LET’S Go Home – Capítulo 3

Capítulo 3

— LET…? É você? — Lúcia despertou completamente do seu estado sonolento, levantando-se da cama em um solavanco. Ela estendeu a mão para tocar o rosto da robô e arrepiou-se ao sentir a textura de uma pele humana; até mesmo os pelos da face foram reproduzidos milimetricamente.

— Acha que ficou bom? Não quero correr o risco de ser descoberta. — respondeu a androide, dando um sorriso desconfortável enquanto se distanciava e dava uma volta pelo quarto. A criatura parecia observar cada detalhe do seu entorno, como se estivesse o estudando, suas pupilas se dilatavam e contraíam à medida que um objeto chamava ou não o seu interesse.

— Está perfeita! Ninguém nunca vai adivinhar… É tão estranho… — Lúcia se lembrou do antigo rosto metálico e inexpressivo da noite anterior. Agora, este mesmo rosto  demonstrava sentimentos e sensações diversos.

— Minha mudança de aparência a deixou desconfortável? — perguntou a robô, virando-se para a sua interlocutora. — Eu sinto muito, creio que alguns dias serão o suficiente para se recuperar desse primeiro choque.

— Não precisa se desculpar! Falando em dias… Vamos precisar achar um lugar melhor pra você se esconder em breve. — disse Lúcia, coçando a cabeça. — São seis e meia, o que significa que daqui a quinze minutos minha mãe vai bater na porta mandando-me se arrumar pra escola. Às vezes ela dá a louca e bate mais cedo, então precisamos ter cuidado.

— Eu estava pensando em dar uma volta pela cidade… — comentou a robô. — Aprender mais sobre o lugar onde estou. Diga-me, existe algum banco de dados disponível?

— Olha, tem a internet, mas ela não é um lugar seguro para recolher informações, você pode acabar caindo em alguma fake news. 

— Fake news…?

— Sim, notícias falsas geradas por mídias duvidosas e sensacionalistas, compartilhadas até a exaustão por bots com o objetivo de alcançar o maior número de pessoas possíveis. Tive que fazer uma redação sobre isso no começo do ano… Ela tinha ficado perfeita, só que o imbecil do Felipe Braga ficou olhando por cima do meu ombro e me plagiou… Acabei tomando um belo e gordo zerão! Enfim, você entendeu, né?

— Acho que sim. Só não consigo compreender o porquê disso. — disse LET, franzindo as sobrancelhas. 

— É algo muito complicado pra explicar em tão pouco tempo. Olha, é melhor você voltar pro guarda-roupas, minha mãe já, já chega…

— Eu gostaria de aproveitar esse tempo para sair pela saída dos fundos. Já calculei o salto do segundo andar até o chão, é perfeitamente seguro.

— Olha, LET, o salto pode até ser seguro, mas andar sozinha por esse bairro e essa cidade… Não sei não, acho que deveríamos esperar outra oportunidade para explorar tudo juntas. 

A robô relaxou os ombros, parecendo um pouco decepcionada, no entanto, não argumentou mais. Voltou para dentro do guarda-roupas assim que a menina retirou o seu uniforme escolar.

O uniforme de Lúcia era nas cores branca e azul, seguindo o mesmo padrão de quase todas as escolas particulares da região. Às vezes a garota questionava-se se havia um acordo secreto entre os colégios, ou se todo mundo encomendava o uniforme do mesmo lugar. A garota ajeitou a roupa sobre a cama desarrumada e, depois de alguns minutos, ouviu três batidas na porta.

Sua mãe entrou no quarto sem esperar resposta. Sua face estava marcada por olheiras e seu hálito aromado com um cheiro leve de álcool, prováveis consequências da festa da noite passada. Ela arregalou as pupilas ao perceber que a filha já havia acordado, e avisou que a babá já tinha ido para casa. Perguntou se tudo correu bem, e a menina respondeu que sim com um aceno de cabeça; em seguida, a mãe instruiu Lúcia a ir tomar um banho antes que o irmão mais novo acordasse também.

A criança de cabelos pretos tomou um banho rápido, sem gastar muito xampu com as madeixas. Lúcia definitivamente não era uma das grandes contribuidoras da crise energética mundial, e, se todos os seres humanos seguissem seu exemplo, o meio ambiente não estaria em apuros. Após o banho, a menina penteou o cabelo com impaciência, passando o pente com força para desmanchar os nós que, às vezes, saíam inteiros e eram destinados ao ralo da pia.

Assim que Lúcia terminou de se arrumar, ouviu Lucas sair do quarto. O garoto demorou ainda menos para ficar pronto, e em cinco minutos as crianças estavam dentro do carro com a mãe, indo para a escola.

