LET’s Go Home! – Capítulo 2

Capítulo 2

 

Poucos instantes após Ana sair da cápsula, o cheiro de queimado se intensificou e a fumaça negra e densa espalhou-se por todo o jardim. Sons de circuitos elétricos falhando podiam ser ouvidos. O Pinscher dos Braga afastou-se do transporte espacial e correu para debaixo de uma cadeira na varanda.

Ao perceberem que a cápsula estava a ponto de explodir, as duas também correram e tentaram se proteger atrás das pilastras. A explosão prevista não ocorreu — ao contrário, a cápsula implodiu em chamas após um estrondo forte. O fogo consumiu a si próprio, deixando apenas uma grande mancha negra sobre a grama.

Antes de irem embora, Lúcia e a babá conferiram se o cachorrinho estava bem. Este último já tinha voltado a si, correndo em círculos e latindo em um tom agudo. Com a consciência aliviada, deixaram a casa, dirigindo-se a passos largos à residência da menina mais nova. A pele das duas estava colante e coberta de poeira preta, aumentando ainda mais a sensação térmica de uma noite que já era quente.

— Meus joelhos estão moles feito geleia. — comentou Lúcia, ao virar a esquina da rua que dava para os fundos de sua casa.

— Nem me fale, e essa poeira vai me render uma semana de crise de rinite. — respondeu a babá, enquanto coçava o nariz com o polegar.  — Espero que essa coisa funcione. — disse, a mão tocando o bolso onde o dispositivo se encontrava.

Vai funcionar. — Lúcia acenou. A menina sentia-se em um filme, onde ela era figurava como a heroína principal. Ela salvaria a androide e as duas se tornariam melhores amigas. Depois, ela seria condecorada com medalhas concedidas por organizações interestelares e se tornaria uma das poucas humanas a saber sobre a extensão da vida no universo.

Seus devaneios foram interrompidos pela chegada à entrada do quintal de casa. Empurrou o portão com violência, assombrando-se mais uma vez com a visão de um robô na sua casa. Sentiu a temperatura do ar subir ainda mais, fazendo a poeira negra arder em sua pele.

Lucas, seu irmão, veio correndo para seu lado, perguntando se elas conseguiram encontrar o tal dispositivo.

— Nós conseguimos. — respondeu Ana. — Agora, a gente só precisa descobrir como vamos usá-lo. Ela acordou mais alguma vez enquanto estávamos fora?

— Não. — respondeu o menino, balançando a cabeça. — Ela só fica “piscando” e mudando de aparência o tempo todo.

— Provavelmente deve ter alguma entrada onde a gente possa colocar isso. — disse a babá, retirando o aparelho de sua mochila. Imediatamente, o equipamento diminuto começou a emitir uma luz vermelha, que foi se intensificando à medida que Ana se aproximava da robô.

— Acho que o dispositivo tá reconhecendo ela! — Lúcia afirmou, também aproximando-se da androide.

A aparelhagem escorregou da mão de Ana e abriu-se no ar, na forma de uma estrela e, em seguida, girou em volta da androide, escaneando toda a sua estrutura com um raio de luz vermelha intensa. Depois, duas garras metálicas se desenrolaram do dispositivo, acoplando-se no tórax robótico.

O procedimento levou em torno de sete minutos. A androide parou de trocar de interface, estabilizando-se em sua forma original. Lúcia percebeu que as articulações dela eram conectadas com fios néons protegidos por uma fina camada do que parecia ser algum tipo de vidro ou plástico. A robô permaneceu inconsciente durante todo o processo, e o trio começou a se questionar quando ela acordaria. Lúcia pensou que talvez a formatação fosse o equivalente à uma cirurgia de alta complexidade em um ser humano, o que levaria a androide a adormecer por mais longas horas.

As previsões de Lúcia, no entanto, mostraram-se estar completamente erradas: o tronco metálico ergueu-se em um tranco, fazendo com que o trio desse um pulo para trás. A articulação néon do pescoço moveu o rosto liso e brilhante da robô de um lado para o outro, lembrando um movimento de reconhecimento, a ausência dos globos oculares impedia maiores conclusões.

— Atmosfera: 78,09% de nitrogênio, 20,95% de oxigênio, 0,93% de argônio. Terra. O único planeta do Sistema Solar compatível com formas de vida feitas a partir do carbono.  — Uma voz ecoava da androide, com um som mais eletrônico do que na sua aterrisagem. — Três humanos. Duas crianças e uma adolescente. — A face inexpressiva virou-se para o trio.

Lúcia saiu de seu momento de estupor momentâneo e deu uma leve gargalhada:

— O universo inteiro concorda que você ainda não é adulta, Ana.

— Ah, pelo amor de Deus! Ela ainda deve tá com algum curto-circuito no sistema. — respondeu Ana. — Eu fui adulta o suficiente para salvar sua vida, tá legal, ô boneca de lata!

— Eu sinto muito se cometi algum erro e a ofendi, querida amiga. — respondeu LET. — Então foram vocês que me salvaram? Desculpem-me, a formatação geralmente causa perda da memória recente. Meus mais sinceros agradecimentos, habitantes do pálido ponto azul.

— C-como você consegue falar nossa língua?! — inquiriu Lucas, aproximando-se com passos tímidos.

— Sou programada para saber todas as línguas desta galáxia, por segurança. — respondeu LET, enquanto se levantava da grama. — Acredito que vocês saibam onde está minha cápsula.

— Eerr… Temos péssimas notícias sobre isso. — respondeu Lúcia. — Ela simplesmente pegou fogo e explodiu! Boom!

