Caçador – Capítulo 3: Cicatrizes

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Cicatrizes

— Vocês são uns molengas! — Diego comemorava a sua vitória por ter comido o trigésimo pedaço de pizza na noite, enquanto a gente ria da sua dancinha da vitória.

Fiquei no quinto pedaço, não posso comparar o metabolismo humano com o de lobisomens. Há uma enorme diferença de velocidade na digestão. Levem em conta que a minha é a mais lenta possível.

Deposito o prato sujo na pia. Viro-me para o grupo, escorando minhas costas na bancada.

— Se eu não tivesse comido mais cedo, não teria perdido. — Arqueio uma das sobrancelhas devido ao comentário de Felipe. Sabíamos que dentre os quatro, ele era o menos resistente.

Caímos na gargalhada, deixando-o vermelho de raiva.

Suspiro fundo enxugando uma lágrima no canto dos olhos.

— Acreditamos em você, Felipe. — Erik deixa uma risada abafada sair, fazendo o garoto ficar mais vermelho ainda.

— Misael, você disse que tinha algo de importante para nos dizer. — Isadora caminha até ao meu lado e deposita seu prato na pia, semelhante a mim.

Todos permanecem em silêncio.

Felipe disfarça se movimentando na cadeira, fingindo prestar atenção no que eu falaria, contudo, sei que na verdade estava aproveitando o momento para se livrar da atenção de seus irmãos.

— Diego… Lembra do dia em que chegamos aqui? — Não deixo de passar os olhos pelas caixas espalhadas pela sala. Faz duas semanas que nos mudamos e não conseguimos desempacotar nem metade das coisas.

— Hum… — Reviro os olhos, rindo devido a sua fraca memória.

— Você perguntou o motivo de termos vindo para um fim de mundo, como Queimada.

— Ainda estou me perguntando isso. É muito frio… — Cerro meus olhos e encaro-o.

— Pare de brincadeira Diego, o único que tem o direito de reclamar do frio é Misael, não você. — Isadora adverte.— Não ligue para ele, continue.

— Há um motivo especial de termos vindo para cá. Não preciso dizer o quão difícil vem sendo para vocês a cada lua cheia que passa. — Eles desviam o olhar, incomodados. — E por isso, eu achei um meio de ajudá-los. Aqui.

Confuso, o grupo me olha, esperando pela explicação.

— Há um professor na cidade. Ele se chama Jhonatan Muller. Junto de sua esposa, gerenciam um instituto particular para determinadas famílias de Queimada. São famílias de…

— Lobisomens. — Isadora compreende e aceno positivamente.

— Sem dúvidas nenhuma, o Professor Muller sabe lidar com jovens que estão passando pela fase de controle. Conversamos hoje mais cedo e ele aceitou vê-los. — Termino tentando entender o que se passava em suas mentes.

— Tudo bem, nós iremos. — Isa fala pelo grupo, não deixando de olhar os outros.

Deixo o ar preso em meus pulmões sair. Percebo o tamanho da preocupação no longo suspiro.

— Ótimo. Amanhã pela tarde saímos. — Era um momento de comemorar internamente pelo passo dado, porém, simultaneamente sinto uma leve tristeza. As palavras do professor Muller vieram, como se o mesmo estivesse ao meu lado neste exato momento.

“… Ao fazer isso, estarão adquirindo uma nova família. E por isso terão que colocar a matilha sempre em primeiro lugar…”

Aperto a beira da pia.

— Vou me deitar. — Rodeio a mesa da cozinha. — Deixem a louça, amanhã pela manhã eu lavo. Boa noite.

— Boa noite. — Recebo um cumprimento resmungado e fora de ordem.

Paro na escada e escuto-os conversando.

— Acham mesmo uma boa ideia? — Felipe pergunta.

— Quieto, ele ainda não subiu… — Sorrio.

Droga de audição.

Continuo a andar.

É melhor deixa-los refletir…

Entro no meu quarto bagunçado. Observo um vidro sobre as roupas emboladas na mala aberta.

Vou até o banheiro e ligo a torneira da banheira. Retiro a minha blusa tomando cuidado para não prejudicar o curativo sob ela. Lentamente retiro a proteção do ferimento, deixando-o livre.

Encaro meu reflexo no espelho.

Esteticamente, não devia ser atraente um garoto magro possuir tantas cicatrizes. 

Pego o recipiente transparente sobre a cama.

Despejo parte do conteúdo na banheira, deixando a água quente se unir ao pó da lavanda. O líquido toma uma tonalidade menos clara.

Termino de me despir e entro lentamente na água, arfando ao sentir o toque ardente com minhas feridas.

Desligo a torneira, e tombo minha cabeça fitando o teto. Recordando do motivo de ter que apagar o meu odor todos os dias.

A voz que me levava a ter pesadelos todos os dias na madrugada ecoa em minha mente como um som que ecoa em uma caverna.

“Ele não descansará enquanto não ter o coração de vocês em sua mão.”