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Poucos minutos após o carro sair da garagem, a androide LET deixou o guarda-roupas. Sentia um pouco de peso na consciência por não seguir o conselho de sua nova amiga, mas esse peso não podia ser comparado à sua intensa curiosidade. Foi até a janela, saltou e, quando deu de cara com o portão dos fundos trancado, usou um pouco de sua reserva de energia para levitar até o outro lado. 

Olhou ao seu redor e não encontrou nenhuma alma viva, apenas sentiu um cheiro forte de gás carbônico. Imaginou que vários automóveis deveriam ter passado por aquela rua naquela manhã, todos levando crianças até à escola.

Andava a passos lentos, observando: Algumas moradias eram quadradas e pequenas, outras retangulares, com vários andares e janelas, algumas gradeadas. Tanto o nível de sofisticação quanto as cores das construções variavam. Quem quer que tivesse planejado aquela comunidade não parecia gostar de seguir padrões. 

Distanciando-se do seu ponto de origem, a androide se deparou com ainda mais diversidade: Longas ruas muradas com poucas casas, repletas de inscrições esquisitas cobrindo suas entradas e paredes. Tentou reconhecê-las com seu tradutor universal, mas falhou.

 As ruas tornavam-se mais cheias: Alguns passantes traziam no rosto uma expressão mau humorada, enquanto outros pareciam ainda estar lutando para se manterem acordados.

Após cruzar umas quatro quadras, LET foi alcançada por uma mistura de sons. Instigada, ela perseguiu os ruídos e chegou ao que parecia ser o ponto central daquela comunidade: Automóveis de médio e grande porte cortavam o asfalto, parando apenas quando as luzes de um grande poste trocavam de cor. Do seu lado da rua, estabelecimentos apinhavam-se uns sobre as outros, com largas fachadas de chapa de alumínio composto coberta por letras garrafais. Esculturas de gesso eram cobertas por roupas e colocadas à frente de algumas lojas. LET inicialmente pensou que fossem androides também, mas após aproximar-se e tentar comunicação, percebeu que eram apenas cascas vazias.

Um vestido reto e longo, em um lilás degradê, chamou sua atenção. Ela esticou a mão até o tecido e o esfregou entre os dedos, sentindo sua textura. Sua experiência foi findada por uma moça de cara feia, que deu um leve tapa na sua mão e disse que se ela não fosse comprar, que não estragasse a costura! 

LET assustou-se com a grosseria da moça, mas não se deixou abalar e seguiu em frente. Continuou andando entre as pessoas, às vezes levando uma cotovelada ou um pisão no pé.  Ao contornar a rua, deparou-se com uma larga praça. Não era arborizada, e seu único destaque era um chafariz tímido, com as mesmas inscrições em preto que havia observado nas casas anteriormente.

Em um dos bancos, um homem deitava-se sob a luz do Sol, debaixo de uma coberta cinza e felpuda. LET adorou a ideia de descansar ao ar livre, e sentou-se ao lado dele, em outro banco. De seu lugar, podia ver lojas menores ainda abrindo e algumas lanchonetes funcionando a todo vapor. O ambiente agitado do centro lembrava uma pessoa recém-acordada, vestindo uma peça de roupa sobre a outra, lenta e ao mesmo tempo apressada.

A androide foi surpreendida por uma sensação molhada em seu calcanhar. Ela baixou os olhos e deu de cara com um rosto brincalhão, com a língua pulando para fora. O olhar do pequeno animal  transbordava tanta meiguice que ela podia ser sentida através do ar.

LET observou o mamífero dar voltas em torno de si mesmo, passar por entre suas pernas e depois ficar caçando o próprio rabo. 

— Ô caramelo! Já acordou com a corda toda! Ô cão danado! — exclamou o senhor deitado no banco do lado, despertando do seu sono. Ele retirou a manta que o cobria, espichando-se todo, deixando a camisa verde-musgo puída à mostra. O cachorro correu em sua direção e os dois trocaram um abraço.

— A menina num tinha que ‘tá na escola? — perguntou, virando o pescoço para encarar LET.

— Bom dia, caro senhor… Er… Hoje as aulas foram canceladas.

— Caramba, é sério?! Será que é por causa de quê teve tiroteio? Misericórdia! — o homem se benzeu. — A menina aproveitou pra vir pra praça comer uma pipoquinha, né? Daqui a pouco o dono da barraquinha tá chegando.

— Pipoquinha? — inquiriu LET, franzindo as sobrancelhas. — Parece exótico.