— Boom…?

— Boom!

— Bem, acho que não há razão para se preocupar. — LET falou mais para si mesma do que para o grupo. Minha família com certeza vão me encontrar, mais cedo ou mais tarde.

— Sua família? Eles são todos robôs como você?

— Não, na realidade, somos todos de espécies diferentes!

— Como você tem certeza de que eles virão te buscar?! Eles podem não ter conseguido se salvar! E se todos morreram, tu tá presa aqui com a gente pra sempre! — disse Lucas, enquanto andava em círculos e gesticulava com as mãos.

— Ai, Lucas, cala a boca! Você está assustando a LET. — disse Lúcia. — Não se preocupe, LET, sua família vai voltar!

— Eu que digo para não se preocuparem, pois as estatísticas são mais do que favoráveis. — respondeu a androide. — Em breve, eles virão me buscar.

— E como é o seu planeta? Para onde vocês estavam indo? É verdade que os alienígenas se comunicam com todos os líderes do Estado? Os desenhos nos milharais são de vocês? Já fizeram experimentos com humanos?  O céu do seu planeta é roxo? E como é a comid-

— Lúcia, você vai fazer o processador da LET queimar desse jeito! — disse Ana. — Uma pergunta de cada vez, por favor.

 

— Meu planeta é um tanto quanto diferente da Terra… Quanto aos “alienígenas” a que você se refere – minha família, eles tem um trabalho muito importante na galáxia. Eles são como… como.. — a androide parou por um momento. — Como a polícia! Só que um pouco diferente.

— E vocês estavam indo prender alguém? — perguntou Lucas.

— Investigar, na realidade. Um fornecedor de remédios é suspeito de subornar cientistas para mentirem sobre os efeitos neurológicos colaterais de um novo antibiótico. Tivemos dois casos de pessoas no nosso planeta que tomaram o remédio e começaram a agir de forma peculiar… Sendo assim, nós fomos tirar à limpo. Nossa nave aproximava-se da Lua quando fomos atingidos pelo asteroide.

Os quatro continuaram conversando noite adentro. A androide contou sobre o Planeta Y*, onde as noites eram mais longas que os dias, e o frio parecia incomodar bastante as espécies de vida orgânica. Falou também sobre os cristais telepáticos que se acumulavam nas geleiras e se metamorfoseavam nos pensamentos de seus visitantes. A androide não sabia nada sobre os milharais, e garantiu que sua família não mantinha nenhum tipo de relacionamento com a Terra – nem faziam experimentos humanos. Não podia afirmar nada sobre outras espécies, entretanto.

As estrelas despovoavam o céu; Ana já não achava que estava sob efeito de narcóticos, Lucas havia perdido a timidez e Lúcia estava completamente fascinada. O grupo só foi interrompido quando o céu noturno começou a clarear, e a curiosidade ia perdendo o cabo de guerra para o sono.

— Vocês precisam ir para a cama. — disse a babá. — Daqui a pouco seus pais estão aqui e eu não quero ter problemas com eles.

— Antes, nós precisamos fazer um pacto. — disse Lúcia. — Nenhum de nós pode contar sobre o que aconteceu nesta noite. Nem para nossa família, para nossos amigos, nem mesmo em confissão.

Após dizer isto, a menina esticou o braço esquerdo com a palma de sua mão virada para baixo. Ana e Lucas sobrepuseram suas mãos sobre as delas. A androide, hesitante, imitou o gesto dos humanos, fazendo com que estes últimos arregalassem os olhos, surpresos. O toque metálico da mão da androide era elétrico e reverberava através de todos, sem causar dor. De alguma forma, Lúcia sentiu que os quatro estariam para sempre conectados a partir daquele instante. Sorriu, olhando para sua mais nova amiga.

— Agora, nós precisamos decidir onde você vai ficar.

Depois de algumas discussões, foi decidido que LET ficaria escondida no quarto de Lúcia, no armário. Já fazia algum tempo que a mãe da garota não remexia em suas coisas, pois queria que a filha se tornasse independente e responsável. Não era o lugar mais seguro do mundo, mas serviria apenas para aquela noite, e depois conversariam novamente, com mais tempo e mais calma.

Lucas subiu para seu quarto eufórico. Sentia que poderia ligar seu videogame e zerar qualquer fase, passar por qualquer chefão o número de vezes que fosse preciso. Nunca pensou que passaria por algo tão extraordinário em sua meninice. Já Ana foi para a sala, onde arrumou a bagunça de mais cedo. Seus ossos doíam e gostaria muito de tomar um banho, mas tinha medo de ser malvista pelos donos da casa. Diante disto, apenas lavou o rosto, os braços e sacudiu a poeira das roupas.

Lúcia poderia explodir. Não conseguia parar de encarar a robô, rindo e sussurrando para si mesma. O rosto da androide era incapaz de revelar a sua confusão interior, diante de postura tão peculiar da criança humana. Sentia-se como uma planta rara em um mostruário de botânica. Se não fosse o poder de Morfeu, a garota passaria o resto da noite fazendo perguntas e mais perguntas; fora derrotada, entretanto.

Enrolada em seu edredom de cor lilás, Lúcia passou a noite sonhando com aeronaves, raios lasers, planetas desconhecidos e toda a sorte de aventuras. Quando acordou, de supetão, pensou que todos os eventos da madrugada anterior haviam sido apenas uma parte de seus elaborados sonhos, até se virar na cama e ser surpreendida por uma menina de sua altura, com cabelos castanhos até a altura dos ombros e olhos cor de mel a encarando do outro lado do quarto.

— LET…? É você?

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