Caçador – Capítulo 9: Aliadas

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Aliadas


A leveza a qual eu estava sendo submetido era reconfortante. A sensação de calma que a água trazia naquele momento transbordava meu coração de uma melancolia subjacente. Estranhei o fato de relembrar determinados sentimentos que estavam presentes comigo em momentos ruins e que lutava para esquecer.

A imagem da lua ao céu já evidenciava o fim do longo túnel. Os fracos feixes de luz impulsionam meu corpo como se torcessem para que eu chegasse à superfície. A pesada espada em minha mão direita só piorava o meu nado desajeitado.

O barulho da queda d’água bagunçava minha audição e ao alcançar o exterior da caverna subaquática, inspiro todo o ar que precisava enquanto caço freneticamente meus dois parceiros.

Kalina encontra meu olhar, expressando surpresa e certo alívio em me ver. Movimento-me na tentativa de chegar até as rochas, no entanto, sinto meus joelhos arrastarem em algo duro. A confusão em minha mente é maior que qualquer teoria que eu tento formular para a situação. Inacreditavelmente, em um passo de mágica talvez, o fundo da piscina não era mais fundo… Qualquer profundidade ou acesso subaquático havia desaparecido.

Levanto-me devagar, encarando a superfície evidente pela transparente água. A profundidade que antes me engolia, agora mal cobre meus joelhos.

Ouço Kalina falar rapidamente no telefone, antes de desligá-lo.

— Misael. — Sua expressão era absurdamente preocupada.

— Onde está David? — Recomponho-me da confusão e ando em direção às pedras onde deixei minha mochila.

Kalina encara curiosamente a espada em minha mão.

— Isso é…

— Sim. É a tal arma que irá nos ajudar. Não sei como, mas… — Fito a espada alcançando o ferimento ainda aberto em meu antebraço. Percebo pequenos filetes de sangue que escorriam diretamente para a pedra vermelha.

Rapidamente transfiro o cabo para a outra mão.

— Ainda não me respondeu.

— David foi atrás de ajuda.

— Como assim ajuda? Pra que?

— Para você! Ficamos aqui por três dias esperando você voltar, esperando qualquer sinal de vida! O que esperava que fizéssemos? — Kalina estava estressada e a única coisa que rodeava a minha mente era o fato de ter passado dias enquanto pareciam horas dentro da caverna.

— Três dias?

— Sim, três longos dias.

— Não é possível.

— Do que está falando, Misael?

Observo a água cair violentamente na piscina.

— Parece que não precisará mais de ajuda. — Viramos em direção à voz de David, que permanecia encostado em uma árvore.

— Pensei que tivesse ido buscar ajuda.

— Chamei o corpo de bombeiros. E como o nosso amigo está mais vivo do que nunca, sugiro que andemos logo. A não ser que queiram explicar o motivo de terem chamado as autoridades em vão.

Apresso-me em juntar minhas coisas dentro da mochila e caminho em direção a trilha.

— Conto tudo para vocês quando chegar em casa. Vamos.

Os dois, sem questionar, me seguem apressadamente.

Kalina estaciona o carro na garagem. Durante o percurso me dediquei a pressionar o ferimento da melhor forma possível.

A espada permanecia sobre o acolchoado do banco traseiro, enrolada em um tecido qualquer que encontrei na mala. Ao lado, David encarava a arma como se a mesma fosse um fantasma.

— David, pegue a espada. — Abro a porta e ando em direção a minha casa. A prioridade neste momento era impedir que a ferida se tornasse um problema maior.

Os dois lobisomens me seguem, fechando a porta.

Deposito a mochila sobre a mesa e retiro apressadamente as duas pistolas do interior. Procuro algumas compressas limpas que ainda podia usar. Retiro tudo que  estava na mochila e espalho sobre a mesa, e mesmo assim não encontro nenhuma compressa.

— Merda. — Resmungo irritado.

— Hey. Calma. — Kalina se aproxima e me direciona para uma das poltronas da sala. — Sente-se aqui. Me diga onde está o Kit de primeiros socorros.

Bufo.

— No armário da cozinha.

Kalina vai até a copa, enquanto retiro as gazes ensanguentadas.

David coloca a espada sobre a superfície de madeira da mesa e retira o tecido que envolvia a arma.

— Pode parar de encarar a espada como se ela fosse te morder? — Digo entredentes.

Kalina chega, abrindo a maleta de primeiro socorros. David apenas lança um olhar de irritação em minha direção.

— O que diabos aconteceu lá dentro?

— Eu… Eu não sei. Havia alguma coisa lá dentro.

— Como assim uma coisa? — David se aproxima com seus braços dobrados sobre o peito.

— Eu acho que aquela tumba não foi feita para esconder a arma ou algum corpo dos heróis da Esquadra Vermelha.