— É, pipoquinha muito boa, tem com bacon, creme xis. Tem doce também, menina geralmente gosta de doce, né? Eu não sou muito fã não. — disse o senhor, antes de levar uma lambida no rosto. — Ô caramelo! Ô cão danado! Não adianta vir com esses carinhos que eu não tenho nada pra te dá, sem-vergonha!

A robô estranhou a relação daquele senhor com o animal: Primeiro, ele esbravejava, depois, acariciava a pelugem do cão. De qualquer forma, parecia existir um tipo de afeto mútuo entre eles, que também contaminou a androide. Decidiu ficar por mais um tempo, pois estava curiosa para conhecer a tal pipoquinha. Não poderia sentir seu sabor ― mas com certeza sentiria seu cheiro.

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Lúcia não estava muito animada para ir à escola. O lugar nunca fora um de seus favoritos, e com uma robô dentro do seu guarda-roupas, ele se tornava ainda mais desinteressante.

Para piorar, ainda teria que unir todas as suas forças para não contar sobre LET para Iago. Não que não confiasse no seu amigo, mas as paredes tinham ouvidos e ela tinha feito uma promessa na noite anterior.

 O percurso para a escola geralmente durava quinze minutos, mas foi só serenar um pouquinho no raiar da manhã para o tráfego se tornar intenso. Após cruzar o viaduto que ligava as duas partes do bairro, já se podia ver de longe o prédio de seis andares do seu colégio: Uma construção pintada em um azul-caneta que doía aos olhos e fazia o céu exigir um pedido de desculpas.

A menina notou que seu irmão mais novo estava tenso: Não parava de abrir e fechar as mãos, deixando os dedos arroxeados. Ela chamou a atenção dele com o olhar, fez um sinal de “silêncio” e, depois, de “cabeça decepada” para lembrá-lo de manter sigilo. 

Os dois irmãos receberam um beijo no rosto antes de deixarem o carro. A mãe deixava-os na esquina da escola, afinal, os hormônios da pré-adolescência não permitiam que ela os levasse até a entrada. 

Lucas e Lúcia se despediram após atravessarem a catraca da escola, cada um estudava em um bloco diferente. A menina então seguiu pela escadaria, pois era a opção menos tumultuada. Podia parecer estranho que ela preferisse andar quatro lances de escada, mas ela tinha seus bons motivos: 1) A fila do elevador ficava tão grande que levava ainda mais tempo pra chegar na sala, 2) Ficar, mesmo por um minuto, presa com outros estudantes em um cubículo claustrofóbico certamente causaria indigestão. E indigestão pela manhã é algo que não desejamos nem ao nosso pior inimigo.

Os corredores internos do prédio eram tingidos em um tom mais claro de azul. Pra quê tanto azul, meu Deus? – perguntava-se Lúcia. Ela tinha lido em alguma pesquisa que o tom acalmava as pessoas, mas ela só sentia vontade de gritar.

Quando chegou em sua sala, apenas os alunos que ocupavam as carteiras da frente já haviam chegado. A menina fazia parte da galera do meião: Os nem bagunceiros, nem estudiosos. O grupo neutro responsável pela fronteira entre os anjos e os pestinhas. Era uma zona instável: Às vezes alguém era empurrado pra frente, outras alguém era puxado para trás.

As carteiras, como não podiam deixar de ser, também eram azuis. As duas únicas coisas no cômodo que quebravam a monocromia eram o enorme quadro branco que cobria a parede de ponta a ponta e o piso de linóleo cinza.

Iago ainda não havia chegado, então Lúcia apenas dirigiu-se ao seu lugar de costume e esperou a aula começar. O primeiro tempo era com a sua adorada professora Carla. Já sentia os tímpanos doerem ao lembrar do som da caneta preta se arrastando no quadro. 

A sala foi enchendo. Os estudantes passavam por Lúcia sem ao menos cumprimentá-la, e ela gostava disso: Ser invisível na maior parte do tempo. Quando alguém notava a sua presença é que as coisas ficavam problemáticas. 

Apoiou a cabeça sobre os braços cruzados em cima da mesa, fitando a porta da sala. Faltando pouco para o sinal tocar, reconheceu o amontoado de cachos rebeldes do seu melhor amigo passar pelo umbral. Sorriu para ele à distância, e ele respondeu com um aceno tímido.

O menino ocupou a carteira da frente. Os dois não tiveram muito tempo para trocar palavras, pois a professora Carla, com uma pasta transparente debaixo das axilas e duas bolsas pesadas em cada braço, entrou na sala. Na cintura dela, uma pochete sustentava um alto-falante.