Coloco minha cabeça entre minhas pernas e soluço devido ao medo que, inevitavelmente, era-me familiar.

“Meu irmão matará cada um de vocês…”

— Merda. — Bato na lateral da banheira.

***

São Paulo
Dias atuais

Lívia caminha tranquilamente no campus da Universidade de São Paulo. A garota havia passado na instituição em primeiro lugar juntamente ao seu “namorado”, ou era assim que ela gostava de chamar Erik Goulart quando ainda estava presente em sua vida.

Hoje ela ainda persistia em sua formação acadêmica. Não seria por causa de alguém que iria estragar o seu futuro. Sua mãe fazia questão de lembrá-la disso todos os dias.

No entanto, a dor de ser abandonada não desapareceria tão fácil.

Depois da morte de seus pais, Erik começou a se comportar de forma estranha. Na verdade, Lívia percebeu essa mudança muito antes do incidente com os pais de seu namorado.

Suas ausências nas aulas, as desculpas para não estarem juntos, o aumento da impaciência… Tudo estava contribuindo para o término do relacionamento do casal.

Lívia para em frente ao portão principal da faculdade. Encara a abreviação do nome da instituição e recorda do momento em que Erik decidiu ir à mesma instituição com ela.

Erik vinha de uma família nobre e aspirante a herdar a gestão de uma das maiores empresas do país. Mesmo tendo condições de pagar um curso particular, optou por estar ao lado de “sua garota”.

Lívia sorri ao lembrar-se do apelido.

O motivo de tudo o que ocorreu ainda perturbava a sua mente.  Ela o amava e ele demonstrara o mesmo. Inúmeras vezes.

— O que aconteceu, Erik?

Erik comentou algo sobre uma cidade no interior do sul do país. Explicou vagamente que precisava viajar e morar com alguns parentes distantes por um tempo.

Lívia tentou, em incontáveis momentos, entrar em contato com o rapaz. Porém, de alguma forma, não conseguia. Foi em sua última tentativa de contato pelo seu número que ela percebeu que havia sido abandonada. Até mesmo as redes sociais estavam inativadas.

— Boa noite. — Lívia se assusta e vira bruscamente em direção ao dono da voz.

O homem a sua frente olhava para ela com um sorriso no rosto.

— Boa… Noite. — Sua voz sai falha.

— Desculpe-me. Não queria assustá-la. — O homem sorri mais uma vez, tentando transmitir confiança. — É que estou um pouco perdido. Meu primo estuda nessa Universidade e eu não sei como contatá-lo, por algum motivo não consigo ligar para o número dele. Queria saber onde exatamente fica a secretaria.

Lívia retoma sua postura calma.

— E quem seria o seu primo? Talvez eu o conheça, e assim lhe ajude a encontrá-lo. — Ela sorri.

— Ele se chama Erik Goulart. — O corpo da garota paralisa e como consequência, acaba rindo da situação.

— Acho que dificilmente encontrará seu primo por aqui. — O homem fica confuso. — Há meses o Erik não vem estudar. Não depois de se mudar para o sul.

— Não brinca. Estive procurando por eles por longas semanas! — Lívia se incomoda com a frustação do desconhecido.

De alguma forma Lívia percebeu uma leve encenação nas suas palavras, ainda mais diante de um olhar que proporcionou um calafrio em sua espinha.

— Bem… Queria que fosse mentira, mas é a pura verdade. Não se frustre. Pelo menos você apenas não sabe onde ele está. Eu tive que engolir a desculpa de morar com os parentes distantes.

— Não conheço nenhum parente do sul… — O homem coça sua barba. — Ele pelo menos lhe disse para onde iria? Qual cidade? — Aquele olhar. De alguma forma, os olhos daquele homem a incomodavam.

— Acho que era algo parecido com… Queimar… Não, não. Queimada. Era Queimada.

— Entendo. — Ele começa a andar em partida.

— E qual seria o seu nome? — O homem para subitamente e gira os calcanhares, fitando a garota. — Para… Caso ele entre em contato, ou de alguma forma apareça.

— Ah. Não se preocupe. Eu definitivamente o encontrarei. — Diferente de antes, o sorriso do incógnito homem adquiriu uma forma fria e sombria.

— Ah sim, claro. — Lívia abaixa a cabeça com raiva por ainda possuir esperanças em entrar em contato com seu ex-namorado. — Pode mandar um recado para ele quando o encontrar? — Em uma leve pausa, Lívia organiza as palavras em sua mente. — Diga a ele que ainda o amo, e que o odeio por isso.

O homem começa a rir.

— Não se preocupe. — O coração de Lívia dispara ao ver o olhar do homem. — Você terá a oportunidade de falar pessoalmente.

A garota dá dois passos para trás, porém acaba por bater em algo, ou melhor, em alguém. Um homem corpulento e maior que os dois a encarava misteriosamente, enquanto segurava seus ombros.

— Temos uma longa viagem pela frente. — Lívia fita o desconhecido mais uma vez.“No que você se meteu, Erik?”


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