Resmungo um “ai” para Kalina que começara a costurar os buracos na minha pele.

— O que quer dizer com isso? — A garota me olha interrompendo por um momento a sua tarefa.

— Acho que quando retirei a espada da pedra, alguma coisa escapou.

— Tá de brincadeira, né? — David descruza seus braços e me olha preocupado.

— Não. Ai! — Kalina dá o último ponto na ferida e retira as luvas ensanguentadas da mão. — Pela minha percepção de tempo, passei apenas duas horas naquele lugar, no máximo. Mas vocês me dizem que se passaram dias desde que entrei lá. Só demonstra que aquela tumba foi feita para uma finalidade maior do que pensávamos.

Olhamos para a espada na mesa e permanecemos em silêncio por alguns instantes.

— E agora? — Kalina questiona. — O que iremos fazer?

— Temos a arma. Precisamos descobrir como ela pode ajudar. Algum de vocês sabe usar uma espada? — Ergo uma sobrancelha para a dupla.

— É sério isso? — David caminha para a bancada da cozinha. — Iremos esquecer o fato de um possível monstro centenário ter escapado?

Levanto-me e encaro David com Kalina ao meu lado. Por sorte, a garota toma a frente e começa a acalmar seu colega.

— David, escuta. Não podemos fazer nada agora com o que quer que tenha escapado. — Desvio minha atenção da conversa e caminho em direção a mesa massageando minha têmpora. — Precisamos focar no agora e descobrir que tipo de mágica essa espada possui.

— Vamos perguntar ao Arthur aí, ele quem retirou a espada da pedra.

David provoca ironicamente, porém minha atenção estava fixada na espada.

— É melhor vocês darem uma olhada nisso.

Ambos caminham para o meu lado.

Se eu contasse para alguém, fora os dois lobisomens ao meu lado, sobre o que estava acontecendo, definitivamente seria dado como louco.

A espada estava se liquidificando. Lentamente, o líquido espesso caminha pela mesa, carregando a joia vermelha.

— Ela está indo para as armas.

Acompanhamos o líquido começar a se apossar das duas pistolas. A joia se parte em duas, fixando-se em cada pistola.

— Mas que diabos! — David murmura.

— Parece que não precisaremos ter aulas de esgrima. — Comento vendo o restante da espada “possuir” minhas pistolas.

— Isso foi…

— Assustador. — David complementa a fala de Kalina, fazendo com que olhemos para ele. — O que foi?

— Você é um lobisomem, não deveria se assustar com esse tipo de coisa. E eu iria falar interessante. Foi extremamente interessante.

David revira os olhos.

Ando até a mesa e seguro uma das armas.

— Precisamos descobrir o que ela faz.

— Sim.

— E você precisa aprender a matar lobisomens.

Encaro a garota com franzindo minha testa.

— Oh sim. Claro. — Desvio o olhar e deposito a arma ao lado da outra.

— Ótimo. Amanhã iremos iniciar seu treinamento.

— Sério isso? Já se passaram três dias. Nicola deve estar perto.

— Mais um motivo para iniciarmos o quanto antes.

Fico quieto por um momento analisando a situação.

— Tudo bem.

— É melhor ir dormir. Nós já estamos de saída.

Confirmo com um aceno de cabeça e acompanho ambos saírem.

Dou mais uma olhada para as pistolas sobre o móvel antes de me lançar sobre o sofá e fechar meus olhos.

— Como ele está? — A voz de Benjamim ecoa abafada pelo viva-voz do celular de Kalina.

— Ele está bem. Não se…

— Como não vou me preocupar!? — A gravidade da voz do homem faz os dois jovens se calar. — Como querem que eu esteja depois de passar três dias sem saber se meu sobrinho estava vivo? Eu coloquei a guarda dele sob responsabilidade de vocês, não ousem falhar.

— Sim, senhor.

Benjamim desliga o telefone.

Depois de deixarem a residência de Misael, a dupla caminhou para um beco mais próximo a fim de enviar o relatório para Benjamim. Ambos sabiam que o homem não estava alegre devido à falha dos dois “guardas costas”.

— Não era melhor ter falado sobre a espada e a sua insistência em ajudá-lo nessa história de matar o Nicola? Se esqueceu das ordens iniciais dele?

— Não seja idiota, claro que não esqueci. Só acho que será bom o Misael estar preparado caso Benjamim não consiga impedir o Nicola.

David balança a cabeça, inconformado com as palavras de sua amiga.

— Para falar a verdade, acho que nem ele sabe como fazer isso.

— Como assim?

— A voz dele. — David olha apreensivo para Kalina. — Havia mais do que apenas frustração pelo sobrinho.

— Merda… Odeio quando você faz isso. — David passou tempo demais com Kalina para não duvidar de suas habilidades.

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