possível agressor, porém não sente nada. Sua força inumana não estava presente.

Rapidamente, pega uma faca sobre a mesa da cozinha e continua seu caminho para a porta principal do imóvel, que insistia em ficar abrindo e fechando por causa da ventania que vinha do exterior. Uma estante que a família costumava usar para colocar os sapatos antes de entrar na casa impedia a porta de completar sua abertura.

Isa, hesitante, segura a porta e a abre lentamente, mantendo a guarda para qualquer surpresa.

A torrente caía desesperadamente sobre o asfalto da rua. A imagem das nuvens negras e amedrontadoras no céu promovia um clima sombrio sobre a cidade de São Paulo, e os trovões a assustavam de minuto em minuto.

Isa identifica Misael no fim do quintal olhando para o céu. A água escorrendo de seus cabelos até a arma fixada em suas mãos.

Ela sufoca um grito ao ver os corpos de seus irmãos pendurados no alpendre da residência, com um buraco presente em seus peitos. Entre eles, seu próprio corpo escorria sangue, como um pedaço de carne pendurado em um frigorífico.

Misael, que antes olhava para o breu no alto, volta seu olhar para sua irmã que já não tinha forças nas pernas e encontrava-se ajoelhada sobre o sangue de seus irmãos.

O olhar frio presente na face do rapaz promoveu calafrios em sua espinha.

— Misael… — Ela sussurra.

Uma nuvem negra desce do céu vindo por trás de seu irmão, disparando rapidamente em sua direção. Isa engatinha desengonçadamente para dentro de casa, no entanto, a fumaça é mais rápida ao tomar o corpo da jovem e sufocá-la como um manto negro.

Isa acorda ofegante. A coberta úmida tapava apenas suas pernas. Ela encara o cômodo do instituto, seu novo quarto.

Acalmando sua respiração, Isa levanta da cama e ruma em direção a cozinha para beber um copo d’água e esfriar a mente.

— Que droga! — Ela puxava os fios de seu curto cabelo que teimavam em grudar em sua testa.

Seus passos calmos e silenciosos permitiram a jovem loba ouvir uma conversa na biblioteca do professor Muller, sem alertá-los de sua presença. Opta por ficar ali mesmo, onde sua audição lupina permitia ouvir os dois homens sem ser detectada pelos ouvidos dos dois.

— Então está me dizendo que corpos estão simplesmente sendo encontrados ao redor da cidade?

— S-sim senhor. Ao que aparenta foram mortos por lobisomens.

— Temos que descobrir quem exatamente são esses idiotas que estão perturbando a nossa paz. Se a Ordem Oculta souber de algo assim, seremos responsabilizados. — Isa ouve os batimentos cardíacos exaltados do professor Muller.

— Senhor, pode ser algo envolvendo os boatos que Ricardo ouviu nas estradas. 

— Se o que Ricardo ouviu for verdadeiro, temo que tenhamos entrado em uma situação complicada. Se o irmão morto de Nicola for o alfa dos quatro jovens, teremos que nos preparar para qualquer coisa. Nicola é um desestabilizado. Só de pensar nas loucuras que aquele idiota pode fazer… 

Isa volta a passos curtos para seu quarto. Sua mente à mil tentava compreender a situação.

O irmão de seu alfa estava atrás deles, mas por quê?

 

Isa permanecia encostada em uma árvore, distante da mansão do instituto. Havia acordado mais cedo que os outros alunos, na verdade não conseguiu pregar os olhos em nenhum momento. Sua mente pensava nas possibilidades do futuro, e a cada pensamento sua preocupação aumentava.

A garota olha alguns dos alunos que saíam prontos para começar mais um dia de treinamento. Isabela procura seus irmãos entre o enorme grupo. Erik e Diego aparecem e logo localizam sua irmã afastada.

Em um menear de cabeça, indica o interior da floresta.

Isa procura o lugar mais afastado do instituto, não podia ser tão distante, pois teriam que voltar para o treinamento, mas deveria ser longe o suficiente para não serem ouvidos.

Erik desce uma inclinação, deslizando sobre as folhas secas das árvores que caíam serenamente no chão. Diego e Felipe permaneciam em seu encalço.

— O que aconteceu? — Erik se apressa.

— Temos um problema.

Os três permanecem em silêncio.

— Ontem à noite ouvi uma conversa do professor Muller com um outro homem. Eles falaram sobre algumas mortes ao redor da cidade e o possível envolvimento do irmão de Victor nessa história.