A educadora cumprimentou a turma com um bom dia, e depois retirou um microfone portátil de uma das suas bolsas para plugar na caixinha de som, potencializando o alcance da sua voz. A primeira metade da aula geralmente era bastante tranquila, as crianças ainda estavam sonolentas demais para causar um furor, porém, à medida que o tempo passava, a conversa paralela aumentava, recebendo pedidos de silêncio da professora.

A situação não chegava ao ponto do incontrolável, e isso se devia ao fato de que a professora fazia vista grossa para muitas coisas que ocorriam na sala de aula. No bimestre passado, os meninos rodaram uma lista ranqueando as garotas, das mais bonitas para as mais feias: Lúcia não só ficou em último lugar, como também desenharam uma longa seta a separando da penúltima colocada.

Era capaz de se lembrar do dia como se fosse ontem: Não chorar foi difícil, conter sua frustração, impossível. Esmagou o papel entre os dedos e o lançou na lixeira com toda sua força antes de sair da sala pisando forte. Pensava em contar o caso para a coordenação, mas pensou que seria humilhante demais. Como a educadora ignorou o ocorrido, Lúcia apenas engoliu em seco e voltou para sala como se nada tivesse acontecido.

Lúcia foi acordada de suas memórias por uma bolinha de papel. Girou o pescoço e deparou-se com o magricelo e sorridente Felipe Braga soprando bolinhas de papel através de um canudinho de plástico na sua direção. Como esse delinquente conseguiu um canudinho de plástico?

A menina respirou fundo e voltou a fitar o quadro branco, sabendo que a melhor maneira de lidar com a situação era fingir que nada estava acontecendo. Nem ao menos tentou retirar as bolinhas de papel que se acumulavam entre seus fios pretos, e, como consequência, ao tocar o sinal do término do primeiro tempo, parecia que tinha nevado sobre o topo de sua cabeça.

O restante do dia escolar ocorreu da mesma forma que todos os outros dias, com a exceção de que Lúcia e Iago não conversaram muito: A garota estava preocupada em deixar algo sair pela sua matraca, e o menino, de natureza introvertida, não falava muito se alguém não puxava assunto.

Lúcia começou a roer as unhas após o intervalo. Checava a hora em seu celular de quinze em quinze minutos. Suas pernas tremiam: Será que alguém havia descoberto a presença de LET? E se ela tentasse ir embora e acabasse interceptada pelo governo? E se ela conseguisse voltar para sua família e elas nunca tivessem a chance de se despedir? Apenas pensar nisso a aterrorizava. Uma voz feminina vindo do fundo da sala fazer um comentário engraçadinho sobre sua reação nervosa. A classe toda caiu em gargalhadas e Lúcia simplesmente se encolheu, fingindo não dar importância. 

O último tempo findou, e a criança jogou seu caderno, estojo e canetas de qualquer jeito dentro da mochila, mal se despedindo de seu amigo. Queria sair dali rápido, mas perdeu a batalha contra a multidão e teve de se contentar em andar em um ritmo mais lento.

Até as escadas ficavam lotadas na hora da saída, se os alunos pudessem saltar através das janelas, fariam isso. 

Primeiro, precisava encontrar seu irmão mais novo: O horário mais seguro permitia que os dois fossem embora para casa sozinhos. Andava na ponta dos pés, esticando o pescoço, mas não era capaz de enxergá-lo na multidão de crianças e adolescentes ansiosos.

A menina resolveu esperar o irmão no lado de fora do prédio. Traçou sua rota com a ajuda dos seus cotovelos e alcançou o portão principal. Durante o percurso, um dos seus cadarços desamarrou, mas Lúcia não percebeu. Ao finalmente cruzar o portão, tropeçou na ponta do cadarço e caiu sobre os próprios joelhos. Sentiu apenas um leve formigamento, e os seus ouvidos foram invadidos pelo som de risadas.

— Garota muito lerda, mano. — Lúcia não precisava nem se virar para saber quem tinha falado isso. Felipe não media esforços para se aparecer em todas as oportunidades ofertadas, tinha a necessidade de mostrar que estava no topo da delicada hierarquia de sua turma.

Lúcia sentia o sangue ferver de desprezo. O que as pessoas não faziam para manter a admiração de gente estúpida, não é mesmo? Será que eles não percebiam que daqui a dez anos era provável que nenhum deles ainda se falaria?

A garota passou a mão nos joelhos, limpando a poeira, porém, ao levantar o rosto, quase caiu novamente: Do outro lado da rua, estava LET, acompanhada de um cãozinho amarelo.

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