— E o que a gente tem a ver com isso? — Diego pergunta.

— Eu não sei. Só achei que era algo para nos preocuparmos. Não sabemos como esse Nicola é. 

— Isa tem razão. Se alguém matasse um de nós, qual seria o primeiro pensamento que passaria em sua mente? — Erik questiona e Diego apenas o encara sem entender. — Vingança. Pelo menos eu caçaria o desgraçado que matou um dos meus irmãos.

— Então esse tal de Nicola está atrás de vingança? Mas nós não matamos Victor. — Felipe diz, assustado.

— Podem não ter matado, mas vocês pertenciam à matilha do irmão dele. — A voz do Professor assusta os jovens que abruptamente encaram-no no alto de uma pedra. — Nicola pode matá-los por simplesmente terem deixado o alfa de vocês morrer. Não sei exatamente o que ele procura, mas boa coisa não é. 

— Então ele virá para nos matar? — Diego rosna, não escondendo seu temor. 

— Talvez sim, ou talvez não. Não sei o que se passa pela mente daquele desmiolado. — Jhonatan bufa. — Eu queria resolver isso sem envolvê-los, mas já vi que será difícil.

— Nós não queremos causar problemas.

— Tarde demais, Erik. A partir de agora seus problemas também são nossos. Iremos resolvê-los juntos.

Os quatro jovens entreolham-se.

— E quanto ao Misael? — Felipe argumenta, preocupado.

— Não precisam se preocupar com o garoto. Ele ficará bem distante desse problema. Nicola virá atrás de vocês, ele não vai perder tempo com um humano.

Os irmãos reconhecem a lógica por detrás do argumento. Talvez o melhor a ser feito, seja deixá-lo o mais distante possível do mundo sobrenatural.

— O que faremos agora? — Erik se pronuncia.

— Nos prepararmos para qualquer coisa. Irei alertar a Ordem Oculta sobre os ocorridos, enquanto isso, continuem o treinamento. 

Os quatro concordam, voltando para o instituto determinados a enfrentar o que o destino reservava para a família.


 

Esmeralda, Rio Grande do Sul.

Os gritos dentro do bar longínquo, em uma noite de geada, revela a existência de pessoas na rodovia deserta. Depois de horas viajando, Nicola chega a sua penúltima parada, antes de ir atrás dos transformados de seu irmão.

Seu sobretudo amarronzado cotidiano pendia sobre seu corpo e em um único movimento deposita seu boater sobre a cabeça.

— Hummm… — Lívia tentava gritar, porém sua boca permanecia fechada com um esparadrapo, o que abafava suas tentativas de pedir socorro.

Nicola caminha para perto da garota.

— Deixe eu te ajudar. — Lentamente ele retira o esparadrapo. — Bem melhor, não acha?

Lívia o analisa. Ela pergunta a si mesma se a oportunidade para gritar era uma boa ideia, ainda mais diante do seu sequestrador. As possíveis consequências desse ato passavam na sua mente, fazendo-a engolir a seco.

— Sabe, estamos muito distantes da população neste momento. Mesmo se alguém te ouvir, só dará mais diversão para os meus homens, mas sei que a sua espécie ama se agarrar à esperança, e por isso estou te dando a oportunidade. Vai. Grite. Chame por socorro. — Nicola incentiva. Lívia via o deboche em suas palavras, e querendo ou não, cada segundo que passava ao lado daquele homem, mais maldade percebia naquele olhar.

E por isso gritou.

— SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDE! Por favor… — As lágrimas escorriam pela sua face nas duas últimas palavras.

Nicola começa a rir e volta a tapar a boca da garota.

— Consegue ouvir alguém? Não? Pois é isso que a sua esperança te dá. Nada. E seu namoradinho breve saberá isso. — Ele pisca enquanto sorria e sai da van ajeitando seu sobretudo.

— Estão todos aí. — Um homem posiciona-se ao lado de Nicola e olha para uma taberna velha de madeira. 

Era um imóvel grande, porém, devido ao tempo, a madeira já dava sinais de podridão. Nicola caminha até a varanda subindo os dois degraus úmidos, fazendo a madeira sob seus pés rangir raivosamente.

Nicola desvia de uma garrafa que cai sobre seus pés, transformando-se em inúmeros cacos. Seu olhar sobre sua bota molhada pela bebida vai de encontro a um bêbado que cambaleia saindo do bar. Percebendo que era apenas um humano, Nicola apenas ignora a fútil presença dele e adentra o local.

O falatório cessa e os olhares sobre si analisam cada movimento calculado do homem. Não havia nenhum lobisomem no local que não conhecia Victor, o que os leva a pelo menos terem ouvido sobre ele.

Nicola, acompanhado de um grupo de subordinados, se aproxima do balcão onde Ícaro, antigo membro da matilha de seu irmão, o encarava seriamente com suas mãos sobre a bancada.

— Veja se não é o pequeno Nicola. — Ironiza o dono do bar.

— Faz um tempo, Ícaro. Aparentemente a idade vem acabando com este local. E não só com ele, não é? — Nicola ri, olhando para a aparência de Ícaro. 

— O que quer aqui? 

— Creio que já devam ter ouvido sobre a morte de meu irmão. 

— E deixa eu adivinhar. Você procura vingança.

Nicola passeia pelas mesas encarando os lobisomens que tentavam decifrar suas intenções. Sua mão dentro dos bolsos escondia o tique em seus dedos, provocado pela lembrança de seu irmão morto sobre o chão do hotel abandonado.

Ele ri e volta a olhar Ícaro.

— Eu quero que vocês, sem exceção, se unam a mim.

Alguns lobisomens gargalham da proposta feita pelo homem. 

— E o que ganharíamos com isso? O que você pode nos oferecer em troca, além do seu dinheiro? — Ícaro questiona com um sorriso de escárnio no rosto.

— Eu não me importo em pegar o dinheiro. — Um homem no canto escuro do bar declara, bebendo sua cerveja.

— Não sejam idiotas. A Ordem Oculta os mataria só de saber o que pensam em fazer. Se Victor ainda estivesse vivo, provavelmente a própria Ordem iria matá-lo por causa das loucuras que estava fazendo. Seja quem for, poupou um trabalho a eles. — Ícaro volta para a bancada de bebidas atrás de si.

Em apenas um movimento, os cabelos grisalhos de Ícaro são puxados, fazendo-o cair sobre a bancada. Dois homens seguram os braços do lobisomem, que tentava se desvencilhar do contato. 

Alguns lobisomens ameaçam defender seu anfitrião, porém outros membros do grupo de Nicola colocam-se no caminho, mostrando suas garras afiadas.

Ícaro observa um homem entregar uma machadinha para Nicola, que caminhava em direção à bancada. O metal prateado brilha ao ser tocado pela luz forte do teto, enquanto Nicola observava o pescoço aberto e pronto para ser degolado.

Em movimentos contínuos e ensandecidos, a machadinha desce em direção ao pescoço do lobisomem, separando o membro superior do restante do corpo. Em segundos o resistente tronco de Ícaro já amolecia, perdendo as sinapses neurais que o controlavam.

Sangue jorrava pelo chão e os lobisomens presentes no local olhavam enfurecidos e  surpresos.

— A Ordem isso, a Ordem aquilo… Vocês deixaram ser dominados, e isso me irrita! Irritava meu irmão. Ver que a nossa própria espécie está se submetendo a um simples acordo. E veja a consequência. Se tornaram fracos! — Saliva saía junto com suas palavras cuspidas no surto de raiva. 

Nicola entrega  a machadinha para um de seus seguidores e recompõe a postura, aliviando sua expressão.

— Sei que é difícil para vocês reprimirem as transformações, ainda mais em dias de lua cheia, mas eu os convido a mostrar a nossa existência para este mundo, mostrar aos humanos que somos superiores e que eles não passam de vermes imundos. Venham até mim e lutem ao meu lado. — Se aproximando do rapaz que portava a machadinha, Nicola sussurra ao pé de seu ouvido: — Mate quem se opor. 

Nicola observa alguns olhos alterarem a cor e corpos se posicionarem na defensiva. Sussurrar não evitou que os lobisomens presentes não escutassem a ameaça. Seu sorriso cínico aumenta ao ouvir os barulhos de luta e rosnados atrás de si ao caminhar em direção à saída.

O homem para sob o pé da pequena escada da varanda, seus olhos encontram a lua minguante entre as nuvens escassas do inverno.

A lembrança do cadáver de seu irmão o assombra. A raiva faz seu sorriso sumir. Os lobisomens de seu irmão pagariam por tê-lo deixado morrer, isso ele garantiria.

Ele pisa forte no degrau olhando furiosamente para a van mal estacionada na grama do acostamento da rodovia. 

Ele ainda tinha uma última parada. Um dos piores lugares para um lobisomem ou qualquer criatura sobrenatural  ir.

 

 